O filme catástrofe
Alguém se lembra de Waterworld? Kevin Costner certamente.
Mesmo considerado um fracasso, Waterworld serve para fundamentar a teoria de que a ficção tem função documental tão importante quanto o formato tradicional do documentário, dando uma amostra do pensamento nascente em meados dos anos 90. Protagonizado e dirigido por Costner, o filme se passa no futuro, em um mundo debaixo de água. Sem espaço para plantar ou criar animais, água potável e comida viraram raridades. É quase uma ironia viver cercado de água e não ter o que beber (deveria ser se o filme tivesse mais humor). As colônias humanas existentes parecem ter escolhido novos tipos de loucura, desenvolvendo religiões ecológicas que vêem o corpo como material reciclável para nutrir as poucas plantas remanescentes. Em determinada cena do filme surge como artigo de luxo um pé de tomate. O tomate é um símbolo da história da culinária, um fruto vermelho para colorir pratos e que tinha como maior atrativo não matar quem o comesse. Outro artigo que vale ouro é a terra, talvez pelo simbolismo da ausência e pela esperança de que haja em algum lugar um pedaço de chão firme distante da insanidade oceânica. Além das pessoas em colônias, o filme mostra nômades que viajam de um lado para outro fazendo comércio e assaltando barcos abandonados. A maior parte deles também passa sede e fome e demonstra loucuras variadas, exposição contínua ao sol. Há também os mutantes, uma variedade do Homo sapiens que nasceu com membranas nos dedos dos pés e guelras atrás das orelhas (um dos detalhes mais criticados do filme, por questões estéticas). Os únicos felizes nessa versão caótica do futuro são os smokers, um grupo de saqueadores comandado por Dennis Hopper. Os smokers são industriais (por isso a fumaça), dominam a fundição de metais, constroem armas de fogo, barcos, jetskis e aviões, são totalmente dependentes do petróleo e, apesar de se chamarem de primos, possuem hierarquia de subserviência e trabalham intensamente por uns poucos trocados. Para compensar tantas vantagens e justificar o comportamento violento, o intelecto foi reduzido.
Os smokers são burros.
É um mapa ficcional simplista, uma metáfora do mundo moderno que se consolidou no contemporâneo. Curioso pensar que ele antecipe grandes problemas que enfrentamos hoje em dia, por exemplo, a guerra do petróleo e da religião.
Na segunda parte de Waterworld, um dos personagens fala que o planeta ficou assim devido a erros de seus ancestrais, algo que eles – eles que somos nós – fizeram. Em 1995, já havia um pensamento ecológico latente e preocupações ambientais, mas nada semelhante ao medo que temos do aquecimento global. É certo que para o mundo estar debaixo de água as geleiras derreteram. Hoje vemos na televisão imagens de montanhas que não possuem mais neve, notícias sobre a elevação do nível dos mares e o comprometimento da água doce do planeta. Na época, o distanciamento da realidade gerado pela falta de dados abria mais espaço para a invenção. Um filme catástrofe recente talvez dissesse que os oceanos não sobreviverão, já que o aumento de gás carbônico que eleva a temperatura do planeta acidifica as águas e mata corais e plânctons, destruindo a cadeia alimentar marinha em sua base, inviabilizando mágicas evolutivas que criam um Kevin Costner mutante.
O filme catástrofe sempre possuirá força comercial, vide o desempenho de O dia depois de amanhã. Com US$125 milhões de orçamento conquistou US$543 milhões de bilheteria. Seu mérito foi explorar tufões, terremotos e ondas gigantes de uma só vez, associando o equilíbrio político do planeta às condições climáticas, e deixando uma ponta de esperança no ar.
Apesar de todas as críticas negativas, Waterworld se pagou no fim das contas, graças ao mercado mundial. Até então era comum esperar que um filme tivesse lucro ainda na fase de exibição nos Estados Unidos. Com o custo de US$175 milhões – o mais alto da época – arrecadou US$264 milhões, mas manteve o estigma do fracasso.
Provavelmente Waterworld será lembrado como uma cópia ambiciosa, desnecessária e malfeita de Mad Max, e Kevin Costner jamais recuperará seu status e seu cachê. Ainda assim, é interessante analisar os elementos da ficção que possuem caráter documental e pensar como depois de uma década o roteiro se tornou atual.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















