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Ana Lúcia Pardo

Entrevista exclusiva: Ana Lúcia Pardo
Coordenadora e curadora do ciclo “A Teatralidade do Humano”
entrevista gravada no terraço do Oi Futuro em 03 de fevereiro de 2007.

Ana Lúcia Pardo é atriz, jornalista e idealizadora do ciclo “A teatralidade do Humano”, que encerra sua programação esta semana depois de seis meses promovendo o debate e reunindo gente de vários pontos do país, das mais diversas áreas e expressões de conhecimento humano e arte.

Aguarrás: Vamos falar de reflexão sobre a arte. Particularmente sobre teatro. Apesar do Rio de Janeiro ser um centro cultural de grande projeção, de ser esta “vitrine” artística, o espaço para a reflexão sobre arte é bastante restrito e tem dificuldades em se estabelecer ou mesmo ganhar visibilidade. Como vê o ciclo “A teatralidade humana” nesse contexto?

Ana Lúcia Pardo: Isso que você falou comunga muito com a idéia de fazer esse painel. Como atriz eu estaria muito movida a fazer um espetáculo, voltar a atuar. É sempre instigante falar de algumas coisas, ocupar a cena. Mas, nesse momento, achei que devia ir mais longe, no sentido de não só trazer esses espetáculos, mas trazer reflexões sobre questões da vida, do mundo, do humano e das artes. Achei que para a gente falar do teatro, precisava sair do teatro. E cada vez mais eu acho que as áreas estão dialogando. As coisas são multidisciplinares, multiculturais. Acho que o Rio de Janeiro é isso, essa síntese. Reúne as mais diversas linguagens, manifestações, segmentos e correntes de pensamento. E ao mesmo tempo necessita de um momento de recolhimento, de olhar para dentro e ir para fora, para re-significar, para olhar diferente e não só ser, ou ficar na vitrine, no glamour e no espetacular. Isso por si só já é interessante, atrai, diz muitas coisas através de diversas linguagens, todas. Mas eu achava que a gente precisava ir mais fundo, mergulhar mesmo nas questões do humano.

Aguarrás: Por quê?

Ana Lúcia Prado: Porque parece óbvio você falar da teatralidade do humano, quando você está falando de teatralidade que não está só no palco, na cena, no espetáculo. Você está falando da teatralidade dos indivíduos. Dos papéis com que se reinventam, das pessoas que se teatralizam. Parece óbvio que isso está no ser humano, mas eu queria trazer uma luz sobre, botar uma lente de aumento: o que isso revela? Se a gente fosse pegar só o teatro, quando a gente cria um personagem, constrói um trabalho, faz o espetáculo, a gente mergulha nas questões do humano. Essa realidade diária, cotidiana, também se alimenta das metáforas. Essas coisas se fundem o tempo todo. E que coisas, que diálogos se estabelecem? Como é que atravesso o mundo? Percebo questões tão urgentes de se pensar que eu achei que a gente precisava se debruçar sobre elas.

Ana Lúcia Pardo

Aguarrás: Como as pessoas – público e participantes convidados – receberam essa proposta de reflexão sobre o humano a partir da arte e do diálogo entre as expressões diversas?

Ana Lúcia Pardo: Foi receptivo, mas ainda para algumas pessoas havia necessidade de explicar, de dizer dessa mistura. A gente está misturando várias coisas: está misturando espetáculos, intervenções, performances, falas. É um enorme risco. Pessoas muito diferentes, de mundos diferentes, de olhares diferentes, campos, de trabalhos, práticas… E se ao mesmo tempo isso interessava, porque interessava trazer o artista que está lá no seu espaço de ensaio, recluso, para fazer seu trabalho; aquele pesquisador que está lá, na solidão da sua pesquisa; aquele cara que está na sala de aula, me interessava também juntar essas pessoas que estão estudando e pensando as artes, o pensamento humano, e juntar para dialogarem, para se alimentarem, para trocarem, para provocar um reflexão, para provocar o encontro inclusive, nesses tempos virtuais em que o teatro e as artes cênicas implicam a presença física, o olhar, a troca, a relação com o outro. Eu queria criar um pretexto para o encontro, para a troca, para discussão.

Ana Lúcia Pardo

Aguarrás: Quando você fala de sair do teatro para fazer teatro, pensar o teatro, é inevitável pensar no universo que cerca o teatro hoje no Rio de Janeiro. A vida urbana está muito difícil, as pessoas estão temerosas e o medo temor bloqueia e subjuga o humano. Que função esse painel de reflexão exerce dentro dessa realidade em que o humano se perde?

Ana Lúcia Prado: Acho que esse painel provoca uma discussão que, ao mesmo tempo em que parece simples, é um desafio: olhar o outro. Olhar o mundo, olhar em redor, olhar em torno, mas olhar e ver. Isso tudo não pode cortar a relação com as pessoas. Acho que as pessoas precisam olhar mais, entender mais, se relacionar de forma diferente, sabe? Teve um mês que a gente falou sobre a rua: o artista, a cidade e a rua e a Paola Berenstein, arquiteta, falou da errância, dos errantes, que é o cidadão que anda e que se perde, que se permite se perder e que tem aquela leveza e a lentidão para andar e perceber a cidade diferente da cidade espetáculo, ou da cidade efervescência ou glamurosa. Simplesmente aquele que se apropria da cidade de uma forma diferente. Esse pertencimento da cidade como sua, daqueles cidadãos como seus, de você se ver nesse lugar e com essas pessoas, eu acho que você começa a combater essas questões, de violência, de forma diferente, como um humano. Com todas as suas complexidades e contradições, como todos nós somos.

Ana Lúcia Pardo

Aguarrás: Há um mundo paralelo de pessoas excluídas que é característica dos grandes centros urbanos, um mundo cada vez mais incomunicável. Esse “olhar humano” é o canal para re-conectar os mundos?

Ana Lúcia Pardo: Mesmo que a gente construa castelos, mesmo que a gente feche as portas e tente negar essa diferença ou essa coisa que nos amedronta, ela faz parte da gente, ela está junto. E cada vez está mais próxima. Não dá para falar hoje em centro e periferia, a cidade se expandiu de uma forma que não é mais centro e periferia, não é mais, está tudo junto. E você tem que relacionar de forma diferente com isso tudo. Parece piegas falar isso, mas é tão óbvio, e é difícil ao mesmo tempo, porque as pessoas criam suas amarras, suas fortalezas para se defender. Por isso que eu sempre me identifico, me aproximo, tanto para fazer arte, para a vida, com esse lado dos excluídos. É como se essas pessoas vivessem no limite e elas têm uma teatralidade, uma força, uma história para contar, que está ali, não revelada. E é de uma riqueza.

Aguarrás: Qual o lugar da arte nessa conexão?

Ana Lúcia Pardo: Acho que a gente já viveu um período da arte engajada. Hoje, claro, a gente tem todas as linguagens, tudo é possível ser dito e feito. Mas quando eu vejo, por exemplo, o Marcos Prado com “Estamira”, é o que eu estou querendo dizer: você percebe naquele lixo todo que tem história ali, tem teatralidade, tem riqueza, tem beleza inclusive. Tem gente. E aí ele vai e encontra essa personagem que revela muitas coisas do mundo. Encontrei no filme do Marcos Prado a materialidade do que eu queria falar. Fiquei encantada, voltei para casa impactada. A arte provoca essas coisas, a realidade também.

Aguarrás: O papel da Arte é o impacto?

Ana Lúcia Pardo: Não sei se o impacto, mas sempre acho que a arte precisa, tem que instigar alguma coisa. Porque eu quero dizer isso? Em que coisas quero mexer?Acho que é parte de uma inquietação, ou de uma angústia, ela não apresenta propostas, não apresenta respostas, não pretende salvar o mundo, assim como esse painel, não tem essa pretensão, e sabe que não vai salvar o mundo, não vai salvar o humano, não vai sair daqui todo mundo bonzinho, jamais essa pretensão. Talvez seja mais para levantar dúvidas e questões e deixar as pessoas pensando, cada uma no seu lugar de trabalho e de vida, qual é o seu papel, qual é o seu lugar no mundo, qual é o lugar da arte que diálogos a arte pode estabelecer com esses tempos de agora, que são muito velozes. A gente não consegue apreender, e se você não cuidar acaba ficando essa pessoa que corre em função desse tempo veloz, absorvido que está por tudo isso, plugado que está com todas essas coisas. Mas tem o tempo da reflexão, tem o tempo da parada. Como que é que a gente está nisso tudo? Como que a gente se insere nisso tudo? Como que a gente dialoga com essas coisas todas que estão chegando, que estão aí?

Aguarrás: O que isso tudo muda nas relações dentro ou a partir da arte?

Ana Lúcia Pardo: Isso estabelece novas relações entre as pessoas e novos públicos também. Para nós que estamos fazendo arte, por exemplo, os públicos mudam e as pessoas agora cada vez mais querem interagir. A internet está aí para dizer isso. Então as pessoas estão interagindo, estão escrevendo, estão se expressando cada vez mais, querendo dizer, falar também, não é mais só aquele que senta, assiste. Isso é muito rico. Até pensei em escrever um texto para encerrar o painel, eu queria dedicar ao público.

Aguarrás: Como foi público nesses seis meses de mistura?

Ana Lúcia Pardo: A cada mês eu ficava como você fica na sua casa, esperando as pessoas chegarem: será que elas vêm? Ficava numa enorme preocupação: será que vem? Quem vai vir? Será que não é uma chatice, isso de estar propondo reflexão numa cidade tão em ebulição, o Rio de Janeiro? Por que essa parada? A cada mês vieram pessoas de áreas diferentes, muito diversificadas. Fiquei pensando, valorizando muito essas pessoas. E é sempre uma incógnita, isso que eu acho interessante também: é sempre “o que será que vem?”. Que questões as pessoas vão trazer? Quais são as inquietações delas? Eu acho que muito pouco se fala do público. Sem ele não teria havido nada.

Ana Lúcia Pardo e Ana Carina Santos

Aguarrás: Desafio, o ciclo cumpriu sua função? Como avalia o encontro que esse painel promoveu ao longo de seis meses?

Ana Lúcia Pardo: Eu nunca dou uma coisa por acabada, acho que é processo, tanto que a gente está agora fazendo o site, quer fazer os cadernos, o filme. Sinto que é uma etapa e que ela nunca se esgota. Há sempre desmembramentos, efeitos multiplicadores, conversas e trocas, ainda. Teve um mês em que a gente falou da colonização e trouxemos um pajé ambientalista, Kaká Werá, junto com o Zé Celso. Esse pajé falou um pouco da dívida do teatro com os povos indígenas, como apareceu o teatro, matando mais do que corpos, matando almas, da forma como ele foi utilizado para catequizar para acabar com os deuses indígenas. Ele falou de uma forma tão importante, qualificada. E aí depois veio o Zé Celso, com uma forma de teatro que inclusive trabalha com os rituais, que é uma outra forma de teatro que não é essa que veio lá de Anchieta. E a gente encerrou com o ritual dionisíaco do Zé Celso misturado com o ritual indígena dele, uma pajelança. Essa química dos dois juntos foi fantástica. Valeu a pena. Para os dois e para nós, que viemos e trocamos com eles. Mas é sempre um risco.

Aguarrás: Acha que o ciclo conseguiu consolidar um espaço de pensamento em arte e teatro no Rio de Janeiro? Como pensa em dar continuidade à proposta?

Ana Lúcia Pardo: Talvez essas reflexões comecem a se dar, não por hora, num painel como esse longo, muita gente, com toda uma produção. Talvez em grupos menores que comecem a se encontrar, a disseminar, em grupos de discussão em Internet, nos cadernos que a gente está se debruçando, tentando fazer. Aí será um outro momento, de convidar as pessoas, de trocar, dialogar e de lançar esses cadernos aí, com texto e reflexões. Vamos botar um site e justamente para essas pessoas do público que eu estava falando: interessa que elas escrevam, façam intervenções, coloquem lá no site, fiquem alimentando isso. Talvez essa seja uma primeira forma nossa de dar continuidade a essa reflexão.

Aguarrás: Há humano na virtualidade?

Ana Lúcia Pardo: Qualquer que seja a tecnologia a ser inventada, ela não vai substituir o contato humano. Mas claro que por hora ela até diminui, se você tem condições de falar com grupos ficando em casa, com toda a segurança e tal. Mesmo assim, por exemplo, se a gente fosse falar desses grupos que a gente já mencionou, são formas dessas pessoas escreverem seus textos, colocarem ali suas impressões, falarem de si mesmas, quem eu sou o que eu penso. Sinto que as pessoas estão movidas a se expressar.

Aguarrás: Criar um novo espaço de humanidade?

Ana Lúcia Pardo: São lugares que caminham numa outra lógica. Acho que a gente tem que usar para bem. Eles transpõem as distâncias. Eu sempre acho assim que esse diálogo entre as mídias é interessante, mas ele não pode ser uma imposição. Não é só: “Ah, tem várias mídias e é contemporâneo usar tudo isso, misturar tudo isso”. Acho que o que interessa é uma coisa anterior a isso, é o impulso de: por que dizer? Por que fazer? o que eu estou fazendo aqui? Que coisas quero dizer com isso? Com esse blog, com youtube, ou com essa peça ou com esse painel? Onde eu quero chegar? Que coisas quero provocar? Para mim isso é anterior. As linguagens que vou usar podem ser infinitas, o problema é quando essas questões estão na frente desse impulso primeiro. E aí elas ficam vazias, porque elas ficam simplesmente técnicas.

[da rua ouvimos o vendedor de vassouras real, permeando a entrevista: vassouras, vassoureiro, olha a vassoura!]

Ana Lúcia Pardo: Não que eu tenha a obrigação de ser engajada. Não é isso. Mas eu não posso estar de costas para o mundo. Não se pode estar de costas para as coisas que te afetam. Esses tempos virtuais, eles têm que vir para somar, não podem ser um impositivo.

Aguarrás: Olhando o panorama do teatro, percebe essas questões do humano e da realidade permeando o que está sendo produzido? Há reflexão na cena?

Ana Lúcia Pardo: Acho que a gente tem nas artes, no teatro, várias possibilidades. Todas são interessantes e não vou entrar em juízo de valor sobre elas. A gente tem diversas linguagens em forma de espetáculo diferenciadas sendo oferecidas. Há pessoas que têm que estão pesquisando, estão mergulhando fundo, não estão preocupadas só em fazer o espetáculo, colocar em cartaz, abrir o pano trazer e o público. Há os que dizem “nós somos atores, diretores, queremos inventar personagens, contar histórias”. Tá, isso por si só já é interessante e eu não desmereceria, se fosse só essa a idéia, jamais. Mas me interessa esse mergulho mais profundo que o Antônio Araújo [Teatro Vertigem, SP] faz, que o Enrique Diaz [Companhia do Atores, RJ] faz, o Zé Celso [Oficina, SP] sempre inquietado com as coisas, o Abujamra com “A voz do provocador”. Acho que tem que ter coragem, porque é um desafio também. É processo, é mais longo esse processo, talvez você vá ter menos público, talvez vá ter menos espaço, ele vai num outro caminho que não é o espetacular, tira o chão, tira todas as tuas certezas, não te dá nada pronto. Ele está querendo realmente te provocar questões, te dar uma sacudidela, essas coisas precisam ser feitas. Então eu acho que tem umas pessoas que estão fazendo trabalhos interessantes e eu procurei trazer algumas delas no painel.

Aguarrás: Esse encontro com tanta gente supriu solidão de atriz na sala de ensaio?

Ana Lúcia Pardo: Quando eu vejo pessoas que como a Denise Stoklos, que estão há anos com essa solidão do palco, vejo que tem outras pessoas que também estão assim. Claro que com linguagens diferentes, com formas diferentes. Mas aí você pensa: eu não estou só, tenho alguns pares para trocar. Porque às vezes é uma profunda solidão. Ainda mais quando você não vai num caminho conhecido. Acho que a arte sempre caminha no desconhecido, caminha no abismo, na incerteza, no vazio, que é apavorante, mas ao mesmo tempo é instigante, porque é nessa solidão, nesse vazio, nesse desconhecido é que tudo pode acontecer, tudo pode provocar, é o risco.

 

 

 


Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.

 

editoria: edicao_0005, teatro, em 6/2/2007

 

 

 

 

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