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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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21/3/2007

Renata Cazzani

Vi a exposição de Renata Cazzani no Centro Cultural Cândido Mendes (RJ) no mesmo dia em que assisti a uma palestra de Ted Nelson, onde ele apresentava sua visão de computação e de rede, em uma outra lógica, não seqüencial ou hierárquica.

Na minha cadeira, eu escutava ele falar dos quadros dela.

Renata Cazzani Não que Cazzani não seja seqüencial e hierárquica. Seus enormes quadros são exercícios coloridos de lógica. Mas só se você os vir de frente e de longe.

De perto e de lado, seu construtivismo desmorona frente a um duplo ataque. Porque as laterais dos quadros estão pintadas, tudo aquilo vira uma representação tridimensional de vãos (as massas maiores, de cores escuras) por onde se chega através de degraus de cores mais claras (os campos retangulares, paralelos às margens do quadro). E, segundo ataque: porque todas essas cores têm falhas, a superfície do quadro mais uma vez ganha da ilusão de profundidade e voltamos a estar diante de telas pintadas. Mas não mais construtivistas, ou pelos menos de um construtivismo à la brasileira, falhado, que ri do rigor, com os caminhos do pincel claramente visíveis.

Renata Cazzani Tendo assim demonstrado as aporias que aguardam um pensamento causal e linear, Cazzani se depara, contudo, com perigo similar: o da retórica interna, fechada. Ao não adotar uma única linha conceitual mas, pelo contrário, apontar os limites que haveria em algumas delas, Cazzani ao mesmo tempo que ataca o pensamento hierárquico, lógico, se fecha em seus vãos ocres ou vermelhos – que podem não ser vãos de todo, mas rasos nordestinos.

Como se trata de artista que historicamente não hesita em experimentar, tal perigo parece afastado e o que fica é sua declaração, bastante interessante, de que hoje não há possibilidade de constituição unitária de significado.

Tal impossibilidade levaria, paulatina e inexoravelmente, degrau de cor por degrau de cor, até um nada – os campos maiores de cor. Mas como mesmo esse nada tem sua fatura aparente, voltamos ao começo mais uma vez.

Renata Cazzani Os quadros têm cerca de dois metros por metro e meio, a maioria na dimensão vertical. E aqui cabe também um comentário a respeito da horizontalidade, mais afeita a uma leitura reflexiva, “paisagística”, de uma narrativa imagética seqüêncial. E as dimensões verticais do retrato, individualidade sobre a qual, justamente, Cazzani lança sua dúvida.


Centro Cultural Candido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema – RJ
(21) 2267-7295

Renata Cazzani

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.