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2º FILE-RJ

É o segundo FILE-RJ e podia ser o terceiro ou o sexto e o resultado seria igual. Você entraria lá (no Oi Futuro) com cuidado. É o medo de coisa nova. E no entanto.

Relaxe, você está no século XIX. Está bem, no final do século XIX. Gostas de um Monet?

Pois então.

A arte tecnológica, assim chamada por falta de um marqueteiro que lhe arranje - como aos impressionistas - um nome melhor, faz o que Monet fez, com todo o respeito.

Na época, era a busca pelo muito pequeno e pelo que estava dentro. Átomo, inconsciente. Verdades minúsculas e anteriores. Era preciso desvendar coisas, ultrapassar uma exterioridade para que se chegasse a um “lá”. As novidades tecnológicas que tomavam as ruas eram a câmera fotográfica e um novo impulso nas artes gráficas, de impressão, com papéis industriais e mais controle de cores.

Hoje o que nos toma é como essas mesmas coisas muito pequenas interagem. São redes. Movimentos quânticos. Ou sua (sua-tua, a de você) participação no planeta. A noção muito clara de que somos feitos da mesma matéria das estrelas, poeira das estrelas.

Uma coisa é engraçada de notar. Os impressionistas, que tiveram a coragem de pegar o que havia de mais novo e usar isso na maneira como representavam o mundo, representaram o mundo de um ponto de vista burguês. A maneira como pintavam era escandalosa e agressivamente nova. E o que pintavam eram dondocas passeando no parque, ou como a catedral ficava ao pôr-do-sol.

Na FILE deste ano, há mulheres brincando lânguidas com espelhos d’água. Há a modelo Claudia Schiffer. Ok. A mulher da água é virtual e o rosto da Claudia Schiffer tem um morphing. Mas fica a impressão de que para que algo novo se torne palatável é preciso usá-lo em algo muito velho.
palestra de Ted Nelson de 20/03, no Planetário da Gávea

(Na palestra de Ted Nelson de 20/03, no Planetário da Gávea, ele disse que não conseguiria pensar em nada mais estúpido do que usar computador como se fosse um papel. Sim. Mas graças a esse uso estúpido é que as maquininhas se tornaram realmente populares.)

2º FILE-RJ - O Avator

Em O Avator, Ricardo Barreto, Maria Hsu e Marcos Paulo Moreti apresentam, ahn, Nietzsche (eu não disse que você estava no século XIX?). O interesse é que Nietzsche é mediado por um avatar. Você tecla um tema (eu teclei “o outro”) e escuta um Nietzsche feminino e robotizado, mediado portanto pela cultura de massa que ele tanto detestava, falar a respeito.

2º FILE-RJ 2º FILE-RJ

A instalação da Claudia Schiffer feita por Tim Coe, A perfect face, ataca a perfeição tecnológica. Linda, a moça. Mas não tão linda quando minúsculas modificações que você não percebe que estão acontecendo vão transformando seu rosto. Creep, hein? Parece o clima do planeta. Você também quase não nota até que nota.

2º FILE-RJ - Livr(e/o) de Christus Nóbrega

Se o avatar de Nietzsche e a Claudia Schiffer de Coe são instigações críticas à tecnologia, o Livr(e/o) de Christus Nóbrega, um livro livre ou livre-se do livro, é um convite para dar o passo de saída da tecnologia antiga em direção à nova. Você manuseia um livro velho (esotérico, por sinal), e na tela em frente aparecem desenhos, movimentos que não estão nas páginas impressas mas que saem delas.

2º FILE-RJ - Drum in Braz

Essas são algumas das obras presentes. Há obras que não estão propriamente presentes, estão registradas. Os documentários da série Hipersônicas trazem para o centro cultural coisas das ruas. Um deles, o Drum in Braz, de Marcelo Machado e Bobby Nogueira, dá um som para o que você está vendo ali, com as outras obras, dentro do ambiente de ar condicionado. Drum traz a interação, a rede, a ligação. Nele, o som de instrumentos e o som das ruas, juntos.

2º FILE-RJ - Hikenai Guitar wo Hikendaze

Entre os vídeos premiados do Media Art Festival do Japão está um que fala o que estou falando aqui. O Hikenai Guitar wo Hikendaze, de Dendi Groove e Pierre Taki, pega cenas de quadros antigos misturados a perfomances atuais para servir de cenário a um tocador de guitarra. Diz: veja, é a mesma coisa, só que diferente.

E tem mais, mas não deu para ver/fazer tudo. Tem passeio de bicicleta, táxi e ônibus para pegar sons, imagens e juntá-las, você, os artistas, a tecnologia. Pode até ser que alguma catedral ao pôr-do-sol entre nessa.

 

 

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

 

editoria: contemporânea, edicao_0006, em 23/3/2007

 

 

 

 

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