Deuses Gregos em Templos Contemporâneos
O principal da exposição no MAC-Niterói não é o que está lá dentro mas a idéia de juntar estátuas de deuses gregos e estatuetas dos orixás afro-brasileiros. Colocá-las em um mesmo grau de importância, eis o que mais desestrutura e ensina.
Há uma outra coisa.
Juntos, os nus completamente humanos dos deuses gregos e as roupas coloridas e completamente triviais dos orixás reforçam uma similaridade que poderia passar despercebida: a da importância da experiência e dos sentidos em ambas as buscas - a grega e a africana - por uma glorificação religiosa que, afinal, pretende anular, por definição, esses mesmos sentidos e experiências.
O sublime, em ambos os casos, é o sublime de sujeitos de sua própria história.
Apolo, Atenas e Hermes são jovens bonitos, o primeiro gosta de música, o último carrega consigo umbastão de quem anda por aÃ, batendo papo, levando e trazendo notÃcias. Bastão esse muito parecido com o de Exu, outro andarilho. Há um Hermes mais velho, de barbas sábias, mas não é esse o preferido. A representação do jovem é de longe a mais popular. Depois vêm os dançarinos DionÃsio e Omolu, cada qual em seu continente, mas dançam igual. E as saias coloridas de Xangô (vermelha), Iemanjá (azul), Oxalá (branca), Oxum (amarela), Oxossi (verde). Nada de muito sobre-humano.
São, tantos uns quanto outros, heterogêneos.
Deuses são sempre belos, mesmo quando aterradores. E quando representam ideais únicos de beleza estarão servindo aos propósitos ideológicos de sociedades de tendências hegemônicas, totalitárias. Se as manifestações estéticas são discussões éticas no plano da forma, impor uma única forma acaba com a discussão. Além disso, o esforço de identificação com o ideal imposto garante ao poder centralizador uma ilusão de coerência interna através dessa suposta harmonia externa.As infinitas diferenças individuais são abstraÃdas para dar lugar a uma estética que junta a estética do sublime com a do herói ideal, em geral militarizado. Uma espécie de disciplina com punição automática, se você é feio, você não “pertence” e pronto, você não existe.
No MAC, o antÃdoto se dá em cadeia. Ao juntar os dois grupos de deuses, o museu combate a unicidade da estética. E faz isso expondo dois exemplos históricos dessa mesma atitude, a grega e a africana. É a melhor função que é possÃvel a um museu. O MAC é freqüentemente acusado de fazer o jogo do museu-turismo, o contraponto contemporâneo do museu-cadáver, onde objetos mortos se enterravam para todo o sempre. Talvez ele não consiga nem queira disassociar sua imagem da arquitetura e do cenário espetacular que o compõem, mas suas exposições trazem uma inteligência que merece destaque. Não são objetos, mas uma possibilidade de entendimento.
Além dos deuses, a exposição traz alguns poucos exemplos de arte contemporânea que ecoam elementos dos dois primeiros grupos. Entre eles, uma tela de Daniel Senise com um grande pé grafitado sobre uma coluna arquitetônica. É uma escolha polÃtica. O escatológico e o “baixo” sempre foram antÃdotos eficazes contra o sublime do tipo cristão, desencorpado. Há também um plissado de Eliane Duarte, Vestido de noiva, que por estar perto de Artémis com suas vestes também plissadas, passa a adquirir uma ironia amarga e feminina sobre ideais inatingÃveis de beleza.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.



















