Relâmpagos entre as artes plásticas e a palavra
uma constituição de sentidos
Relâmpagos. O tÃtulo do livro de Ferreira Gullar sugere o que se tornará, quando o leitor o abre, desde a primeira página: fulguração. Aliás, é o que o escritor determina ao afirmar, na abertura do livro, que “toda obra de arte atinge nosso olhar como uma inesperada fulguração, um relâmpago”. O exercÃcio de leitura que se segue vai catalogar os sentidos a que essa proposição busca chegar, conferir.
Nascida da certeza do escritor, a fulguração da tela fala por si, numa linguagem que a arte verbal é incapaz de traduzir. O que dela traduzimos aponta para uma leitura que pode ser a da “manifestação estilÃstica, a da sociologia ou da história para que se possa compreendê-la como tendência artÃstica”. (GULLAR; 2003). A visada de Gullar é, entretanto, outra e se liga à compreensão da manifestação do poético. Do poético como matéria bruta que também explode nos sentidos do leitor, sem que seja necessário determinar sua natureza, quando, ainda sob a sua influência poderosa, se vê o que não se pode ver sob as manhãs e tardes do cotidiano. Sem que se rompa com o cotidiano – ele de fato está ali presente – o cotidiano foi estabilizado numa profusão de tempos irrecuperáveis. A leitura, sensÃvel, densa e direta ao mesmo tempo, em que a percepção do quadro pelo poético traçará, em palavras simples e definitivas, como o quadro comentado:
Um momento de vida, mÃnimo episódio da história humana – pessoas que, numa sala, posam para um pintor que as retrata – ali na Espanha, num certo dia do século XVII. E parece uma visão irreal esta cena real (com sua luz doce) que Velázquez fixou na tela para sempre. Mas que, na vida, se desfez naturalmente em seguida, como qualquer outra, entre palavras e risos talvez. (Gullar: 2003; 31)
A passagem referida acima comenta o quadro de Velázquez – As meninas – mas, para além do que se afirma acerca dele, importa a compreensão absoluta de dois tempos distintos e complementares: o tempo intemporal do quadro, que fixa para sempre um instante que o tempo cotidiano deixa passar na inexorabilidade mesma do tempo. Nesse conflito, que não se coloca como conflito, mas como sÃntese dos movimentos postos em quietude pelo pintor, pelo poeta, surge a revelação instantânea do que houve e ainda há. Relâmpagos.
Relâmpagos. A mancha azul que se grava pelo olhar nas retinas da compreensão do absoluto, tornada retalho e composição, em algum lugar – onde? – do centro desfigurado das certezas do cotidiano explode no mundo individual e coletivo como um lampejo pulsante e interminável. O poema em que se lança Gullar tem a ênfase da demonstração do que não se pode compreender – a ênfase tornada objeto, mas objeto que, para além de si mesmo, constrói e desfaz os sentidos que não alcançamos, mas que nos pertencem, nos conformam na fixação material do que podemos ser, talvez o “puÃdo aceno humano”, que o poeta percebe. Em outras palavras: a constituição do olhar, sob o azul descolorido da roupa da Madona, fulgura como um tapa no rosto, como um comentário excêntrico à composição de Leonardo – que, entretanto, não se nota no equilÃbrio perfeito da composição. Fulguração do poético, a Mancha revisita no quadro a explosão da percepção de outra linguagem: a poética.
Iridescência. Mulher se penteando. Efusão de cores. A quase figuração. Descrição muda do que é, percebe-se, num lampejo do quase que se apresenta como é e não é. Não como em Velázquez, que em outro plano tornou estável a sala na qual a cena do mundo se estancou a partir do olhar, a mulher que se penteia torna estável “um fato banal da vida”. Diferenciação absoluta. Aqui importam as cores – a profusão delas – que explodem nos sentidos e compõem para além da figuração a distorção da banalidade, mas também torna estável não mais a sala ampla dos castelos, senão que a cena Ãntima em uma casa qualquer. Entretanto. Entretanto, o mesmo fulgor, o mesmo relâmpago com que se revela a beleza da vida.
Jeanne Hébuterre. Frio e fome. A mulher alongada de Modigliani. A beleza fulgurante da vida ensina nos nus a transmutação do “desejo sexual em ternura e poesia” (Gullar: 2003; 83). Harmonia e cor, outro o brilho da intimidade – as volutas dos pêlos no Nu sentado interagem – contracenam com a história. Degas onde a cor é profusão, desimagem; Picasso onde a cor esculpe a imagem “talhada a facão” (Gullar: 2003; 73). A sensualidade agressiva das Demoiselles. O quadro de Modigliani foi composto em 1917, ano em que Degas morre e após dez anos em que a ruptura cubista aparece com seu clarão destruidor. Três formas da forma, da poesia, da revelação da beleza. Lições gullarianas. Brancusi e a multiplicação da escultura na qual o suporte é já a obra. Gullar e a multiplicação da escritura na qual a explosão do fulgor são estilhaços tocados pelo todo. Simultaneidade.
O toque do dedo, a cor que salta nas retinas do poeta: aqui o canto amarelo, ali a mancha azul, o quadro de Bracher é escrito por este delÃrio perceptivo que ainda uma vez mais ressalta a especificidade do fazer/compreender a arte. E algo mais: a escolha da cor – o azul de Leonardo, o amarelo de Bracher – são parte da fabricação do livro. Escolhas. Intenção de significado. PartÃculas de uma tradução sensÃvel das possibilidades de criação ou, em outras palavras: no livro que se dá a ler, a constituição de um universo auto-centrado, alusivo, em diversos momentos, da memória da aprendizagem, mas também da autonomia e liberdade de ver.
Duas vertentes, portanto, se entrelaçam e constituem o livro: a escolha dos quadros e a sua submissão ao construto da indagação do que norteia o pensamento sobre as artes plásticas. Se a escolha é ditada pelo prazer de olhar, pelo prazer de “tentar apreender [das obras] o frescor, a verdade material e poética”; a indagação dos significados amplia este prazer e transmite ao leitor a intenção de criar a forma do livro. As formas artÃsticas possuem concretude. São o que são e ocupam lugar no espaço. São matéria que desordena a matéria e dá à apreensão dos fenômenos a capacidade de fazer perceber, para além da matéria, a subversão do artista na fabricação da sua própria matéria. A respeito, escreve Gullar, ao pontuar o desenho de Raphael:
Raphael brinca com as linhas, brinca com a imitação dor real: imita-o brincando, exibindo seu virtuosismo que dispensa segui-lo passo a passo; desestabiliza nosso hábito de ver e nos dá a beleza outra, que só o desenho nos pode dar – o desenho de Raphael, mestre anônimo do Engenho de Dentro. (GULLAR: 2003; 116).
Perceber e organizar o modo de operação dos quadros e dos textos, que a eles se referem, exige do leitor que monte as possibilidades do legÃvel que se inscreve em Relâmpagos.
O livro de Gullar não apenas pontua a percepção do que a arte pictórica revela à leitura, é também uma lição, em pequenos quadros, da composição que os comentários vão expondo. É também, através da “experiência fenomenológica”, um mergulho profÃcuo na sociologia, na história da arte. Apenas que o móvel que constrói essa história, essa sociologia, muda a percepção de seu discurso teórico e vai se afirmar – com rigor e exatidão – em um ponto onde a percepção do histórico, do sociológico, se torna entranhada na aguda concepção das artes verbal e pictórica em que as leis da representação e de sua técnica mergulham numa complexidade de sentidos que nem a autonomia da técnica, nem a autonomia do tempo representado correm paralelos.
A percepção que o leitor de Relâmpagos vai construindo ao longo da leitura tem a ver com essa predisposição do discurso artÃstico – sem deixar de ser “crÃtico, autocrÃtico e autofágico” – o discurso que se compõe sob os relâmpagos demonstra e se faz tão contemporâneo quanto a arte que se revela de sua escrita, de sua tela folha. Pintura da pintura – escrita da escrita – absorvida pela sua época, o texto de Gullar se revela como os móbiles de Alexandre Calder, que realizam
“se o tocamos… … como que uma reavaliação de seu equilÃbrio, de seu sistema de distribuição da gravidade: a pá tocada indaga a outra, esta a haste seguinte, e a indagação, como um murmúrio, vai se propagando dos pequenos sistemas aos maiores até ocupar o sistema geral – o móbile todo.” (GULLAR: 2003; 18)
Tábua de quadros e esculturas:
As meninas – Velásquez
A Madonna do cravo – Leonardo da Vinci
Mulher se penteando – Degas
Nu reclinado – Modigliani
Lês Demoiselles D’Avignon – Picasso
Musa adormecida – Brancusi
Natureza-morta com copos de leite e violino – Bracher
Vaso de plantas com bananas – Raphael Domingues
Aranha Suspensa - Calder
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.



















