Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

Vimeo Youtube Orkut Facebook Twitter RSS Podcast do Aguarras
1/1/2007

Deuses Gregos em Templos Contemporâneos

O principal da exposição no MAC-Niterói não é o que está lá dentro mas a idéia de juntar estátuas de deuses gregos e estatuetas dos orixás afro-brasileiros. Colocá-las em um mesmo grau de importância, eis o que mais desestrutura e ensina.

Há uma outra coisa.

Juntos, os nus completamente humanos dos deuses gregos e as roupas coloridas e completamente triviais dos orixás reforçam uma similaridade que poderia passar despercebida: a da importância da experiência e dos sentidos em ambas as buscas – a grega e a africana – por uma glorificação religiosa que, afinal, pretende anular, por definição, esses mesmos sentidos e experiências.

O sublime, em ambos os casos, é o sublime de sujeitos de sua própria história.

Apolo, Atenas e Hermes são jovens bonitos, o primeiro gosta de música, o último carrega consigo umbastão de quem anda por aí, batendo papo, levando e trazendo notícias. Bastão esse muito parecido com o de Exu, outro andarilho. Há um Hermes mais velho, de barbas sábias, mas não é esse o preferido. A representação do jovem é de longe a mais popular. Depois vêm os dançarinos Dionísio e Omolu, cada qual em seu continente, mas dançam igual. E as saias coloridas de Xangô (vermelha), Iemanjá (azul), Oxalá (branca), Oxum (amarela), Oxossi (verde). Nada de muito sobre-humano.

São, tantos uns quanto outros, heterogêneos.

Deuses são sempre belos, mesmo quando aterradores. E quando representam ideais únicos de beleza estarão servindo aos propósitos ideológicos de sociedades de tendências hegemônicas, totalitárias. Se as manifestações estéticas são discussões éticas no plano da forma, impor uma única forma acaba com a discussão. Além disso, o esforço de identificação com o ideal imposto garante ao poder centralizador uma ilusão de coerência interna através dessa suposta harmonia externa.As infinitas diferenças individuais são abstraídas para dar lugar a uma estética que junta a estética do sublime com a do herói ideal, em geral militarizado. Uma espécie de disciplina com punição automática, se você é feio, você não “pertence” e pronto, você não existe.

No MAC, o antídoto se dá em cadeia. Ao juntar os dois grupos de deuses, o museu combate a unicidade da estética. E faz isso expondo dois exemplos históricos dessa mesma atitude, a grega e a africana. É a melhor função que é possível a um museu. O MAC é freqüentemente acusado de fazer o jogo do museu-turismo, o contraponto contemporâneo do museu-cadáver, onde objetos mortos se enterravam para todo o sempre. Talvez ele não consiga nem queira disassociar sua imagem da arquitetura e do cenário espetacular que o compõem, mas suas exposições trazem uma inteligência que merece destaque. Não são objetos, mas uma possibilidade de entendimento.

Além dos deuses, a exposição traz alguns poucos exemplos de arte contemporânea que ecoam elementos dos dois primeiros grupos. Entre eles, uma tela de Daniel Senise com um grande pé grafitado sobre uma coluna arquitetônica. É uma escolha política. O escatológico e o “baixo” sempre foram antídotos eficazes contra o sublime do tipo cristão, desencorpado. Há também um plissado de Eliane Duarte, Vestido de noiva, que por estar perto de Artémis com suas vestes também plissadas, passa a adquirir uma ironia amarga e feminina sobre ideais inatingíveis de beleza.

panorama geral da exposição- Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Exu - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Iemanjá - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Omolu - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Oxalá - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Oxossi - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Oxum - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Xangô - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Eliane Duarte - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Eliane Duarte (detalhe) - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Artemis - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Daniel Senise - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) bastão - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) bastão (detalhe) - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Atenas - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Atenas (detalhe)- Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Apolo - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Dionísio - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Hermes jovem - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Hermes jovem (detalhe) - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Hermes velho - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ) Tristão - Deuses Gregos do Pergamon e Orixás do Museu Casa do Pontal no MAC - Niterói (RJ)

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.