Balada de uma retina sul-americana
Quando sentei para escrever sobre Balada de uma retina sul-americana, estava decidido a tratar do lirismo dos livros de Carlos Machado. É difÃcil caminhar no muro divisor que é a prosa poética sem afogar o leitor na densidade do texto (vulgo entediá-lo com chatices) ou sofrer da sÃndrome de Humpty Dumpty, e ele foge dessas armadilhas. Não que o escritor passe uma segurança contÃnua e prolongada, pelo contrário, é na tremida de pernas entre um passo e outro que a história ganha fôlego e o leitor conhece a pessoa por trás das folhas. Esse truque sutil nasce da comunicação dual e dualista entre escritor e personagem, do intercâmbio proposital de vozes que funciona como a peça fundamental da metaficção. Mas o texto tem um aspecto multissensorial que supera de longe o lÃrico, um veio mais valioso.

Na orelha do livro, Carlos Machado é músico, letrista e compositor. No miolo, ironicamente entre as orelhas, ele expande o espaço literário em busca de novos sentidos.
Carlos Machado mantém um diálogo constante com a música. Seus textos citam trilhas sonoras, passeiam por David Bowie a Lenine e bebem da liberdade da melodia para formar a estrutura narrativa. A malemolência – tanto a do jeito de se expressar quanto a do gingado - impulsiona pequenas percepções, econômicas no que descrevem, mas amplas no imaginário de quem lê.
“Parecia que eu estava entrando em um bar de jazz em New Orleans. O lugar tinha pouca luz e muita fumaça flutuando pelas cabeças das pessoas. No fundo do bar, sobre um pequeno palco, um pianista desliza seus dedos pelas teclas fazendo-as soarem suavemente. Abraçando som do piano, uma mulher desprende sua voz estonteante”.
- Aqui jazz, conto de Nós da provÃncia: diálogo com o carbono.
Outro ponto atraente é a busca do protagonista por elementos de Curitiba, onde quer que passe. Viagens começam com gosto de aventura e terminam com uma imensa vontade de reencontrar o chuveiro quente e o cheiro do próprio apartamento. O assunto fica melhor em tempos de Mercosul caótico, em que os jornais tentam prever entrelaces da heterogeneidade. Há algo além da paisagem para nos diferenciar e nos aproximar. Há na cultura um mundo novo, mas também há uma “Curitiba” onde quer que se vá, pode ser no campinho de futebol, nos olhos da garota que passa, na cama dura do hotel. É o paradoxo do mundo globalizado misturado. Cada paÃs com uma trilha sonora, em cada pessoa a coexistência de Adriana Calcanhoto e Whitesnake. Personagem e escritor estão conscientes de que a semelhança não é um grau de igualdade, por isso buscam nas dessemelhanças a aproximação com o diferente.
“O nome que dou a essa noite é Antofagasta. A pior de todas até aqui. Já não bastava a feiúra desse lugar, com seu comércio aberto aos peatones em ruas sujas de óleo vindo dos navios, homens suados pelo calor ensurdecedor e putas desdentadas que estão em todos os bares Gato Preto, o hotel ainda tinha cheiro de mijo de cachorro sarnento encostado nas paredes de uma igreja do reino de Deus”
- Balada de uma retina sul-americana.
Balada de uma retina sul-americana é um diário de viagem ficcional, que começa em Curitiba e passa pelo Chile, Argentina e Uruguai. Durante a leitura, construÃmos fotografias mentais que se decompõem e recompõem em letras, no melhor estilo Matrix. É o relance de um imagem que fica gravado na retina quando olhamos fixamente para um objeto ou tentamos registrar um momento agradável. Ao invés de um álbum, um livro evocativo cheio de mosquitos, perrengues de viajantes e o gostinho do desconhecido. O autor é uma pessoa atenta, que não consegue ser impassÃvel à s possibilidades do mundo. Monta poesias e narrativas, lança cds de heavy metal e tem uma banda de mpb.
“ChuÃ! Era necessário um conversor lingüÃstico ao atravessar a rua: de um lado, português, samba, jeitinho. Outro: espanhol, candombe, cassinos. Engraçado. De dentro da janela via-se a permissão dos jogos junto ao que era proibido. De que adianta? (…) Câmbio monetário. Mais uma Rui Barbosa. Uma Curitiba na fronteira”.
- Balada de uma retina sul-americana.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















