maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

Arte intermediada

Receber arte intermediada facilita o controle social.

Por exemplo, a Idade Média.

Leitura? Só com leitores especializados em emendar deficiências físicas (manuscritos em más condições, copiados e recopiados várias vezes) e morais (manuscritos precisando de uma mãozinha interpretativa extra, para que uma determinada mensagem, considerada “correta”, fosse bem entendida).

Imagens? Só com clérigos reforçando o que a tinta não poderia dar, por excesso de concretude.

No mais das vezes, a intermediação acontecia através de anotações diretas no texto ou na imagem. Um controle sempre renovado e, a cada vez, integrado na obra original.

Pelo lado do populacho, entendia melhor quem melhor estava sintonizado com a mensagem do poder - eclesiástico ou nobiliárquico. E a mensagem era a mesma e clara: havia o concreto vivido no dia-a-dia de fome e dificuldades, e havia um algo além. E nós, que fazíamos parte do primeiro, deveríamos nos esforçar para corresponder às expectativas desse nebuloso segundo universo que passava por nós, voando, pelas ruelas esburacadas, envelopado em roupas, carruagens ou nuvens, todas elas igualmente fantásticas.

E aí veio o grafite. Zero intermediação.

Entre a Idade Média e o grafite houve o século XVIII, é claro. Foi quando começou a ficar óbvio que o “algo além” - feito de riquezas terrenas ou não - poderia simplesmente não ser alcançável e, talvez, sequer totalmente desejável. As ruas teriam também seu orgulho, sua auto-estima, sugeria Swift. Ainda houve um contra-ataque do controle do tipo medieval, inculcando a noção de que há que haver muito esforço para obter algo nebuloso que dizem que é ótimo. Foi na literatura. Teve o nome de bildungsroman e era uma volta de controle social, agora não mais de forma grupal mas individual: o indivíduo bom era quem passava por todos aqueles perrengues e chegava a…, bem, não mais ao paraíso propriamente mas a uma espécie de conformismo (também chamado de felicidade, sabedoria, justiça) que, do ponto de vista do poder, também dava conta do recado.

No século XIX, o controle via esforço em direção ao paraíso - ou seus sinônimos oitocentistas - foi exercido pelas grandes ideologias. Se você era capitalista, a riqueza estava logo ali. Se você era socialista, a justiça vinha depois de algumas etapas que, infelizmente, jamais terminavam. E se você era hippie, bastava implementar a utopia em seu quintalzinho que logo, logo, todos, felicíssimos, faríamos a mesma coisa e chegaríamos ao equilíbrio ecológico.

No modernismo do século XX veio a arte construtivista fazendo eco a um outro controle que tomava corpo em mentes positivistas. Se Rousseau tinha feito um Émile com que todo poder sonha (seu personagem era incapaz de idéias ou iniciativas próprias e obedecia cegamente ao seu tutor), o herói aqui tinha fé cega em outro preceptor infalível, a matemática. O controle social se dava por impossibilidade de argumento contrário.

No pós-moderno, não sabemos quem é o preceptor, e ficamos na nóia de que estamos sendo manipulados por ‘alguém’ exterior a nós, como em uma narrativa feita na terceira pessoa, onde os personagens têm seu interior desvendado por um narrador externo a eles.

E agora ao grafite. Há aspectos que lembram a Idade Média, mas de forma perversa, revirando pelo avesso o que lá funcionava tão bem. Bem do ponto de visto do poder, claro.

Sem intermediação, com referências diretas a aspectos temporais e geográficos, com a necessária ambigüidade e indeterminação para uma recepção rica, o grafite repete a função autoral medieva, com suas implementações constantes a uma criação primeira e não-autoral.

Também repete a organização de uma praxis cultural grupal, de produção e reprodução, embora não de recepção. Não totalmente, porque se a recepção não é mediada, ela por outro lado lembra a recepção da Idade Média, na sua formação grupal de subjetividades. Quem vê e se identifica, passa a fazer parte de um grupo virtual, se inscreve no que poderia ser chamado de tradição, fossem outras as condições sociais de seu aparecimento, pouco afeitas a valorizações desse tipo.

E talvez um de seus grandes impactos seja mesmo apontar para quais condições, ou falta delas, de um historicismo, de um conhecimento histórico em suas tintas que se sobrepõem.

Começa a mudar. Na foto, o início de um trabalho do artista espanhol San, trazido ao Brasil pelo Instituto Cervantes. Ele prepara uma parede na Rua do Lavradio, pondo uma base, cuidadoso, antes da aplicação das tintas. É um preparo, não mais um grito.

San - fotografia de David Lehmann

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0006, em 16/3/2007

 

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.