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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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29/03/2007

A nossa ratoeira

Estreou no Rio e, desde o início deste ano, já viaja pelo Brasil, A ratoeira, montagem da mais famosa peça de Agatha Christie (The mousetrap, 1952), com direção de João Fonseca. Cenário grandioso, figurino impecável e atores entrosadíssimos, o espetáculo é competente e bastante fiel ao texto original. Esta fidelidade talvez seja o ponto mais delicado da atual versão brasileira (houve outras, nos anos 50 e 70). A trama, extensa demais, poderia tornar óbvia a intriga e, antes de o final surpreender, o público já anteciparia a identidade do assassino. O policial de mistério, se encenado, requer um tempo preciso, uma duração exata da ação, o que se não for observado pode derrotar muita superprodução. Não só as marcas textuais que visam ressaltar indícios ou pistas falsas devem ser precisamente entoadas, mas a sonoplastia, a iluminação e o movimento são recursos indispensáveis para se chegar ao efeito desejado, à surpresa final. Confesso que pude ouvir algumas interjeições de surpresa na platéia que lotava o teatro, quando assisti à peça. Mas, antes do final, eu já estava cansado.

De fato, não fui ao teatro motivado pelo criminoso da hospedaria Monkswell (cenário onde se reúnem todos os suspeitos). Intrigava-me outro mistério: que coisa faz esse texto da rainha do crime (originalmente uma radionovela, depois adaptada para o teatro) estar em cartaz ininterruptamente no West End theatre, em Londres, há 54 anos? Saí do teatro sem a resposta certa, mas com pelo menos uma pista.

Foi em Londres que o gênero policial criou raízes e se popularizou. Um dos primeiros grandes centros urbanos do mundo a experimentar as mazelas do próprio crescimento, a cidade virou cenário ideal para os crimes misteriosos que só mentes privilegiadas como a de Hercule Poirot poderiam solucionar. E se não fosse o surgimento do detetive, esse herói da modernidade urbana, com certeza seria entre ruas escuras e estreitas, ou dentro de sobretudos, no fog das noites úmidas, que os criminosos se dissipariam para todo o sempre. A simbiose entre o gênero policial de mistério e o cenário londrino é tão forte no imaginário ocidental, que, até hoje, assim como há no mundo inocentes que não crêem que o homem tenha pisado na lua, há outros que endereçam pedidos de ajuda ou consultas especializadas ao 221-B, Baker Street, em nome do sr. Holmes, Sherlock Holmes. É como se a Londres mítica dos contos policias se sobrepusesse à cidade real. Pode não ser esta fusão entre mito e realidade o único motivo para a longevidade de A ratoeira, mas com certeza é um deles. A identidade entre a cidade e o gênero policial transformou a peça de Agatha Christie em um ponto turístico londrino.

Tudo isso me ocorreu depois de ter visto Sassaricando – e o Rio inventou a marchinha, de Sergio Cabral e Rosa Maria Araújo. O musical resgata um Rio de Janeiro mítico, que sobrevive no desejo dos habitantes, apesar do clima de guerrilha urbana que o narcoterrorismo e a incompetência dos governantes impõem à cidade. É verdade que este clima também não deixa de ser aludido pela sonoplastia na primeira cena do espetáculo, mas por sobre as rajadas de munição pesada, sobrepõe-se a delicadeza e o humor das marchinhas. As canções são apresentadas em 10 blocos temáticos, juntamente com dois vídeos, ao longo de dois atos, e um gran finale, por um elenco afinadíssimo no canto e na coreografia, e por músicos de primeira.

A direção musical (Luís Felipe de Lima) foi capaz de aliar momentos transgressores como uma paródia lírica da marchinha que dá título ao espetáculo, Sassaricando (Luiz Antônio/Oldemar Magalhães/Zé Mário) ou uma debochada récita de Alá-lá-ô (Haroldo Lobo/Nássara), com a vivacidade de arranjos que reverenciam e renovam as tradicionais bandinhas carnavalescas. O sexteto, em palco, liderado pelo carisma e o sarcasmo de Eduardo Dussek, canta, dança e envolve o público. Deixa a certeza de que todos vivem na Cidade Maravilhosa, aquela do bonde, de Noel Rosa e Ismael Silva, dos velhos carnavais, de Chiquinha Gonzaga, das cadeiras nas calçadas, de Ataulfo Alves e Mário Lago, do Cordão da Bola Preta… este mesmo bloco que até hoje atrai foliões no sábado de carnaval e transforma a Cinelândia em elo perdido entre duas cidades distintas.

Dussek, Pedro Paulo Malta (que também esteve na cena de outro projeto antológico, O samba é minha nobreza) e Alfredo Del-Penho compartilham o palco e o canto com Soraya Ravenle, Juliana Diniz e Sabrina Korgut, e através da malandragem ingênua das marchinhas, fundam com e para o público a comunidade cordial e zombeteira, Rio que sonhamos ter sido e transformamos diariamente num vir-a-ser. As cento e poucas marchinhas apresentadas ao longo de duas horas de espetáculo deixam o público com vontade de voltar. Sassaricando é para ser visto e revisto por todos. Cariocas, brasileiros, turistas estrangeiros devem visitar este espetáculo como a um ponto turístico. Esse espetáculo é a nossa “ratoeira”, momento mágico em que velhos e moços comungam a cidade dos sonhos, em que todos os crimes têm solução.Tudo isso pode estar bem longe da cidade real, mas estou convicto de que a realidade do Brasil será muito melhor se, em 2070, Sassaricando ainda estiver em cartaz.

 


Alexandre Faria é professor de Literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de Anacrônicas (7 Letras).

A nossa ratoeira



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