Gaivota – tema para um conto curto
Assistir ao espetáculo “Gaivota: tema para um conto curto” é uma experiência estimulante (como deve ser a vida, afinal). A mente provocada fervilha, são várias referências e conexões possíveis. Se podemos apontar uma virtude no trabalho de investigação do grupo de atores-criadores dirigidos por Enrique Diaz, é o fato de não fazer concessões, não oferecer facilidades a seu público, mas sem perder a pedra de toque do teatro – a comunicação plena com a platéia, através da qual a cena se realiza.
Na verdade, Diaz e seus parceiros apostam no público, têm fé e não o subestimam. Isso está bem longe de significar que “Gaivota: tema para um conto curto” está voltado a uma elite de pensamento ou artística, inacessível a pobres mortais.
Antes, é desses espetáculos que têm a ousadia e a generosidade de carregar consigo sua platéia para a reflexão, como cúmplices. Nisso a montagem se afina aos próprios anseios de Anton Tchekhov e seus questionamentos à vida imobilizada, sua observação amorosa do homem e suas pequenezas. Questionamentos que atravessaram os séculos e os continentes para chegar a nós: Brasil, Rio de Janeiro, século XXI.
Esta não é a primeira montagem de Tchekov dirigida por Diaz: já fez “As Três Irmãs” (1999), também numa experiência off Companhia dos Atores. O resultado de então tinha na ironia e na ludicidade seu ponto de encontro com o “espírito Tchekhoviano”, nas palavras do crítico Macksen Luiz.
Aqui, ainda uma vez, o humor e o prazer lúdico de revirar Tchekhov pelo avesso, mais que isso, revelar o avesso da cena mergulhando fundo nas fraquezas dos personagens (e intérpretes), guiam a montagem carioca inspirada no texto “A Gaivota” do dramaturgo russo.
“A Gaivota” de Tchekhov fracassa na estréia em São Petersburgo, em 1895, talvez incompreendido por uma platéia em choque. Na terceira sessão, dois dias depois, a montagem é ovacionada. Os temas que emergem do universo ao redor do lago, das vidas passivas em aparência de seus personagens, são universais, atemporais.
Se apresentam hoje no palco do Teatro Poeira casados à exploração experimental da imagem, do som, dos objetos e dos homens, numa leitura perfeitamente cabível à vida contemporânea amortecida e “multi-midiática” em que nos vemos submersos.
O projeto “Gaivota: tema para um conto curto” é antigo: foi por cinco anos acalentado por Enrique Diaz, Mariana Lima e Emilio de Mello. Realizou-se agora, dentro do projeto Residência do Teatro Poeira, que convida diretores para montagens experimentais sem preocupação com as questões comerciais e de mercado mais imediatas que dificultam esse tipo de investigação teatral mais longa.
Foram cinco meses de processo investigativo. O resultado da cena revela cada segundo aproveitado deste tempo em improviso, intimidade do elenco entre si, com Tchekhov e com o público, pesquisa corajosa e consistente.
Além dos três, o elenco conta com Felipe Rocha, Gilberto Gawronski, Malu Galli e Bel Garcia. Optaram pelo risco e não caíram na armadilha fácil de uma montagem sobre o processo criativo e investigativo do teatro voltado só para o teatro (ou para quem faz teatro). O caminho não se concretiza se o público não estiver junto: a chegada também é caminho, ainda.
Então o que se vê é o grupo de gentes, o elenco coeso, orgânico, uno na polifonia que constitui o jogo. Impossível apontar destaques: sete atores em tal nível técnico, em tal sintonia psíquica, artística, corporal, uma quase simbiose, em tal desenvoltura despojada que é como um único corpo pulsante, o grupo, multifacetado, trocando personagens à vontade, transpondo suas personalidades reveladas por aspectos diversos (o que Diaz chama de Lentes, numa herança de sua intimidade com a linguagem cinematográfica).
Não há esconderijos na cena branca, toda branca. Ela que sofre a interferência da virtualidade de imagens projetadas, dos objetos, das cadeiras, dos legumes, dos vasos, dos sons, dos elementos – terra, água, verde, eletricidade, som, vento. O fogo é interno e queima os olhos revelando a angustia do aprisionamento em cotidianos miseráveis, seres imobilizados.
Na criação coletiva nada é raso como uma poça de café derramado – transposição: é lago profundo e escuro de superfície tensionada entre o ar e a vida indecifrável por dentro. O espírito do mundo ansiado pelo jovem Treplev.
E tudo é provocação, do que se vê para o que não se vê, mas sabe-se lá: do café ao lago. E toda a palavra também é provocação, como o queria Tchekhov ao definir “A Gaivota” como uma comédia.
A palavra nos chega em polifonia e simultaneidade. O jogo orgânico permite muitas vozes que se revelam uma só voz. Três personagens mulheres, seis homens, uma paisagem. Acrescento à definição do próprio dramaturgo: toda a intensidade possível para fazer emergir do branco a vida.
Se há muitas vozes em Tchekhov, há muitas leituras possíveis de seus temas: conflito entre o novo e o cristalizado na tradição, embate de gerações, o tempo, a própria literatura, a criação artística e sua inviabilidade, a pequenez das existências imóveis, a consciência dessa imobilidade, a autodeterioração inclemente, o amor e sua medida humana.
Entre as provocações de “Gaivota” está o convite para que apresentemos nossa própria “lente” sobre o espetáculo e sobre Tchekhov. Das provocações de “Gaivota” que colocam as mentes em ebulição, está a aproximação do ato criativo como alternativa viável para vencer a barreira do tempo (em referências e conexões, lembrei de Hans Meyerhoff: O tempo na literatura), que é a própria imobilidade e morte.
Vencer e permanecer numa possibilidade contínua, no desejo do artista de vir a ser em sua obra, sempre e ainda num tempo em que se declara o fim das “obras” em prol da fragmentação. Mas alguma coisa permanece.
Nas vozes de cada personagem, um Tchekhov diferente – médico, aspirante a escritor, autor consagrado, velho que descobre diante da morte sua não realização em vida, mulher presa à glória do passado, jovem perdida em miragens de futuro, e o luto da consciência de sua própria existência em estado de não-vida. A dança dos atores na troca de papéis torna cada personagem outros tantos.
Na voz de Tchekhov, a voz de cada ator em sua fragilidade humana exposta. E o que permanece neles é o desejo da criação e a consciência de sua inviabilidade. Ao tratar da criação através da literatura Tchekhov vai além: está falando do próprio paradoxo da arte, da realização artista, falando de si mesmo.
Todo poeta sabe que nenhuma palavra, a melhor que seja, vai conseguir realizar seu poema. Posto que a poesia, quando transposta da dimensão do silêncio para a palavra, cristaliza e perde inevitavelmente: o que o poeta anseia é sempre indizível, porque anseia a vida. É a voz de Trigorin que revela o desespero de tentar capturara vida e fracassar.
A montagem de Diaz é contundente. Não se restringe a uma tradução de proposta pós-moderna, de meta-teatro por estética inconseqüente. Ao optar por falar de teatro, ao usufruir da liberdade de experimentação que o ensaio permite, no descompromisso da cena, ao expor a narrativa não como uma “montagem” formal do texto, mas como o processo contínuo e mutável de leitura da obra em suas várias vozes misturadas às vozes dos próprios atores-criadores, ao mostrar que algo permanece para além do tempo, o grupo fala do mesmo múltiplo que Tchekhov, usufrui do mesmo dilema do poeta.
Não que tenham perseguido conceitos teórico-filosóficos neste processo. A experiência do teatro pressupõe a obtenção e produção de conhecimento humano de maneira empírica (“workshopar”, para usar a palavra da atriz Mariana Lima).
Assim o verdadeiro drama: o ator-criador sabe da arte indizível que persegue incansavelmente. E por nunca alcançá-la, está sempre a dizê-la. Como o poeta.
E aquele que assiste ou lê, vislumbra o invisível, o indizível, provocado e estimulado a ser também um criador e pôr-se em movimento. “Gaivota: tema para um conto curto” é ainda um tema, o que virá a ser. Por isso permanece.
Serviço: “Gaivota: tema para um conto curto”
Quinta a sábado, 21h. Domingo 20h.
Só até o dia 4 de março.
Teatro Poeira
Rua São João Batista, 104, Botafogo – Fone: 2537-8053
Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.


















