Sándor Marái
Da obra de Sándor Marái, editada no Brasil pela Companhia das Letras, constam alguns títulos: As brasas, O legado de Eszter, Rebeldes, Divórcio em Buda, Veredicto em Canudos e Confissões de um burguês. Além destes livros, há, editado pela Cosac Naif uma pequena ficção, que serve de introdução para uma pequena novela de Gyula Krúdy, O companheiro de Viagem.
Sándor Marái é um escritor potente. Preso a um ceticismo, a uma descrença constante do ato de escrever, sabe-se, contudo, incapaz de outra atitude. A precisão com que trata a linguagem, a exatidão do que pretende dizer denuncia em cada palavra, em cada frase a presença de um escritor preocupado com seu ofício e com a validade deste ofício. A densidade da reflexão sobre a escrita curiosamente se revela onde sobre a escrita nada é dito. A cena que se desenvolve é outra e alheia à escrita, entretanto, é sobre o próprio ofício do que é a escrita que as páginas de Sándor Marái refletem.
O modo através do qual se atinge tal precisão revela-se aos poucos e aos que, leitores do escritor húngaro, passaram pela descoberta lenta, paciente e operosa da decifração dos ambientes interiores com os quais nos brinda em cada livro. O que as narrativas revelam não são o que narram, mas o que, dentro da narração, se esconde sob o disfarce da escrita.
O mundo encontra-se em ruínas, os homens disfarçam. Criam engrenagens que permitem o mundo existir, a economia que os guia subsiste como um sistema maior e inescrutável. Os homens rodam em torno de seu eixo, economizam e se preparam para a derrocada, com alegria, às vezes; com inconseqüência, sempre. Não há dentro desta ordem noção de futuro, como não há a solução do progresso, da evolução. Tampouco o homem está estanque. Ele responde, luta, afirma um futuro, cria para si e para os outros um discurso que os justifique.
A noção de escrita de Sándor Marái surge da necessidade de ordenar, de criar um método, doar ao homem o que ele procura. Algo que lhe permita desenvolver-se, enternecer-se. Como um retrato do que o mundo é. Faz deste o dilema de sua escrita, porque sabe, como poucos, da incapacidade de ordenação, de evolução que preside a vida humana.
Sob a lucidez, sob a claridade com que ordena o mundo, revela-se a potência de sua ficção. A formulação de um mundo, que se vê impelido para a ruína, para os destroços, ordenada de maneira exata, revela, nas entrelinhas da escrita, a impossibilidade a que todos estão submetidos. Não há saída. Todas as fórmulas se esgotaram. O governo da economia substituiu o sonho de construção do homem. Nos cafés, na vida privada, nos palcos, nos projetos culturais, nas religiões, as portas se fecharam.
Para Sándor Marái o mundo funciona iludido pela necessidade de responder às necessidades. Ao escrever, observa, de dentro da ilusão de ordem, uma ordem única e possível, que se escreve sob o signo da ficção. Para negar a ilusão, ilude o leitor, que pensa ler-se em um mundo correto e funcional, quando, na verdade, só se permite que, sob a exatidão, recaiam, sobre ele, dúvidas e incertezas.
A literatura de Sándor Marái é potente, enfim, não por ter este ou aquele pensamento sobre os homens, não pelo ceticismo que acompanha essa percepção, mas é potente, sobretudo, por obrigar o leitor a não ler apenas o que lê, por obrigá-lo a penetrar na ordenação possível de seu texto.
Com cuidado, reafirme-se: obrigar. O grande escritor obriga, dá ordens, faz escravo do texto o leitor, quer este queira, quer não.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.







































