Pílulas
Acontece no Oi Futuro. Andar térreo. Três monitores e headphones para o público acompanhar Pílulas, uma compilação de 28 vídeos entre 1 e 4 minutos de direção. Apesar do ambiente transpirar novidade e decoração futurística, a amostra está estagnada no tempo. A começar pelo modo de exibição. Os 28 vídeos passam em ordem pré-determinada sem que o espectador possa interagir, voltar, repetir o que gostou, pular o que não despertou interesse, tornando falsa a arquitetura da intimidade desenhada pelo triângulo 1 espectador, 1 banquinho, 1 monitor. Não há nada que o espectador possa fazer para contribuir com o formato, ele está lá para absorver durante 61 minutos o conteúdo selecionado na ordem que alguém julgou ser melhor. O controle de acesso ao menu até existe, mas fica desligado e ai de quem mexer.
O conteúdo é diverso, com mais pontos baixos do que altos. Maurício Castro e Rachel Castro (alter egos?) são responsáveis pelos vídeos mais cansativos. Oldsmobile, Tube, Trucking, Jump, Flash e Skyscraper miram no experimental e acertam no ultrapassado. Entediantes, usam a mesma estrutura de repetição sonora e de imagens de cidade, ora passando por antenas e carros, ora por edifícios, tão presos ao formato que não geram conteúdo. O único que tenta chegar a algum lugar é Jump, propondo a cidade como uma imensa montanha-russa. Uma pena que o carrinho não sai do lugar.
Em Boletim Extraordinário, Rodolfo Rufeisen acerta o ponto de comédia ao criar um documentário fake sobre óvnis, com direito a aparições de discos, depoimentos de especialistas e locutor no melhor estilo Globo Repórter. É um vídeo rápido e eficiente.
Pálida Lua de Arthur Lins é um exemplo bem-sucedido da forte presença da cidade na amostra. Sua fotografia preta e branca iguala o humano ao concreto de forma acertada. No curta, dois garotos brincam na rua. Apesar da pouca idade da dupla, a brincadeira de “bandido e polícia” não guarda o caráter inocente de antigamente. Pelo contrário, os tiros disparados pelos dedos são mortais e os corpos, estirados no chão, são então absorvidos pela essência da cidade.
Em Passos, Diogo Marques tenta a combinação de imagens atordoantes e frases soltas, um artifício da videoarte que raramente funciona. Aqui, a qualidade da fotografia mantém aproximação com o espectador e, mérito do diretor, a poesia não compete com a força da imagem. Um bom representante de “clipoema” para a mostra.
Suzana Markus e seu Alígero tiram os olhos do concreto ao exibir um pássaro em uma árvore, com simpática trilha sonora. O começo em preto e branco esvazia o grande momento, no final do curta, quando o pássaro vai embora e o colorido dá lugar ao preto e branco. Como ela explica, alígero quer dizer ligeiro, veloz.
O curta Rodrigo, Gustavo, Marcelo do diretor Vitor de Azevedo Lopes exibe basicamente desenhos de linha sobre o concreto. O fio que forma, deforma, contorce se contrapõe ao asfalto, ao chão duro, imóvel, sem dinâmica. Exibir o carretel, linha, pés e mãos ao invés da pipa é um modo inteligente de mover o simbolismo de arte e liberdade que a pipa carrega consigo e devolvê-lo aos verdadeiros artistas, com seu jogo de cintura diário para sobreviver.
Estrangeiro de Dirnei Prates escolhe uma câmera que roda freneticamente por um conjunto de prédios para explorar o vazio. Não funciona. É um trabalho muito mais de som do que de imagem.
Http 404 é outro representante do humor. O curta coletivo de Alexandre Meziat, Marc Doyle-Aymonin e Pretto Lopes traça um paralelo entre a burocracia infernal que nos envolve e o modo como computadores processam e interpretam informações. Bem pensado e editado para caber em 1 minuto, com direito a camisa com código binário.
Rotundus é o vídeo que mais se destaca, não pela qualidade, mas pela singularidade. Fabiani Matos faz um microdocumentário sobre a artística plástica Fernanda Magalhães, que busca na gordura uma forma de transgressão. Em imagens repetidas e quadros-discurso, ouvimos Fernanda falar do que chama de forma perfeita – o redondo.
Filmes de guerrilha em tempos de paz de Angelo Augusto Ravazi, Júlio Taubkin e Pedro Arantes faz uma crítica aos senhores da guerra. É aquela história do ovo frito como metáfora para o mundo, Bush aprendendo com Kubrik e seu Dr. Strangelove, Hitler, Vietnam e outros mais do mesmo. A parte boa é a entrevista que encerra o curta: Você nunca teve vontade de matar alguém?, perguntam pelas ruas.
Roque is Dead, de Eduardo Ribeiro Bassi, é uma animação simplória, videoclipe da banda The Dead Rocks. Seguindo o estilo videoclíptico da MTV, também há Slumber e Climax, sem conteúdo, e W37 que troca o rock pela música eletrônica, sem saber lidar com a abstração dos nomes sem rosto proposta pelo estilo musical.
Oui, je t’aime de Claudia Oliveira é uma grata surpresa. A diretora filma os gatos Alice e Frajola em situações inusitadas e consegue montar um verdadeiro caso de amor, apostando na capacidade manipuladora de uma trilha sonora bem escolhida. É simples e divertido.
Em Adeus Bart, o diretor usa um boneco do Bart Simpsom para fazer uma crítica à solidão. Eficiente e sombrio, mas ganharia se fosse mais curto.
99,9 metros rasos pode ser visto como uma metáfora da corrida contra o tempo ou um jogo de linguagem puro e simples. Basicamente, Alice Miceli mostra um corredor na pista e sua imagem vai parando, parando… até que ele estacione no ar.
André Amparo é responsável por um dos grandes momentos de Pílulas com o curta O fundo do mar. Nele, acompanhamos pessoas se movimentado na imagem distorcida, onde o humano nada mais é do que um ruído visual. A poesia imagética do que vai se revelando um jogo de futebol ganha destaque quando os personagens decidem encarar a câmera, recusando-se a ser meramente parte do conjunto difuso.
Nos vídeos Colapso e Cárcere, Nelton Pellenz exibe habilidade com a linguagem, mesmo que em caráter experimental. A edição de som de ambos é muito boa, sem haver repetição de idéias. Colapso se destaca pela edição gráfica da cidade acelerada e Cárcere pelas sombras e lentidão, em um ambiente onde aquele que pára chama mais atenção do que aquele que segue em frente. A textura mais pop de Colapso deve agradar mais o espectador.
É, não é de Gabriel Sanna e D.Cavalcanti supostamente faz um paralelo entre conceitos da física quântica e os sonhos de uma adolescente. Que ele exista então no abraço pedido no meio da multidão.
Gabriel Sanna, dessa vez com Simone Pazzini, sobrepõe duas cartas de amor em O silêncio que eu queria contar para você. O vídeo traz uma mistura de cantoria desafinada, barulho de secretária eletrônica, janela interior, um cão parado, uivos e falas. Conseguem provar que as idéias não se conectam sozinhas e que a integração está muito além da sobreposição utilizada.
Para fechar, Célio Dutra Junior usa e abusa da edição de imagem em Dançando por dez. O espectador acompanha um ensaio de dança editado, em nuances de azul, branco e prata. Intencionalmente ou não, o diretor retrata de modo agradável a multiplicidade da dançarina e a eficiência de grupo de dança como um corpo único, em coreografias de coesão.
Passados os 61 minutos, o recado é: independentemente do caminho escolhido, tenha sempre um propósito em mente.
“A idéia era a de reproduzir o esforço da bailarina no ensaio… referência às coreografias (escritas com o corpo) e o desgaste energético… pelo que li, mesmo que vc tenha deixado no ar a resposta sobre as minhas intenções, percebi que passei a mensagem… o que não foi intencional foi o ato do registro. Eu simplesmente me sentei no tablado durante o ensaioe, enquanto conversava com a diretora da companhia, a câmera registrava as bailarinas dançando e interagindo. Logicamente, elas perceberam isso e também dançaram pra câmera… desencadeando um processo de interação que pode ser tido como não-intencional. Mas a edição, sim, o foi”. — comentário enviado por Célio Dutra Junior, diretor de Dançando por dez.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































