O Oscar visto do lado de cá
Mais um Oscar chegando, e apesar das constantes notícias e especulações divulgadas nos jornais, a pergunta da maioria das pessoas é “e daí?”. Nos meus tempos de colégio era impensável chegar na sala de aula sem a noite mal-dormida do prêmio e sem conhecer todos os vencedores. Alguns amigos com pais cinéfilos conseguiam soletrar nomes e currículos de forma invejável. Se alguém soubesse o nome do vencedor você precisava retrucar com “e a piada no discurso do fulano foi muito boa, mas traduziram errado”, mostrando o seu domínio do inglês. O importante diante da turma era estar bem-informado e falar coisas como “Jack Nicholson salvou o filme”. Contava pontos no índice de popularidade.
Mantive comigo essa ilusão da importância do Oscar até trabalhar em uma empresa e ouvir dos funcionários frases do tipo “Velozes e Furiosos não ganhou nenhum? Mas como pode!”, “Keanu Reeves levou o de melhor ator?” e “Quem é Meryl Streep? Prefiro a Demi Moore”.
A cada ano a cerimônia do Oscar é maior e a audiência menor. As piadas só têm graça para os americanos – dizem as más línguas, os comerciais são longos demais e se você não sente um calor (ou furor) interno vendo o Tom Hanks de gravatinha, talvez acompanhar o prêmio não seja a melhor programação para a sua madrugada.
O Oscar já foi glamour, já foi o símbolo do pensamento coletivo americano. Isso tudo antes do meu nascimento. Consegue até hoje elevar o cachê de atores, coloca diretores como semideuses e povoa o imaginário coletivo de um povo que se criou nas telas de cinema. O que ele representa hoje ninguém sabe dizer ao certo. Eu apostaria no reflexo comercial dos filmes até o ano passado, quando as tendências se inverteram. Existem semelhanças entre Ben-hur e Gladiator? Titanic pode ser a versão moderna de E o vento levou…?
Se você não está interessado em nada disso, sabe que vencer ou perder o Oscar muda o salário do ator e não o seu e acha que no final das contas a estatueta nem é tão bonita, saiba que ainda assim o prêmio pode ter uma utilidade. A de pesca-palavras. Seja adepto do cinema ou da locadora de dvds, as indicações cada vez mais pulverizadas do Oscar servem como um guia de nomes que não devem cair no esquecimento. É uma alternativa mais eficiente àquele guia de filmes caindo aos pedaços que você comprou na banca de jornal.
Em 2006, por exemplo, tivemos Jardineiro Fiel, a produção internacional de Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus. Brokeback Mountain, o sonífero romance gay contemporâneo, situou novamente Ang Lee como um grande diretor (abalado por Hulk) e confirmou os talentos de Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Capote trouxe o escritor de volta às prateleiras, apresentando seu nome para um novo público, e de quebra mostrando que Seymour Hoffman ainda tem muito a deixar de legado. A lista é muito diversa e isso é o importante. Ela inclui Johnny e June – que conta a história do cantor Johnny Cash, Transamérica – comédia que traz um travesti como protagonista, Match Point – o excelente retorno de Woody Allen, A noiva cadáver – animação sombria de Tim Burton, os blockbusters de qualidade Batman e King Kong, o filme político estrangeiro Uma mulher contra Hitler, o drama político-social Crash-sem limites e o documentário A marcha dos Pingüins, entre outros.
Da safra de 2007, muitos já estão em cartaz. Nossa rede de nomes traz Os Infiltrados – um thriller policial de Martin Scorsese, que foge da mesmice e traz atuações memoráveis de DiCaprio e Jack Nicholson, A Pequena Miss Sunshine – comédia dramática família com atriz mirim indicada ao Oscar, A Rainha – filme que deve surpreender muita gente, falando das reações da Rainha Elizabethe após a morte de Diana, Borat – o símbolo da comédia escracho do momento, Filhos da Esperança – ficção sobre o fim da humanidade, Volver – Almodóvar falando de morte e lembrando que Penélope Cruz sabe atuar, Babel – thriller de Iñárritu num mundo regido pelos senhores da guerra, O labirinto do Fauno – filme de fantasia e terror dirigido por Guillermo del Toro, O diabo veste Prada – comédia sobre o mundo da moda, A casa monstro – animação tradicional para crianças que pensam, Diamantes de sangue – aventura politizada com DiCaprio, Dreamgirls – musical com Beyonce e Eddie Murphy, Piratas do Caribe – alguém não viu?, O Grande truque – ótimo filme do diretor de Batman, com Hugh Jackman e Christian Bale, Uma verdade inconveniente – documentário sobre o planeta ameaçado, Pecados Íntimos – drama adulto com crimes e muita traição, O último rei da Escócia – mais aventura politizada, agora sobre um ditador da Uganda, À procura da felicidade – drama sobre superação com Will Smith e o dueto de guerra de Clint Eastwood – A conquista da honra e Cartas de Iwo Jima.
Como é possível perceber nesse relance, mais importante do que saber quem será o próximo ganhador do Oscar é você, espectador, ser capaz de montar listas de indicados para prêmios pessoais e caseiros.
E isso porque nem falamos de trilha sonora.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.



















