UniversidArte XIV
Nada como uma coletiva de estudantes para rever algumas teorias sobre como obtemos significado.
A Universidade Estácio de Sá apresenta seus alunos de arte premiados em 2006 na Casa França-Brasil e apresenta também, embora sem querer, um argumento a favor do pós-estruturalismo e uma contestação das idéias de Saussure, de que aquilo que é, o é sendo tudo que o resto não é.
Aqui se trata mais de uma conversa do que de uma exclusão.
Os premiados - Adelino de Oliveira, Alexandre Braga, Alexandre Murucci, Analu Nabuco, Camila Rocha, Claudio Melli, Felipe Braga, Leila Souza, Marcos Chaves, Rick Castro, Rodrigo Torres, Thamar, Tito Sena e Viviane Teixeira - no entanto, ficaram excluÃdos, em uma sala à parte, privados da conversa que se dá entre os outros e entre outras artes e outras linguagens.
No salão principal, Cláudio Pedro instalou um Psicopompos. Suas peças de madeira em duas cores, torneadas, se inseriram nas pedras do chão dessa antiga cavalariça, construÃda, bem no espÃrito do que estamos falando, por um arquiteto que acabou virando vinho, o Grandjean de Montigny. As peças, em curvas e pontas, têm um ar meio mourisco que pode nos surpreender mas não aos portugueses que transitavam pelo porto ao lado, na época em que o edifÃcio foi construÃdo, 1810. Cláudio Pedro, então, na sua fala, comenta e presentifica outra arte e também outra época.
Seu colega Osvaldo Carvalho vai mais além. Ele traz uma conversa entre duas linguagens. Freedom é formado por tocos de cigarro. Poderia ser uma manifestação boba de simbolismo não fossem, os tocos, da marca Free. A peça em linguagem visual só se complementa, portanto, com a ponte feita com a linguagem escrita. De frente (os tocos estão em escorço) a liberdade em questão é a de juntar rodelinhas marrons até que formem uma estrutura à beira de se desestruturar, pela adição ou subtração sempre possÃvel de seus pequenos elementos. De lado, lê-se a marca impressa e a desestabilização do significado inicial então se estabelece. Uma liçãozinha do que a arte pode fazer.
Lição essa demonstrada com grande competência por outro dos participantes, Rejane Fermann. Sua peça se chama Toujours Le Déjeuner e é uma tradução contemporânea da obra de Manet. Le déjeuner sur l’herbe pôs lado a lado - e fez escândalo por isso - conceitos que costumavam ficar bem separados: natureza e civilização.
No quadro de Manet, são cavalheiros bem vestidos (civilizados, racionais) e damas nuas (a velha identificação da mulher com a natureza) durante um piquenique (a visitação ritualÃstica que citadinos fazem periodicamente a cenários “naturais”) à s margens do Sena - o rio, elemento da “natureza”, que visita Paris, a maior cidade da época.
Na obra de Fermann, o piquenique mostra a junção, o diálogo, dos dois conceitos que o constituem. Ao fundo, uma pintura de espaços coloridos, uns verdes. Na frente, duas lâminas de vidro com o contorno dos personagens esboçados em metal. Os três planos se apresentam em movimento quando a pessoa à sua frente também se movimenta.
E é esse o tema dessa conversa: movimento. Os participantes da mostra estão em movimento e supõem um visitante em movimento.
Você se aproxima das pontas mouriscas de Cláudio Pedro como quem vai para dentro e para o fundo. Mas elas ficam perto das grandes portas de vidro, iluminadas portanto, e perto de uma possibilidade de continuidade no caminhar.
Se você não andar em volta dos cigarros Free deixará de perceber a parte mais importante da obra.
E passear no piquenique de Manet faz você sentir como poderia estar vestido ou nu, igualmente.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















