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Dois romances

1

A literatura chinesa contemporânea traz algumas boas surpresas. Todas femininas. Bastante erotizadas. Xangai Baby, de Wei Hui, Bombons Chineses, de Mian Mian e o belíssimo A Jogadora de Go, de Shan Sa. Shan Sa tem também traduzido o romance Imperatriz, editado aqui pela Ediouro. A leitura de obras produzidas em ambientes culturais diversos sempre é um exercício fascinante, ensina e faz com que sejamos obrigados à alteridade cultural, com a qual se passa a conviver e respeitar.

Os romances de Wei Hui e Mian Mian demonstram, de certa forma, a ocidentalização da China, a percepção de que também lá o mundo foi tocado pelos movimentos sociais que sacudiram o mundo nos anos 60 e 70. O rock domina, o comportamento dos jovens chineses de hoje busca se acercar do que foi o comportamento dos jovens ocidentais de ontem. Percebe-se uma China viva e próxima, mas ao mesmo tempo distante. Há como que uma percepção diferenciada na consideração do futuro – embora se busque, como em todo lugar, a felicidade. Entrega-se ao amor, com a mesma sofreguidão, com a mesma percepção da brevidade da vida. Entretanto, há qualquer coisa de distante, pois, a presença da morte se intercala, entre o ato amoroso e a frustração do próprio ato. A morte que vai ser sugerida durante toda a narrativa de Wei Hui – seja na impossibilidade de concretização do ato amoroso com o homem chinês – que o personagem Tian Tian representa – seja na impossibilidade de permanência do ato amoroso, quando ele se cumpre com o homem estrangeiro.

A impossibilidade se fixa, torna-se o elo possível entre as duas culturas, fomentadas por um olhar feminino que se cumpre num mínimo limite, fronteira na qual o prazer que se busca deve diferenciar-se do que é culturalmente aceito. Se Tian Tian é impotente e Mark, o estrangeiro, o retrato do prazer para a chinesa, o que se coloca é a impossibilidade de realização para além das fronteiras – a plenitude física e cultural.

A alegoria que se desenvolve no romance de Wei Hui faz parte desta intricada trama, na qual, o sexo, e sua erotização, são, na verdade, o espaço a partir do qual se constrói um discurso político acerca da vida atual da China. Todo erotismo, e mesmo a pornografia literária, não podem ser lidos simplesmente como um texto cuja finalidade é o despertar do sexo, o incentivar sua realização. Devem ser lidos – erotismo e pornografia – como elementos de uma composição alegórica – como, para Sade, a pornografia foi a alegoria da natureza destruidora.

Em Wei Hui, a impotência de Tian Tian – que morre, e a realização do sexo com Mark, o estrangeiro membrudo, que volta para a Europa, são índice de outra cena, de outro impasse. Nele e entre eles a China – ao abrir-se, de alguma maneira, para o mercado – este grande rufião da modernidade – se percebe fronteiriça. Moderna, a narradora traceja suas opções. Anote-se, mesmo que longa, a passagem extraída, do final da narrativa, quando a personagem resolve partir para a Europa:

Pouco antes de partir, arrumei algumas coisas. Fiz uns retoques no romance e limpei o apartamento. Eu planejava me mudar de volta para a casa de meus pais; portanto, precisava entregar a chave do apartamento para Connie. As coisas de Tian Tian continuavam lá. Escolhi um dos seus auto-retratos, uma coletânea de poemas de Dylan Thomas de que ele gostava, e uma camisa branca que costumava vestir.

A camisa ainda tinha o seu cheiro. Enterrando o rosto nela, isso me fez perceber o que era perder a felicidade. (Hei, Wei; 2002. 334 335)

A perda da felicidade é o mote, através do qual, o discurso político se insinua. A China que se mantém e se transforma será sempre um arremedo do sonho – pois, por um lado, sabe Wei Hui que ceder ao estrangeiro constitui submissão. Sabe, por outro lado, que manter-se fiel ao mesmo é manter-se ligada à impotência física e econômica – mesmo que, ao optar pelos modelos estrangeiros, seja necessário ver morrer o que lhe é precioso.

Acrescente-se, por fim, que a impotência de Tian Tian não carece de sensualidade e erotismo, como a demonstrar que, na transformação da China, o que será deixado para trás é essa gratuidade do sexo, que denota ausência de finalidade.

2

A Jogadora de Go, de Shan Sa é um grande romance. Ambientado na China invadida pelo Japão, tem um narrativa ágil. Desenvolve-se em torno da ocupação nipônica – na década de 30 – tendo como protagonistas da história o soldado japonês e a resistente chinesa. O romance – como um puzlle – vai sendo montado com pequenas informações colhidas aqui e ali pelas narrativas dos dois personagens. As tradições japonesas e chinesas são desfiadas lentamente, mostrando dois mundos de grandes diferenças culturais – que, aliás, geram a guerra de conquista empreendida pelos japoneses.

A sexualidade imponente e tradicional dos japoneses, a presença das gueixas, a obrigação que tem o homem honrado de possuir sua alma e corpo, a pretensa visão da superioridade de sua cultura, são expressas pelo soldado que, embora busque reafirmar sua cultura, tem para com ela certo desconforto. Designado para espionar o movimento das tropas inimigas, o soldado acaba por cruzar seu caminho com a resistente chinesa, como ele, exímia jogadora de go. A jogadora de go – a resistente chinesa é uma jovem contestatária das estruturas de seu país que se vê ás voltas com a resistência por seu envolvimento amoroso com dois rapazes.

O romance desenvolve-se a partir destes três elementos: o mundo dos conquistadores, o mundo resistente dos conquistados e o jogo que representa a astúcia dos dois mundos. E o envolvimento crescente entre o soldado e a chinesa. O respeito mútuo pelo reconhecimento da sabedoria e das estratégias de que ambos são mestres. Um passa a ocupar os pensamentos do outro. O jogo, a preocupação máxima destas vidas que se escondem sob o disfarce.

Como um disfarce também a narrativa se constrói. Diz o que diz para dizer outra coisa. O colapso e a cena trágica final – quando a resistente e soldado se matam – recupera a emoção dos grandes clássicos, não só porque funciona como fecho, mas por abrir a cena para outras questões – que não as imediatas da narrativa – e (re)ilumina toda a formulação do romance.

O leitor, ao perceber que o romance termina, é obrigado a repensar os pressupostos culturais que demarcavam as personalidades de seus protagonistas, bem como rever a motivação que os levou à guerra. As diferenças culturais são mantidas, embora ao mesmo tempo deixem de ter um peso absoluto na relação entre as pessoas.

Pontue-se ainda uma pequena questão: a China que se descreve é a que, mergulhada no passado, rejeitava a ocidentalização buscada pelo Japão (que na verdade é anterior à 2ª guerra – a leitura de Junikiro Tanizaki é bastante ilustrativa disto). Distante, portanto, da China que se vê hoje e se põe questões típicas de nosso mundo.

O retorno ao romance de Wei Hei é uma possibilidade de compreendermos para quem e por que a leitura dos romances chineses é importante para a percepção da alteridade cultural e como que um libelo contra as ações intervencionistas dos Estados.

 

 

 


Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.

 

editoria: edicao_0005, literatura, em 17/1/2007

 

 

 

 

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