MÃnima para poema de Dora Ribeiro
Em Bicho do Mato, lançado pela 7 letras, em 2000, Dora Ribeiro reúne seus primeiros cinco livros, escritos entre os anos de 1984 e 1999. Depois viria a edição de Taquara Rachada, também pela 7 letras, em 2002. A edição de seus poemas em Portugal, pela Edições Cotovia, reunindo toda sua obra até então produzida, sob o tÃtulo de um verso retirado de um de seus mais magnÃficos poemas, O poeta não existe, aparece em 2005. Há o ainda inédito e belÃssimo Teoria do Jardim.
A poesia de Dora faz com que o leitor tenha a necessidade de se reinventar leitor e ler novamente, nos poetas lidos até então, uma nova escrita. Assim como a leitura de um Bandeira, de um Cabral, fez com que se lesse o que até eles se produziu de modo novo, é o leitor de Dora obrigado a reler o significado da poesia, porque, na autora, a poesia assume um novo sentido, uma nova dicção que tanto ilumina o que vem antes, quanto o que acontece durante. Não significa com isso afirmar que a poesia de Dora, como se vê na poesia contemporânea, releia sistematicamente a produção passada e atual.
O raciocÃnio que permeia sua escrita permite ao leitor vislumbrar a possibilidade de reinvenção da recepção do cotidiano – desde que se abandonem as preconcepções do que seja o cotidiano e seus temas. Tome-se, por exemplo, o poema abaixo:
por outras palavras tentei
por outras vias me expus
terra
o teu lado invisÃvel
aqui finalmente está
A centralidade da palavra terra poderia iludir o leitor do sentido buscado pela escritora. Ah, sim, diria o presumido leitor, estou diante de uma palavra que reconheço. Terra. Localizo-a no espaço, verifico qual a seu meio e qual o seu modo de ser. A visibilidade da nomeação parece superar o incômodo da abstração em que o eu se coloca – expor-se, tornar-se visÃvel. Eu, sujeito do discurso, nomeio o objeto, torno-o, através de sua nomeação, visÃvel. Até aqui é factÃvel que se perceba, na nomeação feita pelo eu, a visibilidade do que lhe é externo – a terra. Assim se resolveriam eu e objeto numa trama bastante plausÃvel. Eu – que não me acho – tenho, entretanto, uma visualidade mÃnima que compartilho com os outros sujeitos. Com isso a eles me igualo, me tranqüilizo. Posso fazer do eu uma imagem tranqüilizadora. Concretizo-o.
Entretanto, o desenvolvimento da leitura do poema permite que se perceba a permuta entre o eu abstrato, que se concretiza no objeto (terra), e a abstratização a que o objeto é submetido por tornar-se parte do eu “o teu lado invisÃvel / aqui finalmente está”. Esta dialética entre o sujeito e o objeto impede que o significado se imobilize e faça com que o sujeito se separe do objeto e eles, sujeito e objeto, sejam percebidos em separado.
Amálgama fecundo este formulado pelas poesias de Dora Ribeiro. Percebe-se neste poema, e em muitos outros, a pulsação de um lugar a ser definido, lugar não dado pelo objeto e não formulado pelo sujeito, isto é, lugar no qual a composição das palavras é fundadora de sentido. Ficção que se quer ficção. Como nas lojas de canela de Bruno Schulz, o olho que dirige a composição de Dora é antes o dos grãos de poeira em suspensão – o invisÃvel do que se vê e é visto – do que a permanência do estável pó sobre os objetos imóveis.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.



















