maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

Samir Abujamra

Sempre será você, em algum grau, a fazer, refazer, participar de qualquer arte que esteja na sua frente. Afinal, Winnicott estava certo: arte é um meio de campo, um pit-stop entre o radicalmente novo e o muito velho. Terá sempre algo que vai modificar a visão de mundo que você tinha até aquele momento, e terá sempre algo seu, antigo, da sua vida, memória e atavismo, que você porá nesse novo, e sem o qual você não poderia apreendê-lo.

Samir Abujamra

A questão aqui, na instalação Folião de Samir Abujamra no Oi Futuro, é a expressão “na sua frente”. Há vídeos na sua frente. Mas como são cinco eles incluem também o lado. E atrás de você há imagens paradas dos mesmos vídeos.

E aí, a participação do fruidor, a discussão de identidade artística, subjetividade, do papel do artista contemporâneo e da função atual da arte na sociedade, se torna mais uma vez premente.

Porque não é uma discussão nova, essa. Vem desde o modernismo com a crise da representação e o uso de linguagens e meios “não-artísticos” no questionamento das especificidades da arte. E seguiu até hoje com o status capenga, que é comum aos criadores de todas as mídias: são ao mesmo tempo marginalizados e privilegiados. Trabalhando por projetos, sem a cobertura básica que a sociedade oferece através de suas leis trabalhistas e sociais, o artista é irmão-gêmeo do desempregado crônico e de todos os que vivem de expedientes, marreteiros, camelôs. É também o centro privilegiado da máquina da cultura, que ocupa posição importante no PIB de qualquer país, mesmo o nosso.

Abujamra faz um pequeno prodígio em sua instalação. Ele vai cercar seu assunto e em vez de falar dele, vai atuá-lo.

Mais do que em outras obras, nessa o artista é você. É você que está no meio dos cinco vídeos de carnaval, gerindo a hierarquia de valores (você diz qual imagem é a mais importante, ao escolher onde pôr o seu olhar), é sua a escolha do ritmo, e é você quem decide qual o grau sensorial de seu envolvimento. Você pode cair no samba ou, a trabalho, olhar um pouco de cada um, tomando notas em um bloquinho.

É carnaval de rua, o tema. Ou seja, você, dividindo com o artista a execução da obra, se vê identificado, no meio, em um corpo a corpo, com seus iguais e os dele - são os desocupados ou os ocupados até demais, batalhando na economia informal ou como der, quando vier. A identificação é reforçada pela interação dos personagens com a câmera e até mesmo pelo reconhecimento de si mesmo (de fato) ou de amigos entre quem acompanha alguns dos mais famosos blocos de rua cariocas. Abujamra usou uma câmera de mão, inobtrusiva, e seu assunto manda beijinhos para ele (e você). Também sorrisos e o olhar fixo de quem costuma observar mais do ser observado, até por uma questão de sobrevivência. Abujamra fez um take dele mesmo, explicitando esse estar-no-mundo múltiplo. Ele é o artista, ele é o fruidor e ele é o assunto. Você que vê também é o artista, também é quem vê e também é o assunto.

Algo desaparece para que tal coisa aconteça. É o sujeito uno. Se você some lá dentro, e passa a ser um dos “outros” que vêm de frente, ao seu encontro, nas imagens igualadas no tamanho (não houve zoom nem closes nas filmagens), Abujamra também some. Ao delegar o fio condutor de sua obra para aquele que a vê e que divide com ele a identidade de criador, ambos tratam de perpretar o próximo sumiço, que é o da noção de história. A ruptura que o carnaval representa na seqüência temporal/racional é um hiato cronológico. Sobraria o espaço, mas esse também, coberto e cercado, é um lado de dentro (uma tenda) no lado de fora (o patiozinho do centro cultural), um não-espaço. Estar dentro-fora do espaço, do tempo e de si mesmo é uma extensão e uma reafirmação do assunto tratado, pois os foliões, grupo que inclui você e o artista, transpiram, berram, queimam calorias, ressaltando assim, em corpos parcamente vestidos (ou seja, com as marcas sociais, individuais e históricas diminuidas), uma passagem escatológica. Essa passagem, ritualizada e sujeita a tabus em todas as sociedades humanas, é uma metáfora para a morte e para o nascimento, pois é quando morto ou feto que se está mais nessa porta. Um sumiço, portanto, radical.

O sujeito uno, conceito paralizante, está aqui posto em cheque em todos os níveis. Por se tratar de obra estruturada, o participante está dentro de uma rede de signos, é, ele próprio, um signo. Em eco e em looping, ele não sai da instalação, mas (se) subtrai momentaneamente.

Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra Samir Abujamra

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0005, em 20/1/2007

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.