maguarras16.jpg

maguarras15.jpg

maguarras14.jpg

maguarras13.jpg

maguarras12.jpg

maguarras11.jpg

maguarras10.jpg

maguarras09.jpg

maguarras08.jpg

maguarras07.jpg

maguarras06.jpg

maguarras05.jpg

maguarras04.jpg

maguarras03.jpg

maguarras02.jpg

maguarras01.jpg

 

Nós vamos e Granada fica

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito, em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural, é uma homenagem ao poeta e dramaturgo espanhol que dá título ao espetáculo. Não exatamente retratando sua vida e obra, mas tentando captar seu pensamento, seu espírito – suas memórias e sonhos, a ligação íntima com sua gente, o seu amor às palavras, a admiração pela cultura popular, particularmente, a música, e, antes de tudo, a relação visceral com Granada, sua terra natal. Federico García Lorca, autor de Romanceiro Gitano, livro de poemas, e de peças como Bodas de Sangue; Yerma; Dona Rosita, a Solteira; A Casa de Bernarda Alba; fundador do grupo La Barraca, nasceu em 1898 e morreu precocemente em 1936, assassinado pela ditadura franquista durante a Guerra Civil Espanhola, o que torna ainda mais contundente sua contribuição humana e artística.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito - fotografia de Leonardo Aversa O roteiro (sobre textos de Lorca: uma conferência de 1933, fragmentos de entrevistas, poemas e canções) de José Mauro Brant e Antonio Gilberto, respectivamente intérprete e diretor do espetáculo, apresenta um Lorca sempre atento para o que o rodeia, seja a natureza, sejam os homens. Muito bem traduzido por Roseana Murray, o texto valoriza a sonoridade e o poder da linguagem, linha-mestra da obra do poeta espanhol. Revela também, em primeira mão, alguns traços muito particulares de Lorca: o contato com aquilo que o emociona – a pobreza de seu povo, a admiração pela bravura com que sua gente enfrenta a miséria, o respeito pela arte popular, suas considerações sobre a morte, reflexões sobre o teatro e a poesia. Lorca exigia do teatro uma grande força vital e uma conexão com o povo. Alertava os atores a serem como alguns professores, mantendo sempre uma atitude digna e severa com seu ofício, a pensarem não apenas no “hoje da bilheteria”, mas no amanhã, no amanhã, no amanhã.

O espetáculo é um monólogo, onde o único ator interpreta, canta e toca piano. José Mauro tem domínio das palavras, sabe o que está fazendo e falando. Nada se perde do que é dito e as imagens sugeridas pelo texto se tornam concretas na interpretação de Brant. Talvez o grande amor do ator pelo texto, seu grande apreço ao autor, às vezes lhe dêem um tom cerimonioso com as palavras, respeitoso demais, e falte uma maior embriaguez do intérprete, uma emoção à flor da pele. Em vários momentos, essa febre parece estar presente no ator, mas nem sempre atinge o público. José Mauro transmite maior carga dramática quando canta e toca piano. Ali transparece com mais clareza o combate interior de uma alma emocionada que tem que se expressar artisticamente e, portanto, deve aprender a administrar seu excesso trágico. Como o próprio Lorca revela, o poeta não sabe o que é poesia e a palavra deve se tornar carne viva. E viver é deixar de lutar contra os instintos. A direção musical de Sacha Amback é delicada, e as canções populares dão um toque muito especial ao espetáculo, facilitando o entendimento da alma do poeta e recuperando o ambiente de Granada.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito - fotografia de Leonardo AversaA cenografia e o figurino, assinados por Ronald Teixeira, trazem à cena o essencial: um tapete de folhas, um tronco, um piano coberto por um pano bordado com desenho de Lorca. Destoa, no entanto, a presença de uma pequena árvore no canto da cena. Parece estranho um elemento real dentro de um ambiente que apenas sugere, nunca demonstra. Os olivais, já sugeridos pela iluminação, não precisavam de um exemplo tão real como o vaso de planta. O ator veste um terno claro, inspirado em fotografias do próprio Lorca.

A direção opta por um tom delicado, sensível e sem estardalhaços. O grande mérito do roteiro e direção é devolver o valor à linguagem, fundamental para as platéias de hoje que muitas vezes estão atentas apenas ao que vêem e nem sempre ao que ouvem. O prólogo da peça já traz um convite para se preparar os ouvidos e espantar o tédio. Mesmo assim, ainda há uma dificuldade inicial de interação do público com o que está sendo dito no palco, mas o domínio do intérprete, o auxílio luxuoso da música e a intervenção expressiva da iluminação de Paulo César Medeiros contribuem para que o contato se realize. A luz é companheira de José Mauro em cena, com focos recortados que às vezes sugerem trilhas, projeções que lembram os olivais, pequenas lâmpadas representando as estrelas, o azul que traz a noite, as lamparinas que evocam a simplicidade, e um belo efeito que dá uma sombra quádrupla de José Mauro, quando Lorca está se aproximando da “morte”, como se realmente esse homem fosse um pequeno poema infinito. O outono da morte roubou o frescor da sua face, mas não assassinou o grande homem que ele foi. Como o próprio poeta revela, vivemos nesse mundo emprestados. Nós vamos e Granada fica.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito está em cartaz no
Teatro de Arena da Caixa Cultural Rio de Janeiro,
de quarta a domingo às 19h:30. Ingresso: R$ 10,00.
Vale a pena conferir esse novo espaço teatral.

 

 

 


Marcelo Mello é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.

 

editoria: edicao_0006, teatro, em 24/3/2007

 

 

 

 

MinC

 

 

RSS

design © Vigna-Marú

Este site utiliza o AdSense do Google. Clique aqui para saber mais sobre a sua política de privacidade.