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Prelúdios e Noturnos de Neil Gaiman

O uso da estrutura na criação da narrativa

Sandman é um dos personagens de HQs mais famosos no Brasil. Se você é fã desde o começo sabe que ele não é uma criação de Neil Gaiman, mas que foi a nova roupagem idealizada pelo autor que garantiu seu sucesso nos HQs. Talvez para brincar com esse fato, Gaiman apresente Sandman ao leitor em um projeto de reconstrução de seu próprio universo. Ao associar logo na primeira página o personagem ao conceito de continuidade, Gaiman nos coloca em uma situação intermediária, um acaso pontual de uma história ainda desconhecida, tornando a apresentação de Sandman ao leitor uma apresentação a si mesmo.

A primeira coisa que vem em mente é a idéia do eterno, a continuidade reforçada pelo laço sanguíneo de Sandman com a Morte, sua irmã. Sandman sempre existiu e existirá, e isso amplia o número de possibilidades narrativas. Em nosso primeiro contato, o senhor dos sonhos está desmaiado. É uma criatura mascarada e inexpressiva aprisionada por um acidente de percurso. Uma seita de fanáticos religiosos tentava aprisionar a Morte e acabou capturando o Sonho (Sandman).

Com um toque de Lewis Carroll, Gaiman desloca o personagem da realidade a qual está acostumado e joga-o em um plano estranho para ele, mas com regras que nós já conhecemos. Mesmo sem coelhos e buracos de queda eterna, Alice, o símbolo da metafísica e da metalinguagem, ajuda a transformar Sandman em um ser real, simpático para o leitor. Sandman está aqui, do nosso lado. Se fosse apresentado diretamente no mundo que comanda seriam demais as novas regras e informações, e o príncipe dos sonhos correria riscos na travessia de personagem de ficção para se pós-materialização na mente de quem lê. Ao ser arrancado do mundo dos sonhos pela seita e jogado em nosso mundo, Gaiman nos conecta ao personagem e esse à nossa realidade. Quando Sandman foge de volta – aqui está o tiro certeiro de Gaiman –, fazemos o caminho junto com ele, nos tornando reféns da viagem.

Gaiman faz outra manobra inteligente ao demonstrar o que Sandman é capaz de fazer com seus poderes. Ao invés de apelar para passes de mágica, o autor decide mostrar o que a ausência de Sandman causou ao nosso mundo e ao dele.

O habitante dos sonhos interfere de diversas maneiras em nossas vidas. A sua captura faz algumas pessoas dormirem eternamente e outras sofrerem de insônia contínua. Sandman não é apenas o criador, que larga as criações à própria sorte. Ele é parte da engrenagem, uma peça fundamental do universo real e imaginário, e a sua ausência faz com que a máquina não funcione com a devida precisão.

Sandman se alimenta, literalmente, de sonhos. Pode comer o que está no sonho de uma pessoa, usar os meios de transporte no de outra, montar dragões alados para se movimentar para lá e para cá.

Nesses quadros rápidos, descobrimos que Sandman se alimenta da própria criação. Ele não é exatamente a matéria-prima de sua obra, mas é capaz de criá-la e consumi-la com a mesma facilidade, estabelecendo um ciclo – conceito usado na maioria das obras de Gaiman.

Outra cena-chave de Prelúdios e Noturnos é a que Sandman pega areia no sonho de um vigia para usar como arma. O vigia não está dormindo exatamente. Ele imagina as férias em uma praia, seu sonho de consumo, e com isso restabelece a dualidade inerente à palavra sonho e ao conceito de que o homem “sonha acordado”. Essa expectativa freudiana nada mais é do que o desejo. O que parece óbvio em princípio na verdade fortalece a base lógica do personagem, ampliando os seus domínios e a sua relevância para a humanidade, e também a dimensão do humano. Os sonhos escapam do sono e se conectam à esperança, ambição, vontade e tudo que nos faz almejar. Por fim: a areia corriqueira da praia funciona como a que Sandman carrega em uma de suas armas mais poderosas, a algibeira, bastando para isso que passe pelas mãos dele. Um sinal de que a matéria-prima pode ser transformada pela intenção.

Se no início o sonho parece uma dádiva, Gaiman permite ao príncipe dos sonhos mudar esse ponto-de-vista de acordo com a sua vontade. Para aqueles que trabalham, o sono é uma recompensa, para os que dormem eternamente, um castigo. Outro aspecto que comanda o mundo dos sonhos é o infinito demarcado. Como nosso universo em expansão – que é infinito, mas se expande para algo, um nada, logo possui limites e, paradoxalmente, é finito - o mundo dos sonhos possui fronteiras claras. Essas fronteiras não marcam apenas a mudança de território, mas a mudança de comando. O inferno tem círculos, assim como o sonho tem fases. Para tudo há uma regra, mesmo nos sonhos, onde – teoricamente – tudo é possível.

Gaiman manipula novamente o “sonhar acordado” quando Sandman recupera a  algibeira na casa de uma drogada. A garota, em overdose, só está viva porque seus sonhos escaparam da fantasia e dominaram a casa, o real. Os sonhos não são bons, são alucinações fora de controle, mas ainda assim a impedem de morrer. Na metáfora, os
sonhos podem manter vivos mesmo quem não tem mais motivos para viver.

Já no fim do HQ, Sandman tenta recuperar sua última arma, um amuleto, que está nas mãos de Dr. Destino. Curiosamente Sandman não chega a tempo. Será Gaiman insinuando que o Destino é mais rápido que o Sonho? Há uma brincadeira nessa dificuldade, certamente nada é por acaso. O destino com d minúsculo indica os caminhos a serem percorridos. Já Dr. Destino atropela vontades, altera a realidade, é um louco dos mais extravagantes.

Quando Sandman fica deprimido, sua irmã o leva para um dia de trabalho com ela. Ele vê a Morte ceifando vidas, quer entendam ou não. Para alguns salvação, para outros reclamação. A Morte ouve de tudo um pouco, uma espécie de psicanalista, mas não deixa de cumprir o seu papel. Sandman entende que não pode parar, não há tempo para crise existencial.

Levado para o mundo dos sonhos, obviamente, Dr. destino é derrotado. Usando toda a sua força (e a do amuleto) para destruir Sandman, não percebe que está devolvendo a força para o verdadeiro dono. Sandman cresce e fica com Destino na palma das mãos.
Encerrado o confronto de Prelúdios e Noturnos, resta um mundo de sonhos a ser construído e uma realidade a ser transformada. Gaiman parece dizer que o mundo real nada tem de concreto, ele é feito de esperança, de devaneios, desse sonhar acordado que conhecemos bem, sugerindo fortemente que o leitor faça do plano real o seu próprio espaço em branco a ser preenchido.

Sandman, editora Conrad

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0005, gráficas/design, em 3/1/2007

 

 

 

 

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