Scoop
Com mais de quarenta filmes no currículo como diretor, fica difícil falar alguma coisa sobre Woody Allen e sua fórmula mágica. A essa altura ou você gosta ou você não gosta. O problema é que Woody Allen também anda com dificuldade para falar alguma coisa nova de si, o que deixa um gosto de mais do mesmo nos personagens que ele interpreta, apesar da precisão na direção.
Scoop dividiu os críticos. Fórmula desgastada, piadas repetidas e outro punhado de frases comuns nas críticas ao diretor. O engraçado é que as reações se devem menos ao valor absoluto do filme e mais à comparação inevitável com o antecessor, Match Point, que fez bastante sucesso de crítica e de público e colocou novamente o diretor no centro das atenções, justamente quando Allen decidiu não atuar e disfarçou suas gags de comédia com um suspense.
Scoop, entretanto, é uma comédia, o retorno ao estilo tradicional. Sondra Pransky, uma jornalista loira burra, participa de um show de mágica (alguém da platéia, por favor) e, ao entrar em uma caixa de desmaterialização, encontra um famoso jornalista recém-falecido que conta um Scoop ou furo de reportagem – o serial killer das cartas de tarô que está matando mulheres é Peter Lyman, aristocrata bonito, exemplar, que usa terno, tem o cabelo bem cortado, esbanja dinheiro e é filho de Lord Lyman.
Sondra fica com a imagem na cabeça e volta depois do show para falar com o mágico Sid, Woody Allen. O mágico debocha da loira até que o fantasma aparece na sua frente e confirma a dica. Desse ponto em diante, o filme se divide em dois. Um deles é o roteiro bem costurado, com caprichos inteligentes e pontos de trama que fazem a história andar para frente. O outro é o palco pessoal de Allen, quase uma stand up comedy com atores secundários sem fala. Como as piadas não encontram contexto para existir, elas interrompem a continuidade dramática, transformam-se em alívio cômico dentro da comédia. Fica a pergunta se no lugar delas não caberiam novas evoluções do roteiro.
No filme, Sid e Sondra se apresentam como pai e filha para se infiltrar na alta-sociedade e investigar a vida de Peter Lyman (Hugh Jackman). Allen vira uma espécie de acessório de Sondra (Scarlett Johansson), o famoso acessório verborrágico que atropela os demais personagens. Como a direção de atores de Allen é muito peculiar, Scarlett Johansson e Hugh Jackman, que apesar da fama ainda lutam para dizer a que vieram, ficam amarrados ao tempo de ação de Allen, um jeito certo de sorrir, uma expressão exagerada de raiva, a reação natural às loucuras de Sid. O lado positivo é que Allen em si é uma segunda versão da tragédia grega, por isso não priva os personagens da dicotomia e explora muito bem nuances de personalidade. No roteiro, mantém a criação de rimas que fortalecem a diegese dentro da realidade extrapolada da comédia. Como o assassino usa cartas de tarô, lá está Sid fazendo truques com seu baralho. Allen também busca associações entre a morte e a água, utilizando ambos os elementos de diversas formas, a mais óbvia através do fantasma do jornalista (que para voltar ao mundo dos vivos e escapar de Caronte mergulha no rio da morte).
Deixando as peripécias entediantes de Sid de lado, Scoop pode passar como uma comédia inteligente, que parodia o clima detetivesco usando sua própria estrutura. Se você é fã vai gostar. Se não é, escolha outro filme. Se nunca viu nada de Woody Allen, comece com Poderosa Afrodite.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















