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A Alma Imoral

A atriz desnuda diante da platéia. Os segundos de silêncio (que são entrega) estabelecem a comunhão: dezenas de desconhecidos tornam-se unos na sensação de desamparo: nudez diante do olhar e por trás dele. Silêncio e não-ação são necessários para construir o instante e deixar a todos, atriz e platéia, livres para o que virá.

Liberdade é o que chega quando o desamparo dá lugar à confiança. De que matéria ela é feita? Todas as pessoas, nenhuma delas. Cada uma delas.

O que espanta e encanta em “A Alma Imoral”, solo da atriz Clarice Niskier, que leva ao palco a adaptação feita por ela própria para o livro homônimo do rabino Nilton Bonder, é a serenidade.

O espetáculo flui como uma brisa leve, um convite. Transforma humores e espíritos, convida a caminhar levemente pela noite com os olhos voltados ao mesmo tempo para dentro e para fora, a compartilhar na epifania do encontro entre homem e mundo.

E nos dá a medida exata de nossas possibilidades de serenidade e atitude diante de tudo, nossa opção de atravessar o canal que nos tira do “lugar estreito”.

Em tempos de auto-ajuda midiática, um espetáculo ou texto com esse teor pode, por um lado, levantar suspeitas de céticos e cínicos e, por outro, transformar-se em coqueluche, febre, mania acéfala.

Não me parece ser nenhum desses o caso da “A Alma Imoral” de Niskier.

De fato, o espetáculo que estreou modestamente no Sesc Copacabana, espaço de conhecido experimentalismo teatral, ganhou espaço na cena carioca reconhecido por público e crítica, e se mantém em cartaz em temporada sucessivamente prorrogada no Leblon, num horário alternativo de meio de semana e com casa cheia, constante. Coisa rara e deliciosa de se ver.

Mais: deu à Clarice Niskier sua segunda indicação ao prêmio Shell de melhor atriz no mesmo ano, 2006 (a primeira veio no primeiro semestre, com o também vôo solo de “Tudo sobre Mulheres”).

E aqui chegamos ao ponto que faz a diferença e pode dirimir dúvidas céticas (ou cínicas) e ranços dos que costumam acreditar que arte genuína e popularidade não podem caminhar juntas: a atuação, melhor dizendo, a presença de Clarice Niskier, honesta, madura e livre, justifica e preenche o espetáculo.

Proporciona o instante de vivência única para artista e público que é, em si mesmo, a razão primária da existência da arte.

Sempre é importante dizer também que esta obra específica de Nilton Bonder não está exatamente presa aos conceitos da literatura de auto-ajuda. Não conheço o texto do rabino, exceto pelo que me foi dito pela atriz na cena e por um ou outro artigo pescado na internet, posterior à minha ida ao teatro para ver a “Alma Imoral”, movida que sou pela curiosidade das palavras.

Mas acredito que tratar de maneira franca temas éticos e humanos em nossos dias me parece mais do que necessário, ou perderemos a lucidez e a tolerância diante do que parece brutal. O pouco que ouvi e li de Bonder, trazia reflexão e clareza na medida justa.

O livro “A Alma Imoral” foi eleito um dos 20 melhores livros de sabedoria judaica nos Estados Unidos. Existem outros títulos de Bonder, alguns que realmente podem nos fazer arquear a sobrancelha, como “A cabala do dinheiro” ou “A arte de se salvar”, ou ainda “O segredo judaico de resolução de problemas”.

Prefiro aqui a liberdade de tratar do que realmente importa nesta “A Alma Imoral”, até porque julgar livros pelo título é quase tão ruim quanto julgá-los pelas capas, com o perdão do clichê. Então voltemos à cena.

Começa com um breve conto, história do próprio espetáculo, quando a atriz sobe ao palco e inicia uma conversa informal com a platéia. Mais do que justificar o porquê de levar ao teatro a adaptação de um livro que, teoricamente, não se prestaria à dramaturgia, ou mesmo de oferecer algum entretenimento descompromissado através de anedotas, este é o momento em que a atriz constrói a intimidade necessária com a platéia para que possa oferecer-lhe sua “alma imoral”.

Veja, não se trata de alma “amoral” (“que não é nem contrário nem conforme a moralidade”, nos diz o Aurélio), nem de alma “imortal”, como o próprio Bonder brinca em seu texto: i-moral, de ser efetivamente contrário à moral, assumidamente não-moral.

Trata-se de oposição, contestação, luta mesmo.

A Alma Imoral

E só então vêm o corpo desnudo e o silêncio. Alguns segundos apenas são o necessário para que sigamos adiante conduzidos com firmeza e serenidade pela atriz, que desfia contos da tradição judaica, desenvolve os conceitos de tradição e traição, preservação e evolução, corpo e alma, relacionados como opostos complementares, fundamentais para a existência e a caminhada humana, para a construção do certo e errado que deixam de ser dogmas arraigados e imutáveis para ganhar flexibilidade e fluidez através dos tempos, metamorfose do ser que não perde de vista sua própria essência.

O desafio e o acordo tácito que se estabelece no instante vivido nessa hora ou quase hora de teatro-não-teatro é a entrega generosa à experiência.

Entenda-se que o solo “A Alma Imoral”, de Clarice Niskier, é uma experiência teatral peculiar, especial. Recorre ao silêncio que fortalece o drama desde as raízes do teatro (Grécia) e, ao mesmo tempo, burla todas as regras, leis e tradições que acostumamos a cultivar historicamente, sejam para o palco, sejam para a vida.

Sobre o palco, a atriz tem o cuidado de desfazer o palco. Sua entrega é menos que um atrativo e muito mais que um mero recurso estético. É a condição imprescindível para que o ato teatral se realize.

Qualquer expectativa ou intenção de malícia se perde, inexiste neste cuidado que advém da identificação. Assim, a cena se constrói e traduz o que aparentemente seria intraduzível da palavra de literatura não dramática.

Os recursos cênicos exteriores de que dispõe a atriz são poucos: um copo de água, uma cadeira, um tecido negro muito fino, muito leve, com o qual se transforma ao contar histórias, o qual trata com amor e respeito ritualístico, projeção de si mesma, sua pele e o que há para além dela.

E sua voz, os olhos tão amplos, o sorriso que permanece. O toque suave da alma imoral comove, a sua rebeldia revolve, o espaço do conflito construído para que haja, enfim, dramaturgia é interno: na atriz e também no público.

Em momento algum há “representação”. A criação da cena existe em si mesma, é sustentada pela simplicidade e pela generosidade com que Clarice Niskier nos dá a noção de que o teatro precisa de muito pouco para acontecer de maneira transformadora, e mais que isso, que esse pouco é muito, é tanto. Reside no próprio ator que precisa estar pulsante em sua própria essência (no caso de Niskier, a essência da serenidade), aberto e verdadeiro, desejoso do encontro, pronto para receber o que vier e também ele se transformar. E então é partir, depois da despedida, com a sensação da brisa leve em movimento, por dentro.

Em tempo: “A Alma Imoral” é um dos espetáculos selecionados para a mostra oficial do festival de Curitiba deste ano. Vale a pena conferir antes que saia do Rio.

Serviço:
A Alma Imoral – com Clarice Niskier
Sala Fernanda Montenegro, Teatro do Leblon
Rua Conde Bernadote – 26, Fone: 2511-2791
Terças e quartas, 21h; quintas, 17h
Até o dia 29 de março.

 

 

 


Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.

 

editoria: edicao_0005, teatro, em 20/2/2007

 

 

 

 

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