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Lica Cecato no Armazém Digital

Na noite de quinta-feira (25/01) apresentou-se na Livraria Armazém Digital do Leblon, no Rio Design Center, a cantora Lica Cecato. Radicada na Europa há mais de vinte anos, a cantora exibe ao longo de sua carreira um repertório delicioso, num caminho de influências já fortemente explorado, a MPB de forte cunho jazzístico, receita que tem sucesso garantido em praças européias não é de hoje. Tal é a consolidação desse estilo que já poderíamos evitar o “jazzístico” e adotar a sigla, MPB, que, não obstante, ainda sucita fortes e pertinentes debates conceituais, sobretudo por sua enorme abragência de significado. Então, que se inclua mais um.

Não é novidade ao público de cultura dos grandes centros ouvir falar de artistas brasileiros bem sucedidos no exterior e absolutamente anônimos aqui, sobretudo na seara da MPB.  Lica não foge à regra, mas foge ao estigma. Está longe daquela imagem de artista medíocre que faz fama e dinheiro à custa da ignorância estrangeira à cultura brasileira (comum  em todos os lugares, inclusive no Brasil), da tradição e do sucesso de nossa cultura em outros mares, esses sim frutos do alcance oportuno de grandes artistas de nosso país. O grupo mais detestável de pagode, que nem uma esquina ou um botequim vazio conseguem aturar, vira primeira página cultural em Tóquio ou Paris, sobretudo em tempos de moda brasilis, como o que acontece hoje na França.  Muitas vezes ficamos espantados com o sucesso de um artista na Europa e a total ausência de conhecimento a seu respeito no Brasil. Muitos chegam a desconfiar, pensam logo nesse retrato que tentei pincelar aqui. Não se deixem enganar, Lica está em outra categoria. Está no crescente rol dos artistas sérios, dedicados, talentosos, que expõe nossa música, não apenas em gênero, em estilo, mas em talento. Mostrar o valor da música popular brasileira não apenas em seus versos e melodias, mas em seu material humano, seus instrumentistas e compositores. Lica trouxe ao público do Armazém Digital uma apresentação autoral, seu prestígio. Seria simples convencer o público com composições de Chico, Tom, Carlinhos Lyra, entre outros. Simples e muitíssimo agradável, devo dizer, como ouvinte. Trouxe à cena o velho desafio de um show com composições próprias e agradou.  Mostrou a personalidade que se espera de uma artista madura, consciente de que seu trabalho, por bem feito que é, vai agradar àqueles que pagam pra ver. O desafio não soou como aposta. Lica e seus músicos deram a impressão de saber muito bem o que estavam fazendo e esta certeza estava naquela tríplice fronteira, delicadíssima, entre a arrogância, o auto reconhecimento e a tentativa de conquistar seu público.  Lica saiu-se muito bem.

Naquela quinta-feira, faria anos Antônio Carlos Jobim. Lica nos brindou com uma bela “Dindi”. Confesso que, se eu pudesse escolher, preferiria outra eloqüente apresentação de uma música de Tom Jobim à magra interpretação de “Georgia on My Mind”, executadas, ambas, nos raros momentos em que o show fez concessões não autorais. Aproveitar o aniversário de Tom Jobim seria mais do que o ensejo de uma saudação justa, necessária e merecida. Seria o argumento perfeito de uma cantora que conhece Tom.

 

 

 


Fillipe Trizotto

 

editoria: edicao_0005, música, em 27/1/2007

 

 

 

 

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