A gravura e a arte de imprimir o encanto
Se o Centro Cultural Banco do Brasil cometeu algum pecado mortal no último ano, com certeza a exposição Impressões originais: a gravura desde o século XV e a atenção que a instituição vem dando a esta técnica são motivos de sobra redimí-lo. Ter contato direto com trabalhos dos grandes mestres desde o século XV é algo inesquecível para qualquer admirador do gênero, mas é especialmente emocionante para um gravurista, que conhece e entende na prática o quão valioso é cada pequeno ponto visto com as preciosas lupinhas fornecidas aos visitantes.
Percorrer 500 anos de produção em uma exposição é mais que um presente para nós gravuristas, é uma dádiva. Quem não tem a opção de viajar pelo mundo para ficar cara a cara com um autêntico Goya, Picasso ou Rembrandt, com certeza vai se sentir em êxatse. E por falar em Rembrandt, não é a primeira vez que somos agraciados com suas gravuras. O próprio CCBB – abençoado seja – há alguns anos nos trouxe uma série de gravuras originais, que deixou até os mais distraídos espectadores um tanto quanto embasbacados. Mesmo a gravura sendo desconhecida, misteriosa ou até, em alguns casos, considerada ultrapassada, é difícil não ver alguém impressionado com a qualidade do material exposto nesta exposição.
Embora trágico, não deixa de ter um pouco de graça a total desinformação e o misticismo que a gravura (e até a própria exposição) carrega em seu próprio nome. Desde que entrei para a faculdade, já estive diante de diversas teorias sobre o que poderia ser a bendita: desde “colagem” (trazido por aqueles obscuros trabalhos de ciências do primário, onde a “tia” pedia para recortar e colar três gravuras de jornais ou revista de um tema proposto) até a hilária história de uma pessoa que entrou para o curso pensando que era para gravar discos de vinil. Menos divertido que a desinformação sobre “o que é”, é o “para que serve”. Este sim é um campo mais que fértil para associações nefastas, como: “não é mais fácil tirar uma xerox?”, “sabia que existe scanner?” ou então o meu favorito: “não é mais fácil fazer a nanquim?”.
Não é necessário ir muito longe para perceber o quão misteriosa a técnica pode parecer. Na própria exposição — à qual eu fui acompanhado de mais três amigos que, assim como eu, são formados em gravura pela EBA/UFRJ — eu conseguia perceber olhares curiosos e incrédulos para nós, que tínhamos alguma informação sobre o assunto. Sim, porque gravura, além de tudo, parece ser coisa de velho. Frases como “mostrar o buril”, “segurar firme no borriquete” ou “dar uma mordida profunda” proferidas por três jovens de vinte e poucos anos têm um cunho sexual muito maior do que esperávamos.
Me ocorre que na época em que eu fiz pré-vestibular havia a tradicional chacota com o curso de menor procura. Durante um bom tempo, a cadeira de oboé foi a grande vítima dos gracejos dos vestibulandos: “se eu não conseguir passar para medicina, tentarei oboé” ou então “eu passarei, nem que seja para oboé” eram piadas corriqueiras entre nós. No ano passado, conheci duas meninas, sete anos mais novas e ainda vestibulandas, que se assustaram ao saber da minha formação de gravurista. Não entendendo muito bem o porquê de tanto espanto, fui esclarecido que o posto que outrora era do oboé tinha sido tomado pelo curso de gravura. Surpresa para elas foi saber que existia alguém realmente formado em tal curso. Eu imagino o estranhamento dessas meninas, hoje grandes amigas, quando me ponho a pensar como seria se alguém me dissesse que era formado em oboé quando eu estava no pré-vestibular. Pois uma das melhores surpresas que tive foi encontrar justamente com uma dessas amigas bem no meio dessa exposição, cujo tema era algo que há algum tempo parecia obscuro demais.
Se de tudo esta mostra é um sonho para todos os gravuristas ou admiradores da técnica, vale ressaltar existe uma deficiência (ou seria inexistência?) de um foco informativo para o público leigo. Creio que uma exposição desta amplitude e com esta temática demanda de uma didática muito bem elaborada para que o público não saia dali achando que são apenas desenhos ou, no máximo, desenhos reproduzidos. Não é difícil confundir uma xilogravura a buril com uma gravura em metal ou uma serigrafia com uma litografia. Desmitificar, mostrar, ensinar e popularizar a gravura deve ser função não só dos espaços culturais, mas dos próprios artistas. Não se limitar à sua torre de marfim e se empenhar um pouco mais em fazer o espectador entender seu trabalho, sua linguagem, o porquê e como de cada técnica é obrigação de todo aquele que tem amor pelo que faz.
Confesso que, voltando um pouco, teve um sabor especial encontrar esta amiga justamente nesta exposição. O tom jocoso de algum tempo atrás tornou-se, no mínimo, curiosidade. A gravura tem por si esse poder de encantar, de prender quem a conhece. Não é uma obra aberta, que deve ser vista a distância. Temos que nos debruçar sobre ela, para que através do micro consigamos entender o macro e, para este fascínio se tornar real, basta o simples ato de conhecer. São essas pequenas coisas que a gravura precisa para, enfim, assumir um papel mais digno na arte contemporânea.
Impressões originais: a gravura desde o século XV
Em cartaz até 29 de abril de 2007
Terça a domingo, 10 às 21h
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março 66
Centro - Rio de Janeiro
Rafael Frota


















