É tudo verdade
Entre 22 de março e 26 de abril, o festival É tudo verdade percorre Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Brasília e Porto Alegre, levando ao público nomes consagrados e estreantes de um universo nem tão distante da ficção. Dedicado exclusivamente a documentários, ele é considerado o maior do gênero na América Latina, contando com 141 títulos em 2007, na sua 12ª edição.
Uma ótima surpresa é o brasileiro Caroneiros (Roads to Identity), um vídeo independente de 52 minutos que chamaria muita atenção do Instituto Cervantes. O projeto foi idealizado por Martina Rupp e realizado por uma equipe dedicada que você pode conhecer no blog oficial do projeto.
No documentário, acompanhamos entrevistas com diversos caronas durante uma viagem pela América no Sul à bordo de dois fuscas, vulgo Mostarda e Azeitona. “Foram 2 meses injetando vontade, trabalho e dinheiro”, disse Martina. O resultado foi uma viagem de 18.000 quilômetros e uma coletânea de opiniões sobre a identidade latino-americana, através dos olhos de pessoas que não enxergam fronteiras como barreiras à integração.
A princípio, o atrativo é o clima de viagem. Os carros sendo abarrotados de malas, a fumaça do asfalto distorcendo a imagem, um grande mapa e um apanhado geral de sotaques comuns para quem gosta de viajar. Aos poucos, o filme ganha conteúdo e nos faz descobrir que os países da América Latina não são tão diferentes assim, tanto nas qualidades quanto nos problemas. Um dos temas abordados é a música. O que o Brasil exporta para seus hermanos? O axé e suas dancinhas, diz um dos caronas, e tem uma tal que bossa nova que não conhecem muito bem, comenta outro. E o que conhecemos da música de nossos vizinhos? Quase nada, foi sua provável resposta. A situação não é diferente com las películas. Além de ser raro que os filmes de um lugar migrem para outro, a dificuldade para realizar projetos é grande em todos os países, assim como o preconceito com a produção nacional. “Se o filme está acima da média, logo dizem que não parece um filme argentino”. Provavelmente você já escutou isso por aqui também.
A vergonha da atual programação da TV, a falta de investimentos em educação e o desapontamento com políticos também são assuntos da viagem. Em tempos de integração do Mercosul, é impactante perceber que aprendemos muito pouco ou nada nas aulas de história sobre a formação e o passado da América Latina.
“No Chile comemoramos com festa os nossos fracassos. A identidade dos povos da AL já foi violentada”.
A parte engraçada fica por conta das opiniões de brasileiros, uruguaios, argentinos, chilenos uns sobre os outros, principalmente pela implicância generalizada com os argentinos, mas também pelo reconhecimento dos preconceitos sem fundamentos que alimentamos desse lado do globo.
O charme do filme está no carisma dos caroneiros, sejam os caronas ou os motoristas que souberam deixar seus entrevistados à vontade, mas vale destacar também a qualidade técnica do som, imagens, planos e trilha sonora. Bem planejado, produzido e editado.
Super Amigos, co-produção entre México e Canadá, também segue o debate de temas sociais. O diretor Arturo Perez Torres acompanha a vida de cinco ex-lutadores de luta livre que abandonaram os ringues para defender causas mais nobres nas ruas do México, fantasiados de super-heróis. Super Barrio, Ecologista Universal, Super Gay, Super Animal e Fray Tormenta dão um panorama geral da cultura mexicana e dos problemas que o país enfrenta entre o conservadorismo e contemporaneidade.
“Reality begins when we all choose to believe”, mostra a tela. Pessoas comuns são entrevistadas na rua dando credibilidade ao trabalho do grupo. Um desenho explica a origem das máscaras dos heróis e retorna para contar como deixaram de ser lutadores e decidiram fazer trabalhos sociais. Um senhor na rua diz que são verdadeiros Quixotes. Logo de início, o diretor deixa claro de que lado está.
Ambientação feita, conhecemos Super Barrio, que luta pelos direitos de propriedade. O documentário fala que o processo de modernização dos centros urbanos mexicanos está levando ao despejo de diversas famílias. Donos de edifícios querem transformá-los em apartamentos de luxo ou centros comerciais, tentando de todo modo se livrar das famílias de baixa renda que moram nos locais. Acionam a justiça e legalmente têm direito de despejar as pessoas, independentemente do pagamento do aluguel estar em dia. Super Barrio então reúne os condôminos, pede união faz passeatas, avisa que está defendendo a construção e torce por um final feliz. Tem direito até a BarrioMóvel.
Em outro ponto, Fray Tormenta, um homem também vestido de herói, com roupa e máscara clássicas de luta livre, fala de seu trabalho social, resgatando crianças da rua e dando alimentação e educação. Vemos imagens comuns ao Rio de Janeiro, com famílias morando dentro de buracos e crianças viciadas na rua. Além da máscara, uma capa com símbolos do catolicismo justificam a missão divina.
Já Ecologista Universal é um herói clássico, um capitão planeta sem poderes, desses que são assassinados em nossas florestas e manguezais. O foco não é o seu trabalho contra o desmatamento e a morte de animais, mas a quantidade de ameaças de morte e agressões que já sofreu por isso.
Super Animal, o mais divertido deles, luta contra as touradas. Além de ser uma herança espanhola, é extremamente cruel com os animais. Para que ninguém duvide disso, o documentário mostra a trajetória do touro já maltratado na fazenda, passa pela arena (com espadas sendo ficadas de todos os modos) e filma a carcaça depois da morte. Acredite se quiser, o touro é arrastado com uma corda para rua e aberto em público,a frente de quem quiser ver. Vários homens se juntam e bebem copos e copos de sangue, enquanto as tripas são levadas para um caminhão. Super Animal diz que se os toureiros são tão corajosos deveriam enfrentá-lo em um combate até a morte. Com um carro estilizado, possui também um ajudante, o Super Animalito.
Super Gay luta pelo fim do preconceito e da violência. Joga vôlei com os amigos, anda de mãos dadas com o namorado, participa de parada Gay agitando bandeira. Seu primeiro parceiro morreu após um ataque na rua, quando saíam de um bar. A parte mais eficiente é a entrevista de uma mãe que perdeu o filho gay e não pode dizer aos vizinhos a verdade, para não ser prejudicada no emprego ou hostilizada pela sociedade (o filho foi morto em um hotel, após violência sexual e tortura).
Mesmo com a relevância do conteúdo, o documentário peca na qualidade da imagem e da edição. Ao mostrar os heróis separados, perde-se a noção do grupo e a união aqui é um conceito primordial. O filme não diz se há um vínculo maior entre eles do que as máscaras e, havendo esse vínculo, como interagem em suas causas. Repleto de silêncios, caminhadas e olhares para o infinito, fica a impressão de que as cenas foram incluídas apenas para cruzar a barreira de 80 minutos que separa o média e o longa metragem. 75 minutos de apresentação e 5 minutos com os resultados dos trabalhos.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















