maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

Experimentações

Há tantas contradições em arte que fico muitas vezes com medo de escrever uma linha que seja sobre o assunto.

Escrever sobre arte no Brasil então é tão confuso que o próprio escritor(?) sente-se indefinido.
Ser atacado não é o problema, não ser compreendido esse sim é o problema.

O sentimento como definição é vago e pomposo, não quero ser pomposo, nem espalhafatoso, mas a pergunta que me faço é:

O final de toda arte deve ser a arte? Ou o fim é apenas o começo da interpretação pessoal?

Essa pergunta me bate como um martelo, ao contemplar a exposição dos jovens artistas que compartilham a experiência de viver na cidade suja.

A pergunta que me faço é porque esse sentimento de inadequação se faz presente sempre que vejo algo inusitado como a percepção visual de algo não-novo, mas colocado de forma inusitada como sendo algo novo?

O novo entenda-se, como sendo aquela experiência de excitação e perplexidade diante da visão do objeto. O objeto aqui é a produção do artista. Compreendo isso seguindo a visão de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), aonde a visão do objeto depende da percepção do observador (ao observar estou vendo o que o artista viu? Na verdade vejo o que minhas experiências permitem, contrárias ao desejo do artista, que imagina de maneira diferente e eu, imagino o que ele desejou sem imaginar o que ele realmente imaginou, dialogamos num vácuo de filosofia, aonde a necessidade de identificação é segunda, não imediata - imagina eu falando isso numa aula!) que é a grande isca da arte. A pólvora que impulsiona a bala.

Não vou me ater a Merleau-Ponty, vou ser mais sincero e deixar essa coisa de visão mais pessoal.

Vamos então ao que interessa, começando pelo título da exposição, do grupo Sociedade Criativa.

Experimentações, uma experimentação parte de um método científico de verificação experimental de hipóteses teóricas. Teoria não possui nenhuma surpresa, eu acho.

Seria essa uma justificativa para um eventual não entendimento do público? (Sei do medo do fracasso, mas considero que o maior medo do artista é a comparação imediata com outro, por isso as teorias que são desenvolvidas tornam-se fundamentais para o desenvolvimento de uma saber maior sobre a arte, individual ou não).

As experimentações dos três baseiam-se na mais tradicional das artes visuais, a pintura, aquela que remete aos grandes mestres, conhecidos de todos e justamente mais propicia a crítica, pois qualquer um sente-se digno de falar isso ou aquilo. Afora a frase típica:

_ Isso eu também faço - e suas variantes.

Acho que nesse momento, você que esta lendo essas linhas, pergunta-se porque ele não fala das obras?

Ora, muito simples, falo do público, pois é ele que define o ponto crucial de uma exposição, que só o artista conhece.

Voltando: as teorias sobre pintura, definidas de forma secular, renovadas constantemente, me impulsionam a descrever a necessidade do artista ao escolher um suporte tão comum para sua expressão.

Concluo que: somente a certeza da completa feitura pode descrever a totalidade da experiência. O sensor mais comum deve advertir aos sentidos, ao sentir deve permanecer como mero precursor dele mesmo.

Uau, nem acredito nisso, mas o que desejei escrever é que ao estudarem formas tão simples – sabendo que simplicidade é sempre mais difícil – posso afirmar que as obras estão cumprindo o seu papel de experiências sensoriais e visuais, aos confrontarem elas mesmas e suas definições, tanto quanto arte, como suporte ou qualquer outra definição.

Descreverei a sensação que tive com cada um dos trabalhos expostos.

Joelson Bugila, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Joelson Bugila, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Joelson Bugila, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila

Joelson Bugila

Têmpera sobre papel.

O graffiti é considerado como forma de expressão, marcado pelo desenvolvimento crescente do urbano, nascido da marginalidade, aonde cumpria papel de identificação territorial, passa a fazer mais parte dos grafismos primitivos, usados em tribos, lembram dos índios? Pois é, ou então dos grafismos de cavernas que tentam demonstrar uma vida social, uma forma de verificar a sociedade fazendo uma leitura irônica e individual dela mesmo, claro que as nuances são apenas conjecturas.

Uma das definições dessa arte é a imobilidade do suporte, que geralmente é externo, como edifícios, muros e outros, faz pouco tempo que o graffiti migrou para telas ou suportes mais alternativos (estou falando dos graffiti que nasceram de pichações, ok?) como geladeiras – uma revisita a Basquiat? – nosso artista deve ter pensando nisso? Vocês podem dizer que sim, mas acredito que o suporte para seu trabalho, que são sacos de papel, daqueles usados em mercados e padarias, é mais uma homenagem – ironia, ironia – as fomes contemporâneas, que transformam todos os brasileiros em antropófagos (não estou falando de arte agora), a fome de nossa sociedade por novas saídas, estratégicas ou não, remete principalmente a fome individual, que assola tudo, mas é sucumbida pela primeira necessidade.

Admito também a ironia – mais uma vez – usada pelo Sr. Bugila, ao trabalhar com um suporte que remete ao alimento, ele demonstra uma fina intencionalidade de rir da necessidade que é a arte, sua função em nossa sociedade e sua real intenção. Em seus desenhos ele decide saciar as duas fomes, com desenhos primitivos alimenta uma necessidade nada primitiva. Com os sacos de papel ele alimenta o corpo, mesmo que metaforicamente.

Outra intencionalidade nada amadora transparece no material utilizado, a têmpera, ao deixar os materiais alternativos e utilizar a forma pura em um suporte alternativo à brincadeira torna-se mais divertida, atraindo e desenvolvendo um vínculo com o espectador ao relembrar momentos específicos da infância, perdido em nossa geração 80.

Felipe Kanareck, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Felipe Kanareck, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Felipe Kanareck, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila

Felipe Kanareck

Lápis 8B diretamente na parede e flyers.

Saindo da intencionalidade do suporte e partindo para o questionamento, temos o trabalho do Sr. Felipe. Extremamente ativo na percepção desenfreada do impulso de terminar algo e a visão pré-programada que temos de algo terminado, além da pouca intencionalidade infantil, mais abrangente e contundente. O trabalho explora questões fundamentais para novos artistas que buscam respostas para valores da obra, ou valores de representação da obra, ao transformar a moldura, que pode ser de um espelho, quadro, foto, em um objeto artístico, objeto?

Seria mais realista falarmos de intenção-objeto, ao utilizar a parede da própria instituição como suporte, ele luta com a intencionalidade, claro que a questão não é nova, mas é contemporânea ao tratar de questões como reciclagem e adornos fúteis. Outro ponto de discussão muito batido em arte, sua futilidade diante de novas experiências visuais, meios e formas de expressão. Sem esquecer da forma como lemos uma obra de arte.

Quando falo tudo isso é apenas para determinar meu ponto de vista, imagino que a curiosidade do leitor se dê ao imaginar o objeto, o Sr. Felipe trabalhou diretamente nas paredes da galeria, utilizando lápis 8B, desenhando molduras.

Simplório, não-novo, mas intensamente ligado aos valores intrínsecos da arte, o que o artista mais desejou com sua intenção foi a de aproximar sentimentos, tão contraditórios como efemeridade e durabilidade, ao transformar o mais inútil de uma obra em algo intransmissível e também transmissível, pois sua obra não se mantém apenas na parede, ela migra para flyers, que são entregues aos espectadores, que por usa vez fazem suas próprias interferências, colando, ou apenas guardando aquele momento, emoldurando sua percepção da sensação.

O questionamento, esse mais profundo, demanda perguntas que hoje se mostram como ontem, mas que permeiam qualquer trabalho de arte desde a modernidade permanecendo inclusive como meio e caminho em qualquer curso de artes visuais, caminhos estudados por pesquisadores como Arthur C. Danto (1) ou Hans Belting (2), ao contemplar esse questionamento acredito que o artista almeja, mais que a pintura, progredir de forma consciente, em uma caminho conciso daquilo que seria sua arte.
Cristine Gomes, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Cristine Gomes, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Cristine Gomes, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila

Cristine Gomes

Batom sobre tela.

O trabalho da Srta. Cristine conjuga a intencionalidade e o questionamento, mas não foca no suporte, o suporte para ela é apenas o caminho para o resultado. O que a Srta. Cristine foca é o instrumento, seu próprio corpo, nesse caso uma parte dele, sua boca. O suporte, como tradicionalmente se vê é apenas o receptáculo do instrumento e da intenção.

Seu trabalho nos remete as experiências de Ligia Clark (1920–1988), sua pesquisa com e no corpo, mostra toda sua preocupação em movimentar idéias e conceitos não-novo, pois o novo é apenas um caminho.

Porque digo isso? Todas as suas obras se baseiam na pintura, como as de seus amigos, mas o novo nesse caso parte do não-novo (essa minha teoria, como descrevi acima, tem tudo com Merleau-Ponty, não se esqueçam) sendo ele algo que procura desvirtuar o novo.

Agressão, atenção e choque são palavras que nasceram na arte moderna, assim como o uso da sexualidade e do erotismo como formas de expressão. Colocando de lado conceitos antiquados e buscando uma vanguarda baseada no ser como fundamento.

Sua forma de trabalho é simples, ao escolher o material, ela utiliza sua boca, que foi “pintada” com uma dose generosa de batom e beija o material de suporte até que considere a obra acabada, por mais simples que pareça ao transformar a si mesma em instrumento de trabalho, ela está constantemente ligando-se a suas pinturas, se é que posso descrever assim.

Sua inquietação perante o corpo, sua profunda pesquisa e questionamento são apenas afirmados em telas como a do homem andando. Aonde podemos ver duas questões, daquelas que todo crítico adora:

A pintura, efetuada com beijos, um gesto de carinho que transmite intimidade e cumplicidade, o beijo em si que por si só caracteriza um auto-retrato, o homem andando (ou correndo, não sei), que está colocado deitado! Não é interessantíssimo? Com recursos simples ela mostra sua inquietação e dúvida, gestos próximos?

Impossível descrever sem ver. O espectador é fundamental nessa parte!

Reconhecer o objeto, novo ou não-novo é o primeiro passo para a intenção do artista.

Exposição Coletiva “Experimentações”
de 06 à 29 de março de 2007

Obras de Cristine Gomes, Felipe Kanarek e Joelson Bugila
Local: Galeria Municipal de Arte de Itajaí

Entrada Franca
Fundação Cultural de Itajaí/SC
Galeria Municipal de Arte
Rua Lauro Müller, 53 – Centro.
Fone: 3349-1214/3349-1516
De 2ª a 6ª - Das 13 às 19 horas.

1 - A transfiguração do lugar comum
Arthur C. Danto
Tradução: Vera Pereira
Cosac Naify

2 - O fim da história da arte
Hans Belting
Tradução: Rodnei Nascimento
Cosac Naify

 

 

 


Alan Cichela

 

editoria: edicao_0006, filosofia, em 16/3/2007

 

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.