Mais estranho que a ficção
Talvez você se lembre dos filmes Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho eterno de uma mente sem lembranças, do roteirista Charlie Kaufman. O acerto dos três era embarcar de vez na própria maluquice, sem ficar com o pé atrás, e a partir daà contar a história. É um choque mas funciona, e no final o espectador agradece. Mais estranho que a ficção tenta chegar lá, mas demora a dobrar a esquina certa, passando muito tempo perdido no cotidiano de Harold Crick (Will Ferrell), um funcionário da Receita Federal Americana, solitário de natureza e com uma paranóia numérica. Harold todo dia dá o mesmo número de escovadas no dente, cronometra o tempo para o nó da gravata e conta os passos até o ponto de ônibus que pega sempre no mesmo horário. É um desses caras que trabalham na mesa ao lado da sua no escritório, extremamente dependente do relógio, e que ninguém conhece muito bem. Um dia, começa a ouvir uma voz na cabeça narrando tudo o que faz. Vai guardar um arquivo, a voz narra, vai atravessar a rua, idem. Quando a voz declara que Harold está prestes a morrer, ele decide descobrir quem está narrando a história de sua vida.
Paralelamente, temos Kay Eiffel (Emma Thompson), uma escritora em crise de criatividade há dez anos. Conhecida por matar todos os protagonistas no final dos livros, Kay não consegue decidir o modo de acabar com… Harold Crick, e fica em depressão.
Harold, obviamente, quer evitar a própria morte. Decide então procurar um especialista em literatura que o ajudará a descobrir quem é a narradora em sua cabeça. Jules Hilbert (Dustin Hoffman) faz testes, filosofa e serve de mediador para a descoberta tardia da vida de Harold. Fica aquela pergunta no ar de “será que minha vida certinha é realmente vida ou eu tenho que correr atrás dos meus sonhos para viver?”. O que arrasta o filme para baixo é o modo do roteirista Zach Helm demonstrar que a vida é feita de pequenos momentos com grandes significados, já que o acúmulo de pequenos momentos da vida de Harold não traz a sensação de grandes significados para o espectador. Helm impõe o amor como a descoberta da vida, o fim da solidão de Harold Crick. Esse amor vem por Ana Pascal, uma ex-estudante de direito que descobriu que queria mudar o mundo fazendo biscoitos numa padaria. Advogados maus versus biscoitinhos de chocolate não formam um conflito sólido para definir uma personagem. Para piorar, o jeito que Helm encontrou de colocar Ana no caminho de Harold foi transformá-la em devedora do imposto de renda. Ela só pagou 78%. Ficou devendo a parte que financia as polÃticas de guerra dos Estados Unidos. Ó Dios.
Mais estranho que a ficção tem uma brincadeira inteligente: personagem do filme que é personagem de uma história literária criada por uma escritora que também é personagem e vive no mesmo mundo do seu personagem, o filme. O problema é que ela é apenas funcional e não se reflete no modus operandi dos personagens e na narrativa. É uma espécie de piada particular, que quem conta ri, mas quem ouve não acha tanta graça, só da um risinho de lado, meio torto.
O destaque é Emma Thompson que, inspiradÃssima, vale o preço do ingresso. Sua parte da história é a mais elaborada e a representação de sociopata deprimida é de matar de rir, sem trocadilhos. Para melhorar, nos seus passeios por avenidas e hospitais em busca da morte ideal de Harold ela tem a companhia de uma assistente (Queen Latifah), que sofre com cada uma de suas manias.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.




















