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Héliophonia de Marcos Bonisson

A Galeria Tempo apresentou nesta sexta na Casa do Saber o vídeo Héliophonia. Idealizado pelo artista visual Marcos Bonisson, ele aborda o universo de Hélio Oiticica, inserindo o espectador numa experiência audiocognitiva emocionante e renovadora, características também inerentes ao trabalho de Oiticica. Se o primeiro impulso do raciocínio excludente é classificar o vídeo e inseri-lo em categorias como videoarte, vídeo experimental e afins, fica claro desde o bate-papo com Marcos que as classificações são desnecessárias. O vídeo é na estrutura e na narrativa um reflexo do conteúdo proposto, uma materialização do pensamento de Hélio que dizia “A montagem é uma técnica velha. Quero usar tudo, nada de costura e cozinha”, desse modo livre de rótulos e limites.

Héliophonia de Marcos Bonisson Héliophonia de Marcos Bonisson Héliophonia de Marcos Bonisson
Apesar do estado indomado e da figura cativante do artista, o que chama atenção em Héliophonia é o som, ou como define Marcos Bonisson, a fala-performance de Hélio, montada a partir dos héliotapes. “O que eu faço é música”, fala ele, junto de seus momentos-frame. Na tela, o rosto de Buñuel retirado da capa da New York Times Magazine tem o olho cortado, numa alusão a Cão Andaluz, com filetes de cocaína formando um jorro de sangue imaginário. Nas falas, acompanhamos a explicação sobre a obra, a graça, o efeito do pó, seu surgimento e desaparecimento, um processo reverso de semiótica, que domina a audição e aproxima o espectador, decompondo e recompondo a centelha de vida diegética.

Hélio Oiticica viveu de 1937 a 1980, e conseguiu ser arte em plena ditadura. Mostrou desde sempre que sua essência era o continuum, o que se refletia em seus quase-filmes, passados em loop (e por isso sem intervalos). Hélio conseguiu manter em uma mão a vanguarda e na outra o clássico, quebrando o conceito temporal da sucessão e, como o dragão oriental que morde o próprio rabo, transformando-se no eterno, um verbo presente, que se perpetua até hoje.

Como disse Luiz Alberto Oliveira, físico e amigo de Marcos, o que se destaca em Hélio é a imanência, a potencialidade do ser. Suas obras são reflexivas, compostas pela mão do artista e pelo que arrancam do espectador, gerando um fluxo que se auto-alimenta e perpetua.

Luiz Alberto Oliveira, Eric Novello e Marcos Bonisson (da esquerda para a direita)

Talvez Hélio tenha alcançado o estado quantum de energia indivisível, mantendo a individualidade capsular - um universo em si - e tocando outros universos na expansão de seus relacionamentos, um sistema espacial de amigos, obras e ideologias na translação de bólides e parangolés.

“Por causa de si (causa sui) entendo aquilo cuja essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza só pode ser concebida como existente. Por substância entendo o que é em si e concebido por si, quer dizer, aquilo cujo conceito não precisa do conceito de outra coisa para ser formado. Um corpo não pode ser limitado por um pensamento, nem um pensamento por um corpo”. - Spinoza, Ética.

Passado o influxo informativo do vídeo, o que vem aos olhos - e aos ouvidos - é a sinceridade do diretor. O sentimento de Marcos transpassa a câmera, objetivas e película, molda-se no olhar perdido em um ponto entre a arte, a amizade e a memória, e alia-se à obra no objetivo transcendente de fazer “da tela uma janela do espaço real”.

- Marcos Bonisson tem trabalhos em coleções diversas, como as de Gilberto Chateaubriand, Joaquin Paiva e da Fondation Cartier Pour L’art contemporain em Paris. Héliophonia foi realizado com apoio da Bolsa Rio Arte e do Projeto HO, e integra a 27ª Bienal de São Paulo (2006).

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0004, em 18/12/2006

 

 

 

 

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