Acqua Toffana
O primeiro solo da atriz Dani Barros adapta para o teatro o romance de estréia da jovem escritora paulista Patrícia Melo, Acqua Toffana, sob direção de Pedro Brício. O espetáculo integra o projeto Solos Femininos, da Zeppelin Companhia de Teatro, alternando o horário alternativo (terças e quartas) do Oi Futuro com o espetáculo de Isabel Cavalcanti, O caderno rosa de Lori Lamb, adaptado do livro de Hilda Hilst.
A montagem desperta a curiosidade pelo próprio desafio: o texto de Patrícia Melo se alinha à literatura policial e possui características fragmentárias, tentando transpor para as letras a linguagem multimídida/videoclipe a que nos acostumamos no universo tecno-urbano contemporâneo. Uma proposta estética que teve forte representação a partir da década de 90 (o livro é de 1994).
Hoje, na terceira linha de combate, Dani Barros e Pedro Brício tinham pela frente o desafio de transpor a quatro mãos, mais uma vez, a linguagem – agora das letras para o palco – e contar a história do personagem Fulano de Tal, um burocrata de rotina mecânica e medíocre que, por motivo fútil, desenvolve uma obsessão odiosa e o desejo compulsivo de matar sua vizinha gorda Célia, passando a planejar incessantemente as formas de assassinato, às vezes sutis, às vezes brutais. A obsessão vira paixão psicótica. O livro vira teatro de leituras dúbias, de múltiplas interpretações possíveis.
O trabalho de adaptação é sem dúvida um dos pontos positivos do espetáculo. Em cena, o texto mantém sua força sustentado pelo humor negro e pela tensão que gera expectativa no público.
O tom confessional do texto facilita a ponte para o teatro. A mistura ambígua de realidade e imaginação, o mergulho intenso na psiquê de um assassino potencial, esses eram elementos de dificuldade para o roteiro cênico: como manter as cores e as nuances literárias no palco? Como manter a perspectiva esquizofrênica que o personagem tinha do mundo e das coisas sem se perder numa dramaturgia confusa? Este obstáculo o diretor e a atriz saltaram bem.
Entre a fantasia e o real, a história é conduzida na incerteza, deixando o público sempre numa certa “suspensão”, até o fim, num exercício constante para decifrar os códigos, montar e remontar o quebra-cabeças, e compreender o que se passou de fato e quem é esse Fulano de Tal, assassino apaixonado e torturado.
Ao sair da escrita para o palco, porém, o espetáculo encontra dificuldades. A direção optou por utilizar recursos técnicos (luz, cenário, marcações de movimentação) para acentuar ou tentar traduzir na cena a fragmentação videoclipe utilizada no livro e a mecanicidade da rotina do personagem.
Os excessos – em cortes, repetições notoriamente marcadas, blecautes, uma cenografia plástica mas carregada – acabam pesando, gerando quebras de fluxo, desvio de atenção. Ao final, fica a sensação da expectativa não realizada plenamente. Um caminho entrecortado que acaba gerando distanciamento e não permite que se chegue ao clímax. Vislumbramos a explosão máxima, mas não chegamos lá.
Acqua Toffana aborda questões bastante primitivas no humano: a morte e o desejo. A perda de limites estipulados socialmente para determinar o que é moral, o que é violento ou brutal, o que é “normal”. O teatro provocador nos leva para além dos limites e fronteiras e ainda conseguimos sair da sala de espetáculo impunes (ou quase).
Não há dúvida que a montagem de Pedro Brício e Dani Barros consegue tocar o ponto fundo e mais obscuro desses nossos impulsos primitivos. Articula e expõe com crueza nossos próprios mecanismos de defesa, às vezes pífios, fundados na fantasia que se mescla ao real até que todas as referências se percam.
Mas o toque que gera um incômodo inicial – e daí a expectativa íntima, a espera por algo indefinível que passamos a desejar ver realizado na cena: queremos todos matar a vizinha Célia – é interrompido.
As quebras do fluxo parecem criar pequenos “curtos” que nos desligam da corrente elétrica que deveria crescer, nos fazem perder esse contato íntimo com nossa própria obscuridade. E nos percebemos outra vez público, na poltrona confortável do teatro. Voltamos ao príncípio da relação com o personagem e seu universo, no esforço por um novo envolvimento que nos conduza ao toque íntimo, ainda uma vez.
Essa exigência de retomada constante poderia ser cansativa, não fosse o trunfo Dani Barros. A atriz sustenta bem o espetáculo, dá consistência à composição desse homem obsessivo e sua paixão homicida, tem facilidade e verdade na relação direta de diálogo com a platéia e ganha o público com domínio do humor negro e surreal proposto pelo texto.
Ao fim das contas, Acqua Toffana é um espetáculo de resultado curioso: a boa atuação de Dani Barros e o corte dramatúrgico bem sucedido do texto só pedem a mesma limpeza e precisão técnica dos outros elementos para que a cena transcorra fluida.
Serviço:
“Solos Femininos - Acqua Toffana”, com Dani Barros. Direção Pedro Brício. Terças, 19h30. Até 10 de abril.
Assista também “O caderno rosa de Lori Lamb”, com Isabel Cavalcanti.
Às quartas, 19h30. Até 11 de abril.
No Oi Futuro
Ana Carina Santos é jornalista, atriz e produtora teatral. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ.


















