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Hollywoodland

Se você não lembrar de nenhum filme de Allen Coulter, não estranhe. Até 2006, seu foco eram as grandes séries de televisão. Ele se firmou como um dos nomes por trás de Sex and the city (8 episódios) e Família Soprano (produtor e diretor), além de deixar sua marca em episódios pontuais de Roma, Arquivo-X e Millenium. Para azar do espectador, o entrosamento com a dinâmica televisiva que fez a fama de Allen Coulter contaminou Hollywoodland de tal forma, que foi impossível contornar os equívocos do roteirista Paul Bernbaum, também fruto da tevê.

HollywoodlandA proposta do filme é criar um thriller ficcional em cima de um fato verdadeiro – a morte de George Reeves, o superman do seriado de TV dos anos 60. Reeves (Ben Affleck) estava tocando violão em casa com a namorada Leonore Lemmon e um par de amigos. Um desentendimento com Leonore o fez subir mais cedo para o quarto e instantes depois veio o tiro. A polícia sentenciou rapidamente um suicídio, as manchetes renderam por um tempo, morte trágica, prisioneiro da fama, coisa e tal, e logo Reeves se tornou página virada. Parecia mais um caso de depressão em Hollywood, até o detetive Simo (Adrien Brody) retomar o caso e jogar na mídia a idéia de um possível assassinato. Tudo isso, claro, bancado pelo dinheiro da mãe de Reeves, a velhinha inconformada.

HollywoodlandA partir daí, Coulter divide o filme em duas narrativas. A primeira acompanha Simo nas investigações, o modo como lida com informantes e jornalistas, a vida com a ex-mulher e momentos com a atual namorada. A segunda e mais interessante mostra a vida de Reeves em flashback, misturando fatos reais com as suposições de Simo sobre o dia do assassinato. Com um toque sutil de humor, vemos Reeves em um restaurante que não pode bancar tentando aparecer de papagaio de pirata nas fotos de famosos. É assim que conhece Tonni Mannix, mulher mais velha de quem vira amante. Como nada é por acaso, Tonni (Diane Lane) é esposa do poderoso produtor Eddie Mannix (Bob Hoskins) e isso abre portas para o aspirante a ator. Por tratar de um personagem real, o filme não deixa claro quanto Reeves conquistou por mérito em estúdio e quanto conseguiu por mérito na cama, o que importa é o forte vínculo que tinha com a amante e a dor que ela sentiu ao ser trocada por uma mulher mais nova (Leonore).

HollywoodlandO filme dialoga bem com o noir e acerta ao não se apropriar demais de clichês. Por não ter mocinhos e bandidos, Hollywoodland trabalha bem a dimensão humana e permite a evolução da história não em cima de viradas de trama mirabolantes, mas de uma análise mais profunda dos sentimentos envolvidos. As ambições e fraquezas de Reeves não o tornam uma vítima desesperada, Eddie não assume o papel de marido traído com sede de vingança e Tonni não saca o picador de gelo nem cruza as penas no consultório do psicanalista. Como é um filme sobre símbolos (superman), Coulter flerta bastante com códigos visuais. A presença de um homem já velho malhando enquanto pega sol, a capa do superman no armário e na churrasqueira são alguns exemplos.

HollywoodlandCuriosamente, o maior erro do filme está no personagem mais clássico do noir, o detetive. O drama familiar ocupa espaço demais na trama sem ter nenhuma função além de compor Simo mais amplamente. Para amarrar melhor essa parte, o roteiro usa o filho de Simo para explicar como as criancinhas ficaram deprimidas quando o super-herói símbolo da justiça e da verdade se matou, e também para fechar a trama depois de muita investigação.

Certo na forma de explorar o relacionamento entre os personagens, errado na estruturação entediante da narrativa, Hollywoodland conseguiu destaque pelas boas atuações de Ben Affleck e Diane Lane (Sob o sol de Toscana). Pela primeira vez Affleck foi visto pelos críticos como alguém capaz de… atuar. Pode parecer óbvio, mas vale lembrar que o filme é uma ficção, e a vida de Reeves foi mais longa e complexa do que Hollywoodland demonstra.

 

 

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

 

editoria: cine-vídeo, edicao_0006, em 22/3/2007

 

 

 

 

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