Um poema, um poeta.
Después de passar
Los niños miran
un punto lejano.
Los candiles se apagan.
Unas muchachas ciegas
preguntan a la luna,
y por el aire ascienden
espirales de llanto.
Las montañas miran
un punto lejano.
(Federico Garcia Lorca)
Depois de passar
Os meninos fitam
Um ponto distante.
Os candis se apagam.
Umas moças cegas
interrogam a lua
e pelo ar ascendem
espirais de pranto.
As montanhas olham
um ponto distante.
(Tradução William Agel de Mello)
O texto acima, do poeta espanhol, Federico Garcia Lorca, revela toda a economia e magia da escrita poética. Sabemos que há meninos que olham um ponto distante e que este ponto distante será, no final do poema, objeto de um outro olhar, o da montanha. Não se afirma que ponto é este que montanha e meninos olham. Apenas o sabemos distante. Sabemos mais: que entre o olhar dos meninos e o olhar das montanhas os candeeiros se apagam e as moças estão cegas e choram e que o choro corrobora a distância anunciada dos olhares dos meninos e anuncia a das montanhas.
Todo o poema cabe nesta descrição feita acima. No entanto, há algo que perturba a vigília do leitor. A magia poética que se cria entre a luz do candeeiro, que se apaga, e as esperais que sobem pelo ar criam um nexo lógico e causativo, isto é, a razão, sugerida e não dita, pela qual a cegueira das moças as faz interrogar a lua – o ponto distante e nomeado – que não enxergam, está em relação direta com o ponto não nomeado que montanhas e meninos olham, a lua. Nomeia-se o ponto distante pelo que as moças não olham, por serem cegas, e os que possuem a capacidade de olhar, meninos e montanhas, não podem nomear o que olham. Assim, a cegueira contamina o olhar. O olhar assim contaminado estende sua capacidade até os seres (a montanha) – pois é disso que se trata – a quem é impossível o olhar.
Essa junção entre olhar e não olhar permite ao poeta, e ao leitor, perceber não só a humanização das montanhas como o homem desumanizado, porque pasmo diante do que olha: o ponto distante. Inserido no que não são e ao mesmo tempo são, homens e montanhas conhecem seu paradoxo. Um participa do mundo do outro por pertencerem ambos ao mesmo mundo, sobre o qual, aliás, nada poderá ser dito, senão a negação dos sentidos que os sentidos permitem aos homens como ilusão.
A desolação é absoluta. Resta ao leitor e ao poeta a afirmação de uma estranha ficção, que serve ao mesmo tempo para remir do cativeiro em que os sentidos o colocaram como para afirmar a diferença que os homens possuem quanto à natureza: a capacidade de produzir ficções e vivenciá-las.
Em seu mais recente livro, História, Ficção, Literatura, Luiz Costa Lima indaga-se acerca da determinação do ficcional. Nesta indagação verifica que o estatuto do ficcional se estende por toda manifestação humana. Quanto mais somos passíveis de produzir linguagens mais somos capazes de dotar o mundo de ficções. Tal argumentação, se nos diz de uma pressuposição comum aos homens, no entanto, terá um outro desdobramento, quando o assunto, sobre o qual se reflete, é a literatura.
A formulação do discurso literário como determinador do real e não como seu reflexo pressupõe o fio da indagação teórica da literatura e de sua prática. Assim como é uma forma de ficção calcular as estruturas de um prédio, é uma forma de ficção dotar o mundo de possibilidades para o real, isto é, ser capaz de produzir uma realidade. Embora os discursos humanos promovam essa produção, o único que se sabe produtor de realidades e não a realidade ela mesma é o artístico, o que se produz como um como se e não como uma formulação do que é. Essa diferença brutal vai fazer com que o leitor, diante do inusitado, diante do não previamente demarcado como real, possa aceitá-lo e possa produzir uma percepção crítica diante do que foi já determinado como a fixidez do real, imutável e cristalizado.
Assim é que a magia do poema de Lorca se estende para a determinação de uma sensação de aniquilamento dos modos perceptivos do homem e o deixe com um traço mínimo, econômico, do que é o real: a sua completa incapacidade de distinção, produzida pela linguagem poética.
COSTA LIMA, Luiz. História, Ficção, Literatura. Cia. das Letras. São Paulo. 2006.
LORCA, Federico Garcia. Obra poética completa. Martins Fontes. São Paulo. 1989.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.


















