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Considerações sobre a utilidade da arte

“A arte diz o indizível;
exprime o inexprimível;
traduz o intraduzível.”
(Leonardo Da Vinci)

Ao nos agarrarmos a um lápis, um pincel, um formão ou a um buril, sentimos que algo inexplicável acontece. O impulso criador nos chama para a comunhão da tríade “criador-ferramenta-criatura”, fazendo com que esses materiais se tornem prolongamentos de nossas mãos, a fim de uma única função: criar coisas belas (1).

Sabemos que é este impulso que nos faz ficar debruçados sobre um trabalho durante horas, dias, semanas ou até mesmo anos, fazendo com que atinjamos o limite de nossas forças e de nossos sentidos. Este sentimento, infelizmente, não comunga com uma explicação lógica, de bate-pronto, que nos faça entender o porquê de comprometermos nossa própria sobrevivência em troca de algo que não é, propriamente, uma necessidade vital. Sendo assim, nos questionamos a respeito da real utilidade da arte e sobre sua importância, meditando sobre o quanto ela é realmente valiosa e indispensável para a humanidade.

Por não possuir uma relação fisiológica com o ser humano, a arte passa a figurar – erroneamente – no circuito dos fatores culturais. Embora de fácil aceitação, não podemos dar crédito a esta afirmativa, pois ela transcende qualquer tipo de formação cultural, a ponto de nunca ter havido, desde o início das organizações sociais, uma única sequer em que não se explorasse as possibilidades do fazer artístico, independente de sua finalidade. É certo que as primeiras formas de arte tinham um vínculo muito mais estreito com a religião (2) do que com o deleite estético, como hoje conhecemos. Na verdade, arte e religião praticamente nasceram juntas e possuem – até hoje – um elo quase indissolúvel.

Se explorarmos este tema, chegamos a associações inevitáveis. A arte, em seu início, era utilizada como forma de domínio da natureza. Ao desenhar toscamente um bisão com um punhado de terra colorida, nossos ancestrais supunham estar adquirindo um controle sobre a sua caça. Durante o decorrer dos séculos, esta idéia não foi totalmente perdida, sendo, de certa forma, berço de todo o fazer artístico.

Podemos dizer que a busca pela arte está associada à busca pelo êxtase e pela intenção de se manipular a natureza, a fim de manter-nos eternos através dos tempos. Encontramos, sem muitas dificuldades, indícios desta idéia na Poética, de Aristóteles. Os conceitos de mímesis e katharsis (3) reiteram, respectivamente, a intenção de aprisionar a natureza, e a partir dela obter a purgação das emoções provocadas. (4) Não é de se espantar a relação que existe entre os étimos gregos AISTHESIS, que significa “sensibilidade” e EKSTASIS, que significa êxtase.

Pode parecer incoerente afirmar que a arte ainda possui um vínculo religioso, mesmo diante das transformações culturais que a humanidade sofreu, inclusive no pós-guerra. Porém, em nenhuma dessas transformações a arte perde seu caráter espiritual, onde o artista, através da interferência na natureza, busca sua própria forma de êxtase, levando à imortalidade.

O filósofo Herbert Read, em relação à produção artística atual, afirma: “mesmo quando grandes artistas criaram obras-primas, aparentemente afastados de qualquer fé religiosa, quanto mais de perto lhes examinamos a vida, mais nos parece descobrir a presença daquilo que se poderá denominar sensibilidade religiosa.” (5) É através da arte que o homem dá vazão a seu caráter de sobrevivência e tenta estar presente na natureza durante a eternidade. Os homens passam, mas a sua arte fica.

A arte é inútil sim, como já disse Oscar Wilde,(6) porém, devemos entender esta sentença como a ausência de sua função prática. A razão dela existir não pertence somente à esfera racional, que irremediavelmente se associa a algum motivo doutrinário, didático ou social. Existe uma razão, porém, não há uma finalidade prática. Por isso, ela está muito mais ligada a necessidades espirituais que a razões fisiológicas (7).

É  por isso que sempre devemos respeitar qualquer tipo obra de arte, pois, com certeza, ela é o símbolo da transmutação do ser humano, que o eleva à imortalidade da natureza. Neste ponto, a arte não imita a vida; ela a transcende.

(1) Considero a designação adotada por Ganzarolli, onde “nas coisas belas, nada se acrescenta, nada se suprime” (Oliveira, João Vicente Ganzarolli de. Do essencial invisível/arte e beleza entre os cegos, REVAN:FAPERJ, 2002, p. 26)
(2) Aqui, religião representa, de acordo com o novo dicionário Aurélio, ed. 1973, “reverência às coisas sagradas”, não necessariamente às organizações religiosas tradicionais.
(3) Imitação e purificação, respectivamente.
(4) “É pois a tragédia imitação de um caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamento distribuídas pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação destas emoções”
(Aristóteles, Poética, tradução, prefácio, introdução comentário e apêndices de Eudoro de Souza, Porto Alegre, Editora Globo, 1966, p. 74-75)
(5) Silveira, Antônio José da. Deus, homem, mundo e arte – a experiência religiosa na arte sacra. Revista Magis/Cadernos de Fé e cultura – Centro Loyola de Fé e cultura/PUC-RIO. (6) Prefácio do Livro “O Retrato de Dorian Gray”
(7) A arte está mais ligada a uma necessidade metafísica, como a religião, do que com a fisiologia humana, como a fome. Não comer resulta na extinção do ser humano, porém, a abdicação do fazer artístico não gera nenhum transtorno físico. Isso leva a crer –equivocadamente- que a arte é perfeitamente dispensável ao ser humano.

 

 

 


Rafael Frota

 

editoria: edicao_0006, filosofia, em 22/3/2007

 

 

 

 

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