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Babel

Existe uma história engraçada na Bíblia sobre a origem dos idiomas. Os homens tentavam construir uma torre que ligasse a terra ao céu, Deus se enfezou com a prepotência e fez com que cada pessoa falasse uma língua diferente. Como ninguém conseguiu se entender, o trabalho não foi para frente. Babel tenta reproduzir de certo modo essa incomunicabilidade, propondo um paradoxo à idéia de mundo globalizado (que não fala a mesma língua). Aproveita também a paranóia pós-11 de setembro (essa sim globalizada) para deslocar a Torre de Babel do livro do Gênesis para o vindouro apocalipse que os pessimistas e pregadores aguardam com ansiedade. A premissa era boa, mas o silogismo falhou no caminho por diferentes equívocos técnicos.

Babel A primeira impressão é de que indeciso no brainstorm, Iñárritu resolveu utilizar todas as idéias sem critério, criando, cena após cena, uma repetição cansativa de mensagens. Babel já começa com um grande clichê. Todos os problemas do filme são causados pelo erro de dois irmãos, crianças. É uma estrutura que se remete aos antigos filmes de aventura, perdidos hoje em dia na sessão da tarde. Os monstros circulam pela casa, todos estão em silêncio. Os monstros estão quase indo embora, a criança espirra. O mundo mudou, e crianças não podem mais fugir de monstros, precisam empunhar rifles de caça e mirar em ônibus e carros de turista, na maior naturalidade. Como isso não é suficiente para atormentar o pai, o irmão mais novo ainda se masturba vendo a irmã tomar banho. Talvez dar o tiro desencadeador de uma problemática mundial não fosse suficiente para quebrar a inocência pueril.

Dentro do ônibus temos o casal americano Richard e Susan, mais conhecidos como Brad Pitt e Cate Blanchett. Vá contando as mazelas em um caderninho. Como o casamento estava em crise após a morte do filho mais novo, Richard decide fazer uma viagem relaxante até Marrocos (romântico, não?) para reatar os laços com a esposa. Só que Susan é totalmente asséptica e tem aversão ao local. A cena é um símbolo perfeito do acúmulo de rubricas de roteiro. Não bastasse a corporeidade de Cate Blanchett (que tem o cabelo claro, liso, a pele bem branca e um olhar enviesado característico), temos (1) Susan limpando as mãos com álcool em gel, (2) pedindo algo light para comer, (3) jogando o gelo fora violentamente, pois duvida da pureza da água e (4) vestindo uma blusa de um branco que chega a ofender a poeira do deserto de Marrocos. A blusa, aliás, ocupa um duplo papel, já que é Susan quem toma o tiro. É na brancura do tecido que a vermelhidão sangüínea se destaca, puxando para a cor a dramaticidade que deveria caber ao fato.

Estética pura e simples.

No núcleo japonês a estrutura é parecida. Continue anotando. A personagem principal é uma menina surda-muda, seu time de vôlei perdeu por sua causa (mas foi roubo do juiz, pois o mundo é injusto), a mãe se matou com um tiro na cabeça, a melhor amiga fica com o rapaz que ela gosta, ela mistura drogas com bebidas, não se dá bem com o pai, tem distúrbios sexuais resultantes de problemas de auto-aceitação e… por aí vai. Talvez ela tenha unha encravada. Poca desgracia, tonto el diablo.

Cruzando a fronteira (e incluindo o espanhol na película para aumentar o público), acompanhamos a história de uma babá que comete um erro terrível: levar as crianças americanas de quem toma conta para o casamento do filho, no México, sem autorização dos pais dos loirinhos. Tem amor mal-resolvido, sobrinho bêbado marginal e vestido vermelho esvoaçante no deserto, com a babá perdida, morta de sede e de fome, mais desorientada do que a galinha sem cabeça que aparece instantes antes.

Iñárritu, perdido na pompa do projeto, filma pés, mãos e beiradas de vestido ao vento, faz planos demorados de helicópteros no céu (toda boa tragédia tem seu deus ex-machina), elementos de linguagem usados a esmo.

A repetição entediante na história, nos personagens e na direção também é percebida na trilha sonora, vencedora do Oscar 2007. Estamos no Japão? Música eletrônica e boate. Fomos para Marrocos? Música arabesca no deserto. Chegamos ao México? Música folclórica para orientar o espectador na viagem, bebendo de clichês e subestimando a força da imagem.

Fica a impressão de que o microcosmo caótico das famílias não consegue se somar devidamente ao macrocosmo. Com conexões muito frágeis, a teoria do caos funciona invertida, contra a complexidade do sistema, e não sustenta o universo babélico idealizado pelo diretor.

Para um filme sobre a falta de comunicação, faltou a Iñárritu dominar o próprio idioma do cinema.

Babel custou US$25 milhões e já passa dos US$100 milhões mundiais, apesar da recepção ruim no mercado americano.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0005, em 26/2/2007

 

 

 

 

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