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Luiza Baldan

Quando você se depara com um vazio ou o silêncio há sempre o perigo de acreditar que se trata do sinal de alguma essência, o início religioso de algo. Que aquilo que você (não) vê e (não) escuta é uma manifestação metafísica. Pois (segue o raciocínio) se não há nada ali, só pode estar acolá (acolá sendo, em geral, algum ponto vago acima de sua cabeça).

Luiza Baldan - Palamo Luiza Baldan - Miami Luiza Baldan - Londres Luiza Baldan no Espaço UFF de Fotografia, em Icaraí, Niterói
Luiza Baldan não cai nesta armadilha. Suas fotos, de cenários urbanos vazios, não estão na origem de nada. Estão no fim. De um dia de trabalho, de um beco, de uma volta no carrossel, no ‘game over’ de um pinball.

E localizados em geografias bem terrestres: Barcelona, Miami, Búzios.

Há um significado a ser extraído dessa pluralidade geográfica, viagens.

Nostos é um conceito grego, expresso na Odisséia, da impossibilidade de retorno a um mesmo lugar.

Ulisses contemporânea, Baldan não tem nostalgias. Mostra em suas fotos situações e objetos impregnados por um valor de uso, de experiência. E a visão dessas imagens se atualiza sempre, na medida que o cenário urbano muda sempre. Hoje elas são de um jeito. Daqui a uns anos as veremos de outro. Sem retorno.

Na verdade, as fotos não são bem vazias ou mudas. Têm nelas as marcas do movimento e vida que as animaram até o segundo anterior ou que as animarão dali a instantes, assim que o dia clarear. Ou o barbeiro abrir sua barbearia. Ou daqui a muitos anos, quando o que vivemos hoje nos parecer espantosamente anódino. A bem dizer, não é Baldan quem passa, não é ela a viajante. Ela é mais Euricléia, a serva que reconhece o Ulisses que viaja, em seu retorno, por uma cicatriz na coxa. Quem some e reaparece, a cada vez diferente, são os decibéis e o movimento humano que os lugares fotografados indicam. A nós - e a Baldan - fica a tarefa de reconhecer as cicatrizes. Como a vida está em suspenso no instante da foto, há uma tensão grande, latente, em todas elas. Ao fotografar o vazio, Baldan fotografa a velocidade - expressa às vezes no foco ou não-foco.

Ela acha que há tons para cada cidade. Que os conjuntos de cada local são diferenciados. Não são. Há uma continuidade pessoal unindo todos eles. O pessoal em Baldan é que não há mais a possibilidade de um exílio espacial. Só os temporais. Alijados das fotos, nos sentimos incomodados com a presença (imaginada) da fotógrafa na cena fotografada. Ela está onde desejamos mas não conseguimos estar, na pausa. Esse o nosso exílio.

As dimensões relativamente pequenas das fotos limita a fruição. Uma pena.

A exposição vai até março no Espaço UFF de Fotografia, em Icaraí, Niterói.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: edicao_0005, fotografia, em 8/2/2007

 

 

 

 

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