Notas Sobre um Escândalo
Notas sobre um escândalo é um thriller eficiente em que a evolução da história acompanha o conflito psicológico de seus personagens. Estão descartadas perseguições automotivas e atividades de espionagem. O jogo está mais próximo de nós, do cotidiano de quem anda entre a razão e a emoção, aumentando assim o envolvimento do espectador. Manipulando uma atmosfera causticante, o diretor Richard Eyre faz o filme seguir num crescente e sufoca quem assiste ao mesmo tempo em que afoga os personagens na conseqüência de seus atos. Nada fica sem resposta.
O filme fala de Barbara Covett (Judi Dench), professora de escola pública rigorosa com seus alunos, tida como exemplo de ordem e conservadorismo pelos companheiros de profissão. Uma mulher solitária, ela escreve tudo o que acontece em um diário contínuo, cadernos e mais cadernos de infelicidade transformada por sua ótica psicótica. Barbara vê a chance de acabar com sua solidão quando Sheba Hart (Cate Blanchett), a nova professora de artes, chega na escola. Sheba é uma mulher muito bonita, que não consegue domar os alunos. Barbara decide ajudá-la nessa missão profissional, tendo como objetivo pessoal conquistar sua amizade. Problemas contornados aqui e ali, a relação se intensifica. Agradecida, Sheba convida a velha professora para um jantar em sua casa, momento em que Barbara conhece o marido bem mais velho, a filha mimada e o filho com síndrome de down – novas armas para seu tratado psicológico. Como uma mulher tão bela pode ter uma família tão insuportável?, ela se pergunta. A situação se descontrola quando a suposta defensora dos bons costumes descobre um affair de seu objeto de desejo com Steven (Andrew Simpson), um rapaz de 15 anos de idade. A partir daí, Barbara se infiltra como uma doença na vida de Sheba, aproveitando-se de cada equívoco da beldade para tornar a amizade um jogo vampiresco de dependência e traição, sempre com ameaças disfarçadas de boas intenções.
Quem adapta romances para o cinema deve ter plena liberdade de escolher quais cenas são relevantes para alimentar o ponto dramático central, de eliminar todo o entorno sacrificando personagens secundários e de criar a partir de poucas linhas uma cena realmente impactante ou transformar um capítulo inteiro em 10 segundos de imagem. Seguro no tema, Patrick Marber transformou o romance de Zoe Heller em um filme coeso, centrado na relação das duas mulheres. A família de Sheba e seu aluno Steven se aproximam e se afastam do tema central sem estrangular a trama ou se mostrarem desnecessários. São orgânicos, bem construídos no roteiro e bem dirigidos por R. Eyre, escapando da armadilha do personagem funcional. Compõem indiretamente Sheba e Barbara, refletindo os sentimentos duvidosos e a índole fluida da dupla principal. Os demais elementos narrativos também são muito bem integrados, dispensando narrativas em off. É a imagem que carrega a informação, seja num fio de cabelo caído no colo ou em uma pá suja de terra, e faz evoluir a trama.
Patrick Harber, também escreveu o roteiro de Closer (bilheteria mundial de US$115 milhões com custo de US$27 milhões), sucesso do ano de 2004, outro exemplo de diálogos inteligentes. Richard Eyre é mais conhecido por trabalhos na TV, e em 2004 dirigiu A Bela do Palco, um romance de arrecadação modesta sobre um ator que interpreta papéis femininos e que entra em crise de identidade quando o rei decide liberar as mulheres para atuar no teatro.
Exercício de sensualidade de um lado, exercício de relacionamentos conturbados do outro. A combinação perfeita para Notes on a Scandal.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















