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Duo Peranzzetta e Senise na Eva Klabin

Reabrindo a temporada do já tradicional 5as com Música, a Fundação Eva Klabin trouxe ao palco de seu aconchegante e diferente auditório em forma de capela o Duo Gilson Peranzzetta e Mauro Senise. Itinerário imperdível aos interessados em música de arte no circuito cultural carioca, o 5as com Música é tiro certo para aqueles à procura de lugares e momentos que realmente valham a pena no ritmo prestíssimo dos dias de semana em grandes cidades, como o Rio de Janeiro.

A proposta não é simples, tampouco complicada. Aos mais iniciados no mundo da música, enunciá-la é o suficiente para dar o tom de sua polêmica, embora o termo polêmica exprima pouco o embrolho que se apresenta: reler obras clássicas, consagradas no repertório erudito, com novos arranjos, nova instrumentação, transposições, etc. É o tipo de projeto que pode dar em qualquer coisa. Do luxo ao lixo. Isso sem falar da recusa que sucitam nos espaços mais eruditos. Não fruto de conservadorismo pois uma releitura, mesmo ousada, paradoxalmente, pode ser conservadora. O que se pretende com as obras, a meu ver, legitimamente, é descobrir aquilo que pulsa em seu interior, que dá brecha e margens à criatividade, ao descobrimento, ao relapidamento. Extrair sonoridades contemporâneas, aspectos frescos de uma obra tricentenária, por exemplo, pode ser muito mais potente à sua conservação histórica e cultural do que interpretações clássicas, tradicionais, pouco inspiradas. Essa parece ser a principal característica do duo, sem preocupações de implementar melhorias nas obras ou de promover a exaltação do que quer que sejam suas essências primordiais. Criar a partir de um dado nada bruto é, sem dúvida, um grande desafio. Nesse sentido, a recusa ao novo não é fruto de conservadorismo conceitual, é da ordem da estreiteza de horizonte cultural e musical, do preconceito, fundamentalmente, e do fechamento interior àquilo que há de primordial na história da arte musical, seu mobilismo formal e estilístico centrado na cultura.

E cá estamos falando de um arranjador que é, de fato, um nome em seu tempo. O simpático, gracioso e oralmente sucinto ao palco, Gilson Peranzzeta é um artista cujo currículo me força a escrever aquele chavão que não posso evitar: fala por si só. Pianista, arranjador, maestro, músico completo enfim, possui uma verdadeira folha corrida, em bom sentido, e em tamanho, de vigência internacional. Seu parceiro ao palco, Mauro Senise, flautista, saxofonista e clarinetista, possui a verve do que há de melhor nos sopros (alegórica e literalmente falando) da MPB.

Duo Peranzzetta e Senise

Apresentaram-se abrindo o espetáculo com a conhecidíssima Sonata K 545 de Mozart, em Dó maior. Ao ouvir os primeiros arpejos e as primeiras notas, tomando consciência, subitamente, de que obra se tratava, o espectador logo se deu conta de que estava diante de uma apresentação que jamais poderia ser acusada de algo como pouco corajosa. A flauta, instrumento melódico por natureza e harmônico por vocação, fez logo saltar aos ouvidos a melodia mozariana: uma escala diatônica óbvia que sublima-se em deliciosa e instigante melodia. O segundo movimento, muito melódico, cantabile, romântico, ora gracioso ora misterioso, foi o que todos mereciam ouvir, um presente. O prelúdio n. 4 de Chopin, em Si menor, pregou uma peça em todos, ao introduzir-se com algo que nem de longe lembra a insistente melodia que marca esta peça. As melodias ao piano intercalando-se sutilmente com a flauta foi delicioso. A sobreposição do prelúdio com Insensatez, de Tom Jobim, declaradamente inspirada nesta peça de Chopin, em dado momento, foi imperdível, afinal quem nunca se lembrou de Tom Jobim ao olhar atenta e abertamente os acordes daquele prelúdio? O prelúdio XX do Cravo Bem Temperado, esse de Bach, foi irretocável, a ressaltar a concentração de Mauro Senise, impecável no que, aos ouvidos de um leigo nas flautas, parece ter sido seu maior desafio. O prelúdio das Bachianas Brasileiras n. 4, de Villa-Lobos, foi muito inspirado, com improvisos competentes das duas partes, piano e flauta, mas infelizmente perdeu sua caracterísitca Bachiana, isto é, relativo a Bach, quando ignorou, ou pelo menos deu pouca importância, ao mesclado de vozes, silenciando prematuramente ou não enfatizando corretamente algumas notas mais longas, cuja função é ligar vozes, trazer à luz o bailado de temas em estilo fortemente inspirado em Bach. Não fossem dois imensos instrumentistas no palco, a roubar a própria cena, eu diria que a tônica do espetáculo foram os arranjos, desafio que está no cerne e na alma de proposta nada trivial.

Coloquei, em minha introdução, que o encontro destinava-se, principalmente, a pessoas interessadas em boa música. Erudita, popular, clássica? Não interessou precisar claramente tais fronteiras. A ver um clarinetista improvisar num prelúdio de Chopin, um pianista improvisar numa peça de Villa-Lobos, vemos que o duo se não é simples, também não é complicado, um trabalho digno do conceito de pensamento complexo do sociólogo e pensador francês Edgar Morrin: “É o pensamento apto a reunir, contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo reconhecer o singular, o individual, o concreto.”

 

 

 


Fillipe Trizotto

 

editoria: edicao_0006, música, em 19/3/2007

 

 

 

 

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