maguarras17.jpg

maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

O Mínimo Gesto Incomum

O ciclo Teatralidade do Humano traz ao Rio de Janeiro o espetáculo “O Porco”, com Henrique Schafer, direção de Antonio Januzelli.

O que nos faz sair de casa para assistir a uma peça teatral? Sem efeitos especiais, sem Computação Gráfica, sem cenários móveis e gigantes ou gritantes, sem atores voando sobre a platéia, pendurados em cabos de aço, sem dezenas de figurinos e lantejoulas, sem evoluções luminosas improváveis?

O que pode nos levar a uma sala pequena para durante 50 minutos assistir a um homem descalço, paletó maltrapilho e bermuda suja, grandes olhos claros (mar límpido), que nos conta sobre sua vida de porco no chiqueiro, às vésperas do abate?

O PorcoTalvez seja isso: o mar límpido. Ou o simples fato de que se trata de um homem (ou porco, que seja). E a possibilidade de encontrá-lo supera qualquer pirotecnia.

Explico. O espaço do encontro no teatro não é um encontro físico, como não o é na arte, em última instância, qualquer que seja a expressão que assuma.

O Porco Ler um livro, experimentar um quadro, viver um poema, ouvir a Nona, significa encontrar-se com algo e no encontro gerar um novo mundo numa dimensão não física, soma do que há em nós do mundo e vice-versa – imaginário.

A imaginação é um sentido humano como os outros cinco, que venham os filósofos explicar. Aqui, penso no encontro sutil do teatro que estimula este sentido e nos revela a humanidade – mais que o homem, ou além dele e de nós.

O Porco O ator em cena se revela então instrumento, só isso. Ou tudo isso. Em tempos como o nosso, encontrar humanidade é uma necessidade fisiológica. Sobrevivência.

Mas deixemos as elucubrações e falemos da peça, quer dizer, do encontro. Antes dele, enquanto o público ainda entrava na sala de espetáculo do Oi Futuro, o ator já estava lá, invisível.

De fato, sua concentração, corpo e rosto voltados para a parede ao lado da porta de entrada, o tornava invisível.

Passei boa parte desses minutos de acomodação observando o público passando por ele sem o notar. Realmente sem notar, como se não existisse. Eu mesma entrei e não o vi, ele que estava ali do lado da porta o tempo todo. Só o vi depois de sentar (e teve gente que nem depois de sentar o percebeu).

O Porco Depois que vi, não mais consegui perdê-lo. Íntegro e tranqüilo. Não estou falando de concentração como na execução simples de uma tarefa, apenas. Falo de concentração de intensidade, vibração sutil e perceptível no corpo inteiro, antes mesmo que ele resolvesse se mostrar, revelar sua existência ao público. E expor essa intensidade ao existir é a sua tarefa como ator.

O encontro já havia se estabelecido.

Quando as luzes mudam e o ator revela-se, o que é oferecido à platéia é plenitude e limpidez, como o mar naqueles dias especiais de transparência.

Pode parecer estranho que eu venha a falar de mar claro num espetáculo designado como “underground” da cena paulistana, em uma montagem de um texto angustiante como “O Porco”, que se passa num quadrado delimitado de dois metros por dois metros do chiqueiro em que passamos a conviver com o personagem (a montagem brasileira traduziu a versão espanhola feita por Antonio Andrés Lapeña para o original Strategie pour deux jambons do francês Raymond Cousse).

É que o exercício solo de teatro põe o ator no centro, não há dispersão, nada com o que dividir a atenção. A capacidade de não se fazer notar, de permitir-se a limpidez, o altruísmo de não se fazer presente para que sua tarefa expressiva seja cumprida com verdade, paradoxalmente é o que faz com que o ator seja notado – e seja notável. Na verdade, isso deve ser uma meta, se não uma regra, para qualquer exercício de teatro. Às vezes esquece-se disso.

Schafer não esqueceu. Exerce sua tarefa com a transparência e a grandiosidade do mar calmo, sem pudor do fundo, o que tira da platéia também qualquer pudor ou medo de mergulhar e tocar o fundo, por mais doloroso que possa vir a ser, por mais que não haja como respirar água, por mais que se saiba que logo a luz sumirá, e o que resta é desconhecido.

Dessa forma o porco ganha vida, e não há qualquer dúvida de que seja um porco a falar, apenas um porco, sem abstração ou metáfora. Sem apelos fáceis ou realismos primários, sem gestualidade mimética. Simples assim: um porco nos faz confidências em seu chiqueiro, diante da morte.

O diretor Antonio Januzelli defende que a teatralidade, a linguagem do teatro, é o ator. Recusa ou evita o termo “espetáculo”, preferindo se referir a jogo ou a exercício, ou a experiência teatral.

“O Porco” não busca “representação” do humano. O teatro não quer representação do humano. Ele é humano, naquele exato instante presente, não permite que ninguém se refugie na ausência. É preciso viver intensamente, habitar a experimentação da vida em cada fração de segundo, no espaço de encontro proposto pela cena.

O corpo do ator no espaço, sua presença generosa diante de nós, é o que desenha o instante. Ele nos é dado no mínimo gesto que por alguma razão indizível se torna incomum, como as mãos contraídas para dentro dos pulsos, junto ao corpo, numa tensão suave que demonstra claramente não ser apenas uma forma estudada de desenho coreográfico – é orgânico e real. Vivo. Aquelas mãos são também o corpo inteiro, todos os músculos, os dois pernis, as tripas e miúdos, e todas as partes que virão a ser devoradas após o abate.

No jogo de confidências mútuas, entre a incontrolável torrente verborrágica do porco e o silêncio ou o riso às vezes franco, às vezes nervoso da platéia; nos momentos em que o porco cala e os olhares se encontram, ou quando toque de pele é permitido, nesse jogo nos perdemos de nossos papéis funcionais e nos confundimos, sem saber ao certo se somos o porco a ser abatido ou o porqueiro que o levará ao matadouro.

Alcançar isso é trabalhoso e duro. No caso de Schafer e Januzelli em “O Porco”, foram três anos e meio de trabalho. Os dois primeiros dedicados ao que o ator chama de “limpeza”. Eliminar todos os vícios do corpo, de sua mente e seu espírito, limpar as mecanicidades, estar pronto e pleno consigo mesmo para então criar. Um ano e meio seguinte para criação desse “O Porco”, que não pretendia ser um espetáculo, mas que, desde sua estréia em 2005, estabeleceu-se como experiência teatral de consistência artística e humana rara.

Em tempo: “O Porco” foi trazido ao Rio de Janeiro para uma única apresentação dentro do ciclo “A teatralidade do humano” no último dia 9 de janeiro, no teatro do centro cultural Oi Futuro. Januzelli deseja vir mais por aqui. Tomara.

 

 

 


Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.

 

editoria: edicao_0005, teatro, em 14/1/2007

 

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.