O carnaval é, como creio que a maioria já sabe, uma festa de origem pagã e a maior festa popular do Brasil. Acontece, segundo o calendário cristão, entre o Dia de Reis (A epifania, em 06 de janeiro) e a Quaresma (quarenta dias antes da Páscoa), durante quatro dias, e termina na quarta-feira de cinzas.
Dito assim, parece não esclarecer nada, não é? É que o carnaval, apesar de ser uma festa tradicional cristã, não tem uma data segundo o calendário gregoriano, que nós usamos/conhecemos, mas sim é regido pelo ano lunar, com origens nas tradições da antiguidade, resgatadas pelo cristianismo, em seus primórdios, das tradições pagãs.
Segundo os estudiosos do tema, o carnaval tem o significado de “adeus à carne” ou “carne nada vale” (que deu origem a própria palavra carnaval), tendo um sentido profundamente místico de desapego ao material ao corpo, sendo semelhante, em muitos aspectos, aos bacanais romanos.
O carnaval como conhecemos hoje em dia tem origem na Era vitoriana, lá pelos idos do século XIX, entre Paris (FR) e Veneza (IT). No Brasil o carnaval chegou por meio do “entrudo” português, onde, segundo as tradições portuguesas, as pessoas se sujavam, umas às outras, com ovos, água e farinha. Como o entrudo acontecia num período anterior a quaresma e tinha um significado ligado à liberdade, este sentido permanece até os dias de hoje no nosso carnaval. O entrudo chegou ao Brasil por volta do século XVII e, naturalmente, trazia influências das festas carnavalescas da Europa.
No final do século XIX os primeiros blocos carnavalescos são vistos no Brasil, mas é no início do século XX que os “desfiles” começam. Inicialmente, em carros particulares de passeio, as pessoas se fantasiavam e saíam às ruas para se divertir. Alguns historiadores creditam a isso o surgimento dos carros alegóricos.
Também no início do século XX acontece o surgimento das “marchinhas”, que são músicas de espírito brincalhão, repetidas pelo povo na alegria e brincadeira de rua. Com o surgimento da escola de samba Deixa Falar, que posteriormente se tornou a Estácio de Sá, o carnaval passa a assumir o formato tem hoje, de desfile de escolas de samba, mega-evento carioca, famoso em todo o mundo e que já tem em Sâo Paulo uma “derivação” de formato. Pois, no norte e nordeste do Brasil permanecem algumas das tradições portuguesas que, com influências indígenas, africanas (na Bahia, por exemplo) e de outras culturas, foi tomando outros formatos, já consagrados pelo gosto popular brasileiro.
No aspecto cultural o tema carnaval é, sem dúvida, um oportunidade ímpar de desenvolvimento de trabalho e/ou estudo arte-educacional. Basta ver o número de teses que existem sobre cultura e arte popular, escolas de samba e carnaval nas universidades brasileiras. O trabalho educacional de alguns projetos desenvolvidos em torno das comunidades das escolas de samba também é exemplo de utilização positiva do tema em arte-educação.
O carnaval ainda escancara a capacidade e produção artística popular do povo brasileiro e explicita a existência da educação não-formal no espaço carnavalesco, bem como auxilia a construção de identidade artístico-cultural do povo brasileiro. Isso tudo sem nem mencionar o grande teatro que é, em essência, o carnaval! Um dos mais respeitados artistas da Pop Art, o inglês Richard Hamilton, destacou as qualidades que considera ideais para que uma obra de arte possa pertencer à atualidade: transitoriedade, popularidade, sensualidade, humor, glamour, esperteza, jovialidade, produto de massa, e alta rentabilidade financeira (RICHARDS, Hamilton – Pop Art in Concepts of Modern Art. Londres). Será que ainda resta alguma dúvida sobre a questão do Carnaval ser ou não arte?