Fabio Cardoso
Há duas maneiras de se falar da diferença: na primeira pessoa, quando você se considera como fazendo parte de um dos campos em questão, e na terceira pessoa, quando você acha que não está tomando partido e se dispõe a analisar o jogo.
A questão com as aquarelas em preto e branco de Fabio Cardoso é que ele obviamente está no lado do escuro, mas isso não o impede de analisar a luz.
A sua “primeira pessoa” faz com que as imagens tenham seu valor de verdade indiscutível a partir de uma experiência vivida. Assim, os limites dos dois campos, o claro e o escuro, têm um referente que pode ser transposto da vivência do artista para a de quem vê. Está bem, são portas, todos já vimos o terror e o fascínio de uma porta que se abre para o claro.
Já seria bom.
O caso é que Cardoso não discute a experiência mas a construção da linguagem. As evidências da experiência, então, passam a ser evidências de uma diferença, qualquer uma (sexual, espacial, psicológica), construída dialogicamente em uma linguagem.
Com uma vantagem. Um posicionamento em “terceira pessoa” contém a ilusão de que os eventos analisados não incluem o observador. Cardoso, no seu local escuro, escapa disso. O paradigma epistemológico de sujeito versus objeto tem dificuldades em se manter hoje tão incólume quanto no tempo de Freud. Sujeito e objeto se fundem em práticas culturais onde a compreensão é anterior à explicação pois há tanto do sujeito no objeto quanto vice-versa. Assim, “portas” pode ser apenas a maneira como se fala da negociação de um nanquim (agente) que invade mas é contido pelo papel (outro agente igual). Sendo que ambos podem ser vistos não mais como agentes mas como receptores que sofrem a ação limitante um do outro. Um no outro.
E mais uma vantagem, inversa e igual à anterior. Sua “primeira pessoa” não exerce o poder fenomenológico porque dá à tinta e ao papel, e aos acasos de ambos, a palavra final sobre a negociação dos dois campos, o claro e o escuro, o do sujeito e do objeto.
Além disso, Cardoso põe suas imagens em caixas de acrílico. Mais um jogo no qual ele se posiciona como espectador: o papel dança lá dentro.
Nessas aquarelas quem constrói também é construído. A experiência vivida é recuperada por um posicionamento que inclui: 1) o evento sob investigação; 2) quem faz/sofre a investigação; 3) e também quem por lá for ver as aquarelas, pois as caixas de acrílico, ao refletir o que está em volta, põem no seu interior o que - ou quem - se pensa exterior.
99 PORTAS
Fabio Cardoso
26 mar -04 mai 07
Horários de exposição
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Lurixs
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22280-010
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Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.


















