A Teatralidade do Humano
Ciclo de debates devolve ao teatro do Rio espaço de reflexão e pensamento.
Começou no ano passado. Em setembro, no centro cultural Oi Futuro. Sempre na primeira semana do mês, terças e quartas. O ciclo foi idealizado pela curadora Ana Lúcia Pardo. A idéia é criar um espaço de diálogo entre todas as formas de expressão do humano, pensar teatro como uma dessas formas sem perder o contato com o mundo que dá sentido ao que acontece na sala de espetáculo.
No mês de Janeiro, o ciclo realizou seu quinto encontro e trouxe ao Rio, além do espetáculo “O Porco”, o diretor teatral e professor da Escola de Comunicação da USP Antônio Januzelli, a diretora e pesquisadora teatral Maria Thaís, e o filósofo e psicanalista cearense Daniel Lins. Do “elenco” local nas duas mesas redondas do mês estavam Maria Helena Khüner, o ator Alexandre Santini e a doutora em comunicação, editora da revista Folhetim e dramaturga da Companhia do Pequeno Gesto Fátima Saadi.
O primeiro dia de debates, com a mesa composta por Antônio Januzelli e Fátima Saadi, intermediados por Maria Helena Khüner, foi embalado pela apresentação de “O Porco” e o debate enveredou por discussões em torno do trabalho do ator e a capacidade do teatro de trazer novamente o humano ao centro do mundo.
Fátima Saadi trouxe à tona a necessidade de reflexão e pensamento hoje, enquanto Januzelli propunha um retorno das atenções ao centro emocional do homem e definia a linguagem do teatro fundada no ator.
No segundo dia, o espetáculo “Para acabar de vez com o julgamento de Artaud”, do ator Samir Murad abriu o segundo dia de debates. O espetáculo estreou no Rio em 2001, foi indicado pela crítica como um dos melhores espetáculos do ano e Samir foi indicado ao prêmio Shell de melhor ator. Há seis anos Samir Murad mantém as apresentações regulares de seu Artaud num circuto “off”, viajando pelo Brasil e participando de eventos como o “A Teatralidade do Humano”.
A apresentação de “Para acabar…”, apesar de não trazer a montagem integral ao Oi Futuro e de mostrar alguns instantes de irregularidade – principalmente nos momentos em que o esforço técnico superava a presença orgânica do ator em cena – foi instigante, estava em sintonia com a proposta do ciclo.
Na mesa de debate, o filósofo e psicanalista Daniel Lins, especialista em Artaud, e a diretora e pesquisadora, doutora em artes Maria Thaís (Companhia Balagan, Tauromaquia). De um lado Maria Thaís trouxe um panorama interessante sobre o teatro contemporâneo russo com um relato sobre a experiência do diretor Anatoli Vassilev no processo de montagem de A Ilíada. Do outro, Daniel Lins (sempre provocador) proporcionou um momento especial de reflexão sobre a necessidade de coragem para a criação do novo.
Nunca é demais ressaltar a importância de projetos como o Ciclo “A teatralidade do humano” para recuperar um espaço de discussão e pensamento na cena carioca. Um bálsamo para os que desejam mais pensamento e menos entretenimento, mais gente e menos pirotecnia plástica. Em fevereiro tem mais.
Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.


















