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A Scanner Darkly (O homem duplo)

Richard Linklater é diretor do clássico filosófico Waking life, da comédia Escola de Rock, do documentário Fast Food Nation e dos romances cults Antes do amanhecer e Antes do pôr-do-sol, um currículo realmente de respeito. Em Scanner Darkly ele retoma a técnica de Waking life e usa o rotoscópio para transformar em desenho o que foi filmado, deslocando o conteúdo imagético da realidade e colocando ambiente e personagens no mesmo plano.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Philip K. Dick, uma ficção científica com poucos futurismos, que se passa em um mundo afetado por uma super droga chamada Substância D ou Slow Death, numa brincadeira com as iniciais (também de Scanner Darkly). A Substância D faz com que os dois hemisférios cerebrais comecem a competir um com o outro, gerando imagens e informações conflitantes e deteriorando a capacidade de raciocínio.

Na história, acompanhamos Bob Arctor (Keanu Reeves), um agente infiltrado numa casa de traficantes, que tenta descobrir quem é o principal fornecedor do grupo, o big fish. Para que seus amigos não suspeitem de nada, Arctor começa a usar a droga e se vicia. Como Arctor e os demais agentes só se apresentam a polícia usando um traje especial que esconde seus verdadeiros rostos e exibe centenas de outros no lugar, ninguém lá dentro sabe quem é quem, mantendo segura a identidade dos policiais. Isso, porém, leva a uma situação inusitada. Arctor (ou agente Fred, seu codinome) é escolhido por seu chefe para acompanhar a casa onde ele mesmo está infiltrado. Diversas câmeras espionam o cotidiano dos traficantes e jogam para um scanner projetor. Arctor –  com seu traje de agente Fred – precisa vasculhar as imagens e descobrir alguma pista sobre o principal suspeito da polícia: Bob Arctor. Está criado o estranho loop de auto-conhecimento. Arctor não chega a ser um Édipo, mas busca por si mesmo e duvida da própria identidade. A idéia de ciclo é mantida em diversos elementos do filme, comandando a lógica diegética até o fim.

Ao contrário do que pode parecer, Scanner Darkly não é um filme confuso, pelo contrário, o raciocínio por trás do roteiro é linear demais, o que o torna cansativo apesar de interessante. Linklater manipula bem as surpresas e revelações (afinal é um filme de investigação), mas podia ter trabalhado um pouco mais o centro da história, unindo as conversas filosóficas ao desenvolvimento da narrativa.

Análise técnica à parte, o filme deve gerar alguns bons debates pós-sessão sobre a perda da identidade, uso de drogas, verdadeiros financiadores e distribuidores, limites disso e daquilo, tudo muito atual, infelizmente.

O livro, lançado em 1977, é quase autobiográfico. Dick conviveu por muito tempo com um grupo de usuários de drogas (LSD e Substância D?). Nessa época, parou de escrever e ficou viciado em anfetaminas. No final do livro há a uma lista imensa de amigos que morreram ou ficaram extremamente debilitados por usar drogas. O diretor Linklater mantém a lista no final da exibição, um foco de realidade pós-animação rotoscópica.

Scanner Darkly conta ainda com Winona Ryder, Woody Harrelson e Robert Downey Jr., como os drogados que moram com Bob Arctor, escolha no mínimo curiosa.

Quem quiser importar, lá fora já foi lançado o DVD.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0005, em 5/2/2007

 

 

 

 

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