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Antônia

Antônia – a série você acompanhou primeiro na rede Globo. O filme, que chegou recentemente nos cinemas, é um prequel, ou seja, mostra a vida das quatro integrantes antes do que vimos na TV, com o mesmo charme e elegância, mas sem o medo de tratar de temas como homossexualismo e violência doméstica (ui ui ui a audiência). É bom destacar também que Antônia – o filme foge da (falta de) linguagem da televisão e é cinema na direção, roteiro, música, atuação e edição. Pontos positivos.

Antônia, o filme de Tata Amaral (foto de Marcelo Vigneron)A história fala de quatro meninas-mulheres que moram na periferia de São Paulo e têm um sonho em comum, cantar e viver disso. Basicamente, estamos falando da luta pelo sonho. Quem não sonha não levanta da cama, diz uma delas. A realidade é desgastante demais, a inveja idem. Todo dia tem alguém querendo roubar um pedaço seu, seja com críticas, com desestímulo, com aquelas histórias de “ouça bem, eu fiz isso e não deu certo, o melhor é ser…”. Quem nunca ouviu algo assim? Esse tubarão, antagonista da felicidade alheia, chamado realidade apresenta-se no filme na forma de personagens secundários, histórias paralelas que são pequenas idéias não desenvolvidas, e servem mesmo para abocanhar, tirar lascas do que é o tema central: busque seu sonho ou morra tentando, mas não fique no meio do caminho. A infelicidade é contagiosa, desenvolva bem seus anticorpos.

Antônia, o filme de Tata Amaral (foto de Marcelo Vigneron)O filme mantém o foco nas quatro cantoras do Antônia. São elas Preta, Barbarah, Maya e Lena, respectivamente as atrizes/cantoras Negra Li, Leila Moreno, Quelynah e Cindy, todas muito bem no desenvolvimento das personagens e entrosadas com a direção de atores de Tata Amaral. Elas começam carreira fazendo backvocal de um rapper e decidem tentar carreira sem ele quando criam a primeira música. Isso abre margem para preconceitos masculinos, mulher no comando da carreira, não quero mulher minha rebolando no palco e outros quadros do pensamento retrógrado que compõem a sociedade brasileira. Longe das executivas arrumadinhas dos filmes americanos, as meninas precisam equilibrar profissão e vida pessoal, abrindo espaço para novas críticas sociais de Tata Amaral. Não que a diretora tente se aproveitar do cenário favela para vender pobreza, pelo contrário. A distância desse clichê golpe baixo faz o filme ainda mais bonito e relevante. A Vila Brasilândia é um cenário forte que cresce diante do espectador livre das algemas que associam o negro à violência. Até porque, a violência hoje está ali na esquina, na nossa porta, e a falsa cultura da cidade dividida está caindo por terra. O perigo está dos dois lados (que é um só), a beleza e o talento também.

Antônia, o filme de Tata Amaral (foto de Marcelo Vigneron)Desenvolvendo a trama central, Preta está em crise com o marido e tem que cuidar da filha sozinha. Barbarah tem um irmão gay que sofre preconceito na favela de forma covarde, Maya vive a tensão dos fortes sentimentos que movem amigos de longa data e Lena enfrenta dilemas ao engravidar. Uma hora o sonho está tão longe, outra está tão próximo para em seguida se desmantelar. A única coisa a fazer é levantar a cabeça e seguir em frente, e assim acompanhamos o começo de carreira do Antônia. Antônia porque todas as meninas tinham um avô chamado Antônio. Simpático assim.

Antônia, o filme de Tata Amaral (foto de Marcelo Vigneron)Todas as atuações merecem elogios, mas Thaíde no papel do empresário Marcelo Diamante está hilário. Se mostrou um ótimo ator e descobriu uma veia de comediante que não pode ser desperdiçada. Merece elogios também a cantora Leila Moreno, que soube se despir da aura de “deusa” que a mídia tanto apregoa para explorar os limiares de força e fragilidade de sua personagem, sem cair no drama.

Talvez me repetindo, parabéns à Tata Amaral por fugir do drama sem fugir do mundo real. Agora é comprar a trilha sonora e esperar pelo dvd.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0005, em 16/2/2007

 

 

 

 

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