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Machadianas

Estive outro dia relendo o Machado. O Dom Casmurro e alguns dos comentadores que mais me agradam. Fiquei pensando no que disseram uns, no que disseram outros. Gosto dos calidoscópios, de montar e desmontar imagens que nunca são tão diferentes do que são e nunca são também iguais, ou tão iguais, ficam num entrecruzar de possibilidades que jamais poderemos definir como definitivas. É um recurso intenso.

A obra do velho bruxo tem um pouco desta magia dos calidoscópios; se o leitor mexe com as possibilidades textuais, todo o universo do texto se reorganiza e produz uma imagem diferente semelhante e dessemelhante ao que antes havíamos percebido. Ativa no leitor o desejo de testar essas possibilidades, de produzir no texto lido tantas imagens quantas são as variáveis possíveis. Tarefa inglória. Tanto mais mexemos no texto, tanto mais o texto demonstra sua face mutante.

Se entrarmos pela percepção do discurso científico, o enigma de Capitu se revela um; se pelo discurso jurídico, outro; se pela matriz dos textos semelhantes, a nosso espanto se revela – como propôs Silviano Santiago – um discurso construído por respostas sociais e políticas ao nosso estar advocatício e religioso. Todos estão ali, constituem as peças, através das quais o nosso machado sangra, rasga a carne do que vai se estabelecendo como tradição. Todo esforço de leitura unívoca do texto machadiano tende ao fracasso.

Ler Machado é necessariamente reler o que dele antes propuseram, reler o que dele hoje propõem, pois todas as possibilidades falam de um Machado possível, de um Machado legível. Na legitimação das diversas leituras, na percepção de que ler assim ou assado foi possível é que se constitui a esperteza do leitor: saber que nenhuma deva ser desprezada.

Ao torcermos a caixa de surpresas que são seus livros, uma nova configuração se adequará à cena construída, uma outra imagem, insuspeitada, se formará e seremos todos obrigados a ver nessa nova revelação, que o texto contém desde sempre, o sorriso sardônico do autor e a nossa incredulidade de estarmos frente a um novo texto, que, entretanto, é tão semelhante ao anterior.

O calidoscópio machadiano nos toma e somos levados a brincar com ele, a buscar sempre a prefiguração de novas possibilidades.

 

 

 


Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.

 

editoria: edicao_0006, literatura, em 13/3/2007

 

 

 

 

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