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Lusovideografia

Começando o ano, o Oi Futuro dá destaque à videoarte em sua programação e exibe até 18 de janeiro a mostra Lusovideografia. A sessão filmes portugueses apresentada na Videolab Rio 2007 traz trabalhos diversos tanto em tema quanto em qualidade. De início, conhecemos S/Título 2, de João Apolinário e Kátia Sá. Mais do que imagem, ele trabalha a percepção do espectador através de um falso amanhecer, que quadro a quadro revela seu conteúdo imagético original. É sucinto e interessante, sem ser mirabolante. No outro extremo, Se Podes Olhar Vê, Se Podes Ver Repara de Rui Simões mostra desde o nome a falta da capacidade de síntese. Durante 40 minutos acompanhamos atores de teatro se preparando para a montagem de Ensaio sobre a cegueira. O vídeo dilui a experiência vivida ao misturar dramatizações e entrevistas, e transforma a liberdade da câmera em falta de rumo, sem saber para onde ir. Apesar de premiado é cansativo e disperso demais.

Lusovideografia, na Oi Futuro Philozoff, de O Habitante, joga com a aproximação de câmera, explorando um homem nu, supostamente vulnerável ao olhar do diretor, mas protegido pelo aspecto fosco da fotografia. É um diálogo entre o cotidiano e o sentido da vida, com belos momentos de sonho e uma trilha sonora irritante, que segue o vício americano da pontuação do clímax pelo som e não pela imagem.

Victor MF Santos tem em Fotograma 23 o representante mais bem-humorado da amostra. É o vídeo que mais se aproxima da narrativa. Espiando por negativos de filmes e revelações, duas pessoas escolhem a foto de um homem que corria na rua para tenta montar sua história a partir do registro. Das suposições e manipulações, nasce o vídeo. Destaque também para o trabalho de Manuel Ferreira e Joaquim Durães, pela captação de som e trilha sonora excelentes.

O vídeo Benção é o representante de uma categoria de videoarte que transita entre a narrativa e o valor da imagem. Num diálogo, quase um duelo, entre um casal, se destaca a frase “se é cega, arranje óculos”, dita pelo homem quando a mulher enche a toalha da mesa de vinho. A cegueira do matrimônio pode ser um ponto de partida, mas Paula Albuquerque parece renegar os pontos de partida e de chegada, ficando na auto-admiração do seu trabalho, o quadro em movimento.

Pedra no Pé, de Andrea Inocêncio, conseguiu um efeito interessante em breve 1min47seg. Ela exibe os pés de uma mulher que anda na calçada, mas nunca o movimento dos pés, a transição entre um passo e outro, montando uma caminhada no somatório de fotogramas, que redireciona a idéia do movimento do corpo, extraindo-a de quem anda e passando-a para os mosaicos da calçada, diferentes durante o percurso.

Da Pele a Pedra, de Pedro Senas Nunes

Da Pele a Pedra, de Pedro Senas Nunes, é um documentário sobre pessoas que trabalharam em minas de tungstênio em Portugal. É outra combinação frustrada de entrevistas e dramatização, um recurso que já nasceu desgastado na videoarte. Chama atenção a escolha do estranho como personagem de entrevista, a dramatização que usa o aspecto labiríntico das locações e a idéia de que a miséria por si só já é elemento de arte. Irritam também frases soltas, tentativas de indução de pensamento. Se depurasse as idéias, ao invés de amontoá-las, e se assumisse como documentário seria um belo registro.

Depois dos 37 minutos debaixo da terra é a vez de Og, de Nelson Fernandes. Explorando ao máximo 1min40seg, o vídeo tem na tela branca manchas pretas que se revelam homens, imagens editadas até se transformarem em ruído, uma impressão de seu estado original. O forte está no experimental, no minimalismo escolhido para estudar o movimento dos personagens.

Tudo vai se acabando exibe lojas, o cotidiano das vendas, pessoas velhas dialogando com a morte. Acabam as mercadorias, acaba a vida, simples mesmo. José Manuel Fernandes e Ricardo Martins acertam ao focar o humano, ao incorporar o ruído ambiente, mas erram no tempo. Um vídeo que explora o tédio da vida não deve correr o risco de entediar quem assiste.

Encerrando, Cidade de movimento é uma boa surpresa. Mostra imagens rápidas da cidade, o som como um invasor desagradável, tudo captado e exibido em tempo real, sem edição, refletindo o quanto realmente captamos e aproveitamos de tudo que acompanhamos e vivemos. Uma ótima pergunta para o fim da exibição.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0005, em 8/1/2007

 

 

 

 

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