Skip navigation

Sólo Dios sabe é uma co-produção entre Brasil e México, que segue a narrativa clássica dos road movies, recaindo também nos erros mais comuns do gênero. Filmes que têm a estrada como espinha dorsal precisam tomar cuidado com certos aspectos: 1. mudam as locações e os personagens secundários, mas o tema deve se manter firme até o fim. 2. o que faz o filme andar é o desenvolvimento dramático e não o ritmo das rodas.

Só Deus Sabe

Só Deus sabe começa nos Estados Unidos. Lá, somos apresentados a brasileira Dolores (Alice Braga), que tem um caso com seu chefe/professor. Depois que ele cancela um jantar por causa da esposa, Dolores resolve sair para dançar com os amigos em uma cidade mexicana. Pit stop 2, surge Dámian (Diego Luna) que fica interessado em Dolores, mas é ignorado. Quando está saindo da boate, vê o carro dela sendo assaltado e corre para avisá-la. Tarde demais. Dolores está sem passaporte e precisará viajar pelo México para conseguir novo visto e voltar aos Estados Unidos.

A princípio, está armado um road movie simpático, que tem como tema o relacionamento entre os dois protagonistas e como cenário as cidades de San Diego, Tijuana, Cidade do México, São Paulo e Salvador. Diego Luna é um ator talentoso com um currículo extenso (incluindo o cult road movie Y tu mamá también) e Alice Braga – sobrinha de Sônia Braga – conta com atuações importantes em Cidade de Deus e Cidade Baixa. Então, nada mais natural do que deslocar o peso das cenas para cima dos atores e construir a partir daí a história. Certo?

Errado.

Na película do diretor Carlos Bolado Muñoz, o assunto esgota no caminho. Assim que o filme chega no Brasil o roteiro perde o rumo e a religião passa a ser o tema principal. Teses sobre destino e acaso se mesclam a um candomblé exagerado que podia figurar no documentário Olhar estrangeiro de Lucia Murat ao lado de Anaconda e Lambada. Para complicar um pouco mais, surge uma doença terminal no estilo Deus ex machina, um trunfo suspeito desde as tragédias de Eurípedes.

No fim, é uma pena que dois bons atores não tenham sido aproveitados no que poderia ser um belo filme adolescente, tão raro nas montanhas de Hollywood. Na volta para casa, só o que resta é assoviar aquela música cantada por Elis Regina:

“Só Deus é quem sabe do amor
Eu não sei nada
Só sei que a vida nos prepara cada cilada
E é inútil se tentar fugir
Da longa estrada”