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É cedo para aposentar o CD

Geralmente pensamos em novas tecnologias de forma excludente. Todo ano surgem câmeras digitais que tornam os modelos anteriores obsoletos, celulares estão continuamente inovando e computadores envelhecem num piscar de olhos. Entretanto, quando falamos de música e do mercado fonográfico, o parâmetro da exclusão é insuficiente e simplista para analisar as diversas camadas em jogo. Afinal, é possível chegar a uma coexistência pacífica, lucrativa para todos os lados.

É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) A primeira análise cabível é a do fim da era do vinil. As bolachas perderam espaço e tiveram seu fim decretado com o surgimento do cd. Nada mais de vinil duplo. Todas as faixas cabiam em um disco compacto, durável, fácil de carregar e guardar. Seus avançados tocadores vinham integrados ao som esbanjando modernidade. Para melhorar, mini e micro systems tornaram-se PowER Plus, Super Surround e outros exageros. O futuro estava logo ali, era a mensagem. Graças ao esforço de colecionadores e da preferência dos DJs, a morte do vinil foi adiada. Um exemplo recente (2005) foi o álbum Confessions on a dance floor, da cantora Madonna, lançado também em Vinil triplo rosa, edição limitada. Graças ao status cult, o vinil sobreviveu, mas perdeu o mais importante para a indústria – a representatividade em vendas.

Não é preciso falar do impacto da mp3 – uma tecnologia que inverteu o caminho tradicional de disseminação pela pirâmide de consumo e permitiu a troca digital em massa, entre outros dados que já nos acostumamos a ler com freqüência em jornais. Por muito tempo ela foi considerada a grande vilã que levaria as gravadoras à falência. O mesmo barateamento de tecnologia que havia popularizado o cd player chegou ao gravador de cd, facilitando a pirataria de mídia física e libertando a mp3 do computador. Gravar cds não era mais um recurso para poucos (que o diga o gravador de dvds).

Com alguma inteligência comercial e programação logística, as gravadoras perceberam que a resposta para os problemas estava na suposta vilã – essa tal mp3 – e a transformaram em ferramenta de venda de acesso universal, ajudando a reverter o quadro de queda do consumo de música e começando a recuperar o público que tinha migrado para o download ilegal.

Apesar de ser um processo embrionário no Brasil, a venda legalizada de música digital cresce a olhos vistos. Warner e Biscoito Fino já possuem sites de downloads similares ao iMusica, e a Warner acaba de anunciar parceria com a Vivo para vender seu catálogo como toque de celular. A tendência é que o repertório disponível digitalmente cresça ano a ano, e o número de clientes acompanhe a taxa. A renovação de mp3 players também continuará. Os tocadores portáteis estão cada vez mais baratos e celulares e relógios de tecnologia bluetooth já disputam o mercado. Em breve será possível baixar amostras grátis de música que durarão 3 dias no player, só ficando novamente disponíveis após a compra. Provavelmente as lojas de cd terão mesas wireless de onde o cliente aproximará seu aparelho para escolher, copiar e comprar as músicas. Um repertório infinito disponível em espaço digital, com painéis que alteram o foco da propaganda a cada instante e de acordo com o gosto do cliente. Lembre-se que hoje já é possível pagar contas pelo celular.

As rádios, que hoje ganham dinheiro com anúncios e comerciais (finja que não existe o jabá, por favor), também se transformarão em lojas de mp3. Com auxílio da tecnologia digital para exibir o nome da música e do cantor no display, bastará ao ouvinte escolher a faixa, consultar o preço e fazer o pagamento. Novamente a dobra espacial se abre e o futuro fica mais próximo.

Diante de tantas inovações, analistas e palpiteiros resolveram antecipar o fim do cd, com a mp3 (ou seja lá qual for o nome do próximo arquivo compacto revolucionário) assumindo o seu lugar. Mas você quer mesmo trocar o conjunto cd + encarte + informações + arte por um blábláblá.mp3 na tela do computador?

Talvez seja hora de mudanças. É mudando a mentalidade do consumidor e oferecendo produtos de qualidade que os sites de venda digital lucrarão cada vez mais. O mercado de singles no Brasil é inexistente e os interessados sempre dependeram de importadoras para conseguir o que queriam a preços exorbitantes. A mp3, ao invés de competir em venda com os cds, pode ocupar o espaço deixado pelos singles, esses sim verdadeiramente ameaçados pela era digital. Versões acústicas, remixes, novas roupagens, faixas exclusivas. Temos produtores e DJs de excelente qualidade no Brasil, plenamente capazes de tornar o mp3-single um produto interessante e, por que não?, diferenciado daquele disponível no cd, transformando a concorrência entre produtos em maior oferta de músicas. Uma nova demanda plenamente aproveitável, capaz de manter o sucesso de músicos consagrados e ajudar a divulgar novas bandas no espaço digital. Você é capaz de imaginar um programa de rádio anunciado assim: “e agora, as 10 músicas mais compradas durante o dia”.

O cd deve realmente virar item de colecionador o mais rápido possível, mas no bom sentido. Outra vez, se faz necessário a mudança de mentalidade e quebra de paradigmas. Ela deve partir das gravadoras em suas políticas internas, para alimentar um crescente público potencial. Vale parar e pensar. O que é o cd afinal? É realmente um transporte de mp3 da loja para a casa do consumidor? Ou ele pode ser mais do que isso? Para se manter vivo, o cd precisa se tornar um produto único, expor mais o lado arte, trazer um conteúdo exclusivo e personalizado que desperte o interesse do fã, não só pelo ouvido, mas pela visão e pelo tato, e quem sabe, o olfato. Deve ser vendido e anunciado como tal.

Exemplos não faltam. Veja a primeira coletânea de Michael Jackson, chamada History vol 1.. O álbum era duplo, vinha com um cd de coletânea e um cd de inéditas e tinha a caixa ampla para abrigar um encarte de 50 páginas com fotos, registros de shows, notícias sobre vendas e declarações de amigos. A capa tinha a foto da famosa estátua gigante que circulou em alguns lagos da Europa e os cds eram dourados, com a imagem da estátua gravada, um verdadeiro item de colecionador. Não há arquivo.mp3 que se compare. Em 1992, o grupo sueco Roxette teve a idéia de gravar um cd inédito enquanto fazia turnê. O resultado foi Tourism, que mistura versões ao vivo, gravações em estúdios diversos e até em nightclubs. O encarte ficou à altura e trouxe além das letras, declarações e fotos compondo um diário de viagens. Otto, de outra perspectiva, fez algo semelhante em Sem Gravidade, montando um álbum de fotos de viagem com encarte caprichado e arte gráfica no próprio cd, ajuda certa na ambientação audiovisual. Também pela Trama, Jair de Oliveira lançou o cd virtual 3.2, com as músicas que não entraram na seleção final de 3.1, o cd físico.

Em 2002 foi a vez de Christina Aguilera ter um surto de bom gosto e unir às músicas de Stripped um encarte prata cuidadosamente planejado que valorizou o pacote. O trabalho fotográfico foi tão bom, que rendeu a capa de 3 dos 4 singles que saíram dele. Dos artistas nacionais, Fernanda Abreu entende como ninguém o conceito da completude do cd como objeto de consumo. Sempre caprichou na produção dos encartes, com destaque para as montagens de Entidade Urbana – um verdadeiro quebra-cabeça de roupas e estilos – e o colorido de Na Paz, uma inversão da estética da guerra explorada por Madonna em American Life.. Toda cura para todo mal, do Pato Fu, fez do encarte um grande rascunho de desenhos, letras e cifras, aproveitando o conceito também para a ilustração do cd. Já o Nenhum de Nós aproveitou Pequeno Universo para montar um encarte miniatura, com um quarto do tamanho original, puxando a força da imagem para a arte gráfica do cd. Talvez, o exemplo mais clássico de cd conceitual brasileiro seja Barulhinho bom de Marisa Monte, quase um gibi erótico baseado nos desenhos de Carlos Zéfiro, aproveitando inclusive a textura do papel.

O cd-produto de consumo como espaço criativo não possui limites. Tem quem vá além do encarte e veja a caixa como parte da obra, fugindo da mesmice do acrílico no plástico preto. O cd Mutantes ao vivo recém-lançado optou por um design sóbrio e contemporâneo, mudando também a caixa do dvd. Parece ser uma tendência de refinamento dos pequenos detalhes. Mais elaborado foi o projeto do grupo oitentista Oingo Boingo, que uniu a embalagem totalmente trabalhada a um livro com fotos, desenhos e letras, gerando uma atmosfera sombria que casa perfeitamente com a sonoridade proposta no álbum de despedida (em seguida veio o ao vivo Farewell). O fã se deleita não só com a música, mas com o material do livreto. Um cd que raramente iria para um sebo. A parceria entre Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede, também mostrou bom gosto e criatividade de sobra na criação de arte de Vagabundo, um ótimo repertório com um conceito gráfico acima da média do mercado.

Inovações com a caixa também foram feitas em 1993 pelo duo Pet Shop Boys, que lançou Very com capa laranja de borracha e em 1996, Bilingual, que tinha a tampa de acrílico pintada de branco vazada com o nome do cd. Possivelmente, o exemplo mais diferenciado da caixa tradicional seja a embalagem do acústico do 10.000 Maniacs feita artesanalmente na forma de envelopes de papel nepalês fechados com um palito de bambu.

Você deve ter alguma noção da quantidade de material deixado por Raul Seixas após sua morte, vide o mítico Baú do Raul. Como pensar então em um cd do ídolo do rock que não tem nada além da capa e o nome das músicas, com o interior do encarte em branco? Você tenderia a comprar esse produto – aqui sim, um mero transporte das músicas – ou diretamente a mp3 de seu interesse? E se o encarte viesse recheado de fotos, contando a história das músicas, comentando o impacto de Raul no mercado fonográfico, imagens de letras manuscritas e outras curiosidades que cercam o artista?

A interatividade pode integrar o processo, com os fãs votando nas fotos, informações e artes gráficas que gostariam de ver no produto antes do seu lançamento (uma das músicas na coletânea dos Cranberries foi escolhida pelos fãs do grupo), ou mesmo encartes virtuais, montados de acordo com a preferência do comprador.

O conteúdo de cd traria como adicional clipes, entrevistas, explicações sobre músicas, bastidores de composições e gravações, ou mesmo papéis de parede para o computador. Os dvds, a exemplo do trabalho de Jean Michale-Jarre, podem oferecer mixagens 5.1. dos cds originais, atraindo os consumidores que já contam com home theater e elevando a experiência audiovisual.

A tecnologia só será uma ameaça a artistas que lançam cds burocráticos que servem de veículo para uma ou duas músicas de trabalho. Serão reconhecidos como criadores de singles e não de álbuns. Talvez vendam somente quatro músicas lançadas por ano em lojas virtuais, existindo fisicamente apenas em coletâneas. O que não deixa de ser um produto lucrativo voltado para esse novo público em constante formação, que monta a sua própria programação de rádio e vê a música de trabalho como uma sugestão e não uma imposição. Cabe à indústria perceber a demanda e explorar o nicho por meio de produtos inteligentes pensados para um público de sentidos mais apurados, mudando assim as tendências da queda de vendas de cds.

É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br)

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: edicao_0006, música, em 2/3/2007

 

 

 

 

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