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Teatro pícaro do ator-herói-sem-vergonha

Julio Adrião e a companhia os Leões de Circo Pequenos Empreendimentos voltam à cena com seu “A Descoberta das Américas”, de Dario Fo, no Leblon.

A caravela infla suas velas e segue lenta, ampla, redonda, num balanço de mar marasmo sem fim. Antes, correria e tumulto: Johan Padan foge da turba de inquisidores, grandes fogueiras queimando gente, uma namorada bruxa deixada para trás, uma “puta lua dourada, enorme, cheia de halos”, chuva, temporal interminável, enchente, fim do mundo, pandemônio, correria desabalada, esquerda, direita, esquerda direita, e o fôlego interminável de um único ator no palco, sem nenhum outro recurso em que se apoiar que não seu próprio corpo, sua voz e capacidade criativa.

A Descoberta das Américas, com Julio Adrião e a companhia os Leões de Circo Pequenos Empreendimentos. Um único e despudorado ator no palco que soma tudo isso e ainda mais: o espetáculo estava apenas começando, nem cinco dos 80 minutos em cena, sem pausa para respirar, sem trocas de roupa, cumprindo a inacreditável tarefa de pintar na tela do imaginário da platéia a viagem do vagabundo Johan Padan ao Novo Mundo em uma das caravelas espanholas de colonização.

O ator Julio Adrião encara o desafio do texto do italiano Dario Fo (Nobel de literatura de 1997). E com que prazer faz isso, ao lado da diretora italiana Alessandra Vannucci, com quem também divide a tradução do texto de Fo. Segundo ele, na tradução o texto ganhou tons literários e foi no processo de experimentação teatral que a característica oralidade de Dario Fo foi recuperada.

A Descoberta das Américas, com Julio Adrião e a companhia os Leões de Circo Pequenos Empreendimentos. A formação de teatro popular e de rua do ator foi fundamental nessa aproximação. O espetáculo é antropofágico (literalmente). Deglute o texto de Fo, herdeiro da tradição da literatura pícara e do teatro popular (Commedia dell’arte), o revira do avesso põe tudo para fora, expondo as entranhas de nossas próprias origens, povo malandro brasileiro, artista de rua do Largo da Carioca, reação ao mundo amoral e hipócrita, ruptura das regras impostas, criação de uma nova lei mais condizente com a sociedade sem lei. Sem supresas, essa é a própria função do pícaro.

O trabalho da dupla Adrião e Vannucci dá seqüência à pesquisa da Leões de Circo Pequenos Empreendimentos sobre o teatro popular e personagens desse universo iniciada em “Ruzzante” (2002), de Angelo Beolco, precursor da Commedia dell’arte, construindo uma ponte entre o mediterrâneo e o atlântico sul – Itália e Rio de Janeiro. Vale aqui a ressalva: teatro, ainda que em exercício de solo, é trabalho de equipe. No caso dos Leões (que ainda conta com Sidney Cruz), ela é muito bem afinada.

A Descoberta das Américas, com Julio Adrião e a companhia os Leões de Circo Pequenos Empreendimentos. O espetáculo estreou em 2004 no Crato (Ceará), fez temporada de grande sucesso no Rio em 2005, rendeu o Prêmio Shell de melhor ator a Adrião neste ano e desde então circula o país e participa dos principais festivais de teatro brasileiros. Um desses raros trabalhos que consegue agradar aos “especialistas” da crítica e falar a linguagem do povo, comunicação e identificação direta e imediata com o público, seja ele qual for.

No ano passado voltou ao Rio e segue agora em nova temporada inaugurando a Tonia Carrero (Leblon) ainda lotando a casa e, principalmente, mantendo o frescor.

Dario Fo estreou o texto em 1992, por ocasião das comemorações européias pelos 500 anos da descoberta das Américas. O próprio Fo o encenou na ocasião. O texto traz o teor das críticas contundentes do autor à dominação pela força (Dario Fo chegou a se candidatar a prefeito de Milão, segundo ele, como forma de protesto civil contra a posição italiana em relação à política bélica norte-americana).

A ironia e a tradição do herói pícaro (surgida na Espanha) se apresentam, assim, como ferramentas apropriadas para (re)contar a história: de como o malandro e fanfarrão Johan Padan embarcou na caravela para fugir da inquisição e veio parar nas Américas, de como sobreviveu a um naufrágio, de como escapou de ser devorado por índios no paraíso exótico, de como os salvou depois de uma batalha sangrenta costurando suas barrigas uma a uma, e de como tornou-se líder de uma espécie de rebelião contra os invasores espanhóis, os expulsando do continente. Aculturação às avessas.

É importante aqui acentuar a ironia como elemento poético da narrativa (das origens de poíesis, como fazer reflexivo). Não mera figura de linguagem em seu sentido gramatical banalizado. A ironia é o espaço da crítica e da reflexão na narrativa, ela tem a função de articular a estruturar a obra de arte, no caso, aqui, a narrativa teatral.

Nas origens do teatro, em Aristófanes, encontra seu lugar no coro que se dirigia diretamente à platéia num exercício crítico e de reflexão sobre os eventos do enredo e personagens.

A literatura digeriu e recriou a função do coro na figura do narrador que assume várias vozes, as perspectivas de vários personagens, e fala diretamente ao leitor – meta- teatro, meta-literatura. O Brasil está bem representado nessa tradição universal – veja Machado de Assis, por exemplo.

A literatura pícara também se alinha à tradição da ironia e Dario Fo sabe utilizar como poucos esse recurso.

A montagem brasileira de “A descoberta das Américas” sustenta essa essência e faz juz à tradição. O tom é simples, do contador de causos e histórias, que alimenta a imaginação de quem ouve usando recursos de seu próprio corpo, voz e expressão; que incrementa as aventuras do “herói” com feitos mirabolantes e fantásticos e, assim, faz todos acreditarem em suas verdades e suas mentiras, e faz todos absorverem sua crítica, mais intensa pelo riso.

Não há mistério ou segredo para se conquistar esse efeito, o de fazer parecer novo e fresco o ato de contar a história, como de improviso, ali naquele exato momento em que as memórias vêm à tona para serem reinventadas. Ainda que não seja algo fácil, no teatro é imprescindível. Para o ator, isso é trabalho árduo, dedicação de vida inteira (Julio Adrião já declarou ter ensaiado 20 anos e 10 dias este espetáculo).

De fato, se Adrião exibe no palco espontaneidade de improviso quase sujo, típica do artista popular, ela é fruto de um teatro incansável e heróico. É preciso ter olhos para ver as partituras corporal e vocal precisas, um vocabulário técnico cuidadosamente criado e executado para dar vida ao personagem, para dar vigor à verborragia onomatopéica de Dario Fo, para construir sozinho um mundo inteiro ao seu redor, no palco nu. Essa construção técnica e virtuosa também está lá, exibida claramente, assumida pelo ator e pela direção como elemento estrutural do espetáculo, sem pudor ou vergonhas a que cobrir.

Mas, ainda que se saiba que esses recursos técnicos são indispensáveis para a criação da experiência teatral, eles pouco significariam se não houvesse no espetáculo e no ator uma pulsação visceral, a entrega que o teatro exige em sua verdade – do mínimo e sutil gesto ou respiração à explosão sem medo ou limites. Julio Adrião dá o salto para o abismo pelo prazer que sente e transparece no exercício de seu teatro pícaro. Da platéia, nós vamos junto.

Serviço:
“A Descoberta das Américas”
Até 18 de fevereiro
Quinta, Sexta e Sábado, 21h
Domingo, 20h
Sala Tônia Carreiro - Teatro do Leblon
Rua Conde Bernadote, 26. Leblon.
Fone: 2511-8857

 

 

 


Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.

 

editoria: edicao_0005, teatro, em 30/1/2007

 

 

 

 

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