Camargo
O ano de 2006 foi marcado, sem dúvida, no cenário musical erudito, e não apenas, pelas festividades dos duzentos e cinqüenta anos do nascimento de Mozart. Somos dados, de certa forma, a privilegiar certos números quando escolhemos o momento de comemorar com mais apego a idade de alguém ou de algo. Não cabe aqui tentar averiguar as questões “histórico-numerológicas” que nos impedem, com efeito, de comemorar um aniversário de número não múltiplo de cinco ou dez com mais ênfase do que estes terminados por cinco ou zero. É o êxito do sistema de base dez, decimal, e nesse terreno a antropologia, de um modo geral, nos fornece grandes respostas. Temos dez dedos, aprendemos — digo a humanidade — a contar assim. A fascinante história da matemática é assunto vastÃssimo e fundamental, inclusive, e principalmente — a meu ver –, em espaços dedicados à história da arte. A emergência da Ciência Moderna ocorre na efervescente Europa Renascentista, e essas atividades, juntamente com outras, não podem ser facilmente desvinculadas. Mesmo que fora de uma perspectiva histórica, não podemos negar que a Ciência possui um forte teor estético, bem como a arte, muitas vezes, goza de conceitos cientÃficos.
Digo isto, de Mozart e dos números “exatos”, pois temos em 2007 uma conjunção, à primeira vista, quase idêntica: um centenário de Mozart. Mas não do Mozart, o Wolfgang Amadeus. Nesse ano comemora-se o centenário de nascimento de Mozart Carmago Guarnieri (1907-1993). Imortalizado por seus dois últimos nomes, em razão de sua obra, evidentemente, e também de seu primeiro nome, evitado pro razões óbvias de abigüidade, Camargo Guarnieri é sem dúvida um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Seu pai, imigrante italiano que batizava os filhos como nomes de grandes compositores, não podia imaginar que as referências musicais a seu filho iriam para anos-luz além da simpática homenagem de batismo. Guarnieri produziu o segundo maior montante de obras de toda história musical brasileira, ficando atrás, nesse quesito, apenas de Villa-Lobos. Ainda jovem teve o privilégio de contar com os aplausos e, principalmente, os ensinamentos de Mário de Andrade o tendo reconhecido posteriormente como uma das figuras mais importantes, não apenas de sua carreira, mas de sua vida. De fato, Mário de Andrade foi o grande orientador intelectual do jovem Camargo, seu amigo, e seu parceiro de trabalho, tendo escrito vários libretos para Camargo. Disse o velho Guarnieri: “Devo a minha vida a três homens: meu pai, Miguel Guarnieri, o Mário de Andrade e o Baldi. O Mário me deu cultura geral; o Baldi, a cultura musica; e meu pai, que me fez nascer”. A influência de Mário de Andrade o levou para o caminho da música de arte de inspiração folclórica. Por isso, apesar da origem italiana, sua música não tinha nada de Itália. Era muitÃssimo brasileira. Mas não como uma sombra de um Villa-Lobos, que teve sua notável produção focada na origem folcórica brasileira como um todo, ou ainda como um Nazareth cujas tentativas de produzir música francesa desencadeavam em polcas, tangos, valsas e choros dos mais brasileiros, essencialmente cariocas. Guarnieri não produzia música “brasileira” de uma forma geral, sua obra é especificamente paulista, salienta Otto Maria Carpeaux. Compôs quartetos, sinfonias (com destaque para a segunda e a terceira), música de ópera. Inúmeros Lieds, diversas cantatas — muitas sobre poemas de Mário de Andrade. Para piano compôs a aclamada Tocata, possivelmente, nos dias de hoje, uma de suas peças mais famosas, não sei se com justiça, e os Ponteios, muitos deles gozando de pleno vigor em salas de concerto e em recitais. Para piano foi também foi seu primeiro sucesso, a 1a. Sonatina. Ainda compôs muitas obras isoladas para canto, piano, orquestra e câmara. Guarnieri obteve largo reconhecimento internacional, tendo tirado o segundo lugar, em Detroit (EUA) no concurso que elegeria a “Sinfonia das Américas”. Para boa parte da sociedade brasileira é isso o que importa: ser reconhecido na Europa e nos Estados Unidos. Com Villa-Lobos não foi diferente. Não creio que seja muito diferente ainda hoje. Portanto, não vou elencar seus tÃtulos internacionais no intuito de enaltecê-lo, como sempre se faz. Não vou fazer, aqui, esta confusão de causa e efeito.
Vejamos e ouçamos em que compasso vão acontecer as comemorações do ano do centenário de Guarnieri, um nome imenso da arte brasileira. Não esperemos, contudo, que sejam as comemorações como as de Mozart, ironicamente aqui “o outro”. Como a biografia do Mozart de Tietê (SP), que o festejo seja surpreendente, intenso e vigoroso. E viva Camargo Guarnieri!
Fillipe Trizotto



















