Cassino Royal
Quando Die Another Day conseguiu a maior bilheteria da série James Bond, tornou-se comum ouvir a frase “é melhor pararem por aqui, não há mais nada para inventar”. De certo modo, os marketeiros que criaram esse pseudolapso de espontaneidade estavam corretos. Die Another Day foi um sÃmbolo do cinema megalomanÃaco, juntou Pierce Brosnan e Halle Berry, trouxe carros invisÃveis, armas disparadas do espaço e aquele exagero que todo mundo se acostumou a ver em um filme de Bond. Pontos positivos? A trilha sonora de Madonna rompeu a tradição das canções 007 (o que deixou os fãs furiosos) e Pierce Brosnan, com o ar canastrão e debochado, estava perfeito no papel, que cada vez mais tornava-se uma autoparódia num beco sem saÃda. Com essas cartas lançadas e a bilheteria mundial beirando US$432 milhões de dólares (fora dvds), ficava a pergunta no ar: o que fazer para superar a marca e o carnaval bondiano?
Para a missão, foram convocados Martin Campbell, diretor de GoldenEye – bilheteria de US$352 milhões, e os roteiristas Neal Purvis e Robert Wade, dobradinha já consagrada em Die Another Day e The World is Not Enough – US$361 milhões. Pela equipe, é evidente que o estúdio não pretendia se arriscar na mudança, o que explica a adaptação do livro original de Ian Fleming. A idéia de beber da fonte e zerar a Ãndole mÃtica da personalidade de James Bond possibilitou mudar os rumos sem trair o universo idolatrado pelos fãs, uma jogada bem feita e que deu certo. Você pode pensar: mas como não houve mudanças radicais? Casino Royale não tem carros fantásticos, relógios que desafiam a lógica nem cenários mirabolantes que explodem no final do filme. Mérito do livro por construir a história assim, mérito dos roteiristas por respeitarem o universo autocontido. Entretanto, um olhar mais incisivo encontrará cenas intermináveis de perseguição (a primeira delas coreografada com parkour) com diálogos breves de intervalo, uma história que demora para começar, bandidos de cabelo lambido e cicatriz no rosto e as famosas viradas de trama baseadas nas bondgirls. Pelo que se vê, a estrutura é muito próxima dos filmes anteriores, só que mais compactada por ser uma adaptação de livro. Cassino Royal (até agora com US$451,760 milhões para comemorar) segue a estrutura dramática do grand finale, mas explora blocos isolados, o que é uma caracterÃstica da narrativa épica, deixando-o com esse aspecto picotado de melhores momentos.
Dito isso, fica mais fácil perceber a importância de Daniel Craig no papel. Depois de desperdiçar talento em produções menores, o ator se mostrou perfeito na nova encarnação de Bond. Não é só o perfil fÃsico que está diferente. O perfil psicológico mais sóbrio e sombrio, ganhos enormes do roteiro, acabaram se incutindo no restante do filme. Sem renegar o passado cinematográfico do espião, foi possÃvel dar uma guinada de rumo e recolocar James Bond nos trilhos.
Nada mais natural que 007 seguisse a tendência de Hollywood de resgatar o valor das histórias e de usar os efeitos especiais à favor do filme. Exemplos recentes são Os Infiltrados, O Plano Perfeito, O Matador, Diamante de Sangue, Match Point, Crash e The Prestige, entre outros. Curiosamente, todos ligados de certo modo ao estilo policial.
Para terminar, só faltava mesmo a Bond Girl. Eva Green, a deusa sedutora de Os Sonhadores, surge então como a bondgirl mais… ãhn… inteligente e amorosa de toda a saga de James Bond. James Bond que não é almofadinha e uma bondgirl com coração e QI? Bem-vindos os novos tempos.
Como curiosidade: Paul Haggis também participa do roteiro. Ele venceu o Oscar com Crash e Menina de Ouro, e é forte candidato esse ano com Flags of our Fathers.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















