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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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06/04/2007

Rasga coração

Há quase vinte e oito anos não subia à cena uma montagem profissional de Rasga Coração, última peça de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). Vianinha foi um dos mais importantes homens de teatro que o Brasil já conheceu. Participou ativamente do Teatro de Arena, do CPC-UNE, da vida política e artística de nosso país durante os anos de ditadura militar. É um dos criadores do seriado A Grande Família; tendo reformado a teledramaturgia nacional. Para Rasga Coração, Vianinha e sua amiga Maria Célia Teixeira realizaram uma vasta pesquisa sobre o panorama político e cultural do Brasil nos últimos 50 anos (a peça é de 1972-74) – a maior pesquisa já feita para se escrever uma peça de teatro. Vianinha começou a redigi-la em 1972, mas teve que interrompê-la para se dedicar a escrever para televisão.

Após descobrir que estava com câncer, Vianinha fez um esforço sobre-humano para terminar aquela que considerava sua melhor obra, na qual faz mais uma vez uma auto-crítica ao revolucionário de esquerda. O segundo ato foi criado literalmente em seu leito de morte. Sem conseguir escrever com as próprias mãos, ditava para sua mãe, que datilografava e entregava para o filho revisar. Infelizmente, Vianinha não pôde ver sua última obra encenada. Rasga Coração foi censurada e só estreou em 1979, com a abertura política, sob direção de José Renato e com Raul Cortez no papel principal. Durante cinco anos, cópias mimeografadas do texto censurado haviam circulado entre a classe artística, arregimentando uma grande torcida pela encenação da peça. A morte prematura de Vianinha também colaborou para tornar a montagem da peça um marco na história do teatro brasileiro. Rasga Coração se tornou um ícone da resistência artística à ditadura militar. Vianinha também não viu encenadas suas obras: Papa Highirte, Mão na Luva, Moço em Estado de Sítio.

Rasga coraçãoNunca Vianinha ousou tanto ao escrever uma peça quanto em Rasga Coração. Grande parte da ação se passa no apartamento de Custódio Manhães Jr., apelidado de Manguari Pistolão, onde o protagonista vive com sua mulher Nena e seu filho Luca. Mas Vianinha cria inúmeros outros focos de atenção, pois Manguari se relaciona igualmente com seus fantasmas, personagens que habitam sua memória – o pai, conhecido como 666, fiscal do Serviço de Saneamento do RJ; Castro Cott, integralista fanático; o revolucionário Camargo Velho; e principalmente o amigo, Lorde Bundinha, simpático, alienado, piadista e libertino. Os flashbacks invadem a ação do presente, dialogando com os fatos, relativizando-os. As diversas inserções do plano da memória deixam claro de quem é o ponto de vista da peça: de Manguari Pistolão.

A ação dramática de Rasga Coração demora a se estabelecer, mas quando Luca é suspenso do colégio por ter cabelos compridos, seu pai Manguari Pistolão vê aí uma chance de animar politicamente o filho, incentivando-o a fazer dessa suspensão um ato consciente e revolucionário. Pai e filho entrarão em choque ideológico, pois o filho hippie vai tentar demonstrar ao pai a fragilidade de suas convicções e ações políticas. Apesar de dar justificativas plausíveis para o pensamento e as palavras de ambas as personagens, Vianinha parece tomar o partido do posicionamento do pai. É o próprio Manguari que diz na peça: “Revolução sou eu! Revolução (…) é todo dia, lá no mundo, ardendo, usando as palavras, os gestos, os costumes, a esperança desse mundo”. E logo em seguida, chama o filho Luca de covarde e alienado. Vianinha escreveu essa peça para pôr em xeque uma questão que o incomodava: nem sempre o novo é revolucionário. Nunca foi a favor das drogas, do desbunde, da guerrilha; sempre olhou com desconfiança qualquer ação que pudesse nos alienar da realidade ou que levantasse a hostilidade da opinião pública.

Rasga coraçãoA atual montagem de Rasga Coração, dirigida por Dudu Sandroni, tinha um grande desafio pela frente: provar que o texto de Vianinha não era datado. Para tanto, os diversos discursos políticos que se entrecruzam deveriam se tornar verdadeiros em cena. Infelizmente, nem sempre é isso que acontece no palco do Teatro Glória. Muitas vezes, os atores não conseguem dar sustentação aos apaixonados pontos de vista de seus personagens. Nosso mundo atual não tem mais a esperança de uma reforma política, ideológica, cultural, que alimentava Vianinha nos anos 60 e 70, mas isso não absolve atores e direção de defender esse passado recente, com convicção e coração. O título da peça já nos dá uma pista em relação a isso. A vida, a luta e a morte de Vianinha os obriga a isso. Mas a montagem nem sempre escapa do academicismo, conduzindo o elenco, a cenografia, o figurino e trilha sonora incidental a um tom ilustrativo.

No elenco, Zecarlos Machado tem altos e baixos na pele do contraditório Manguari Pistolão; às vezes o fragiliza demais, tornando-o covarde, auto-indulgente e tolo, parecendo esquecer-se de que é o filtro da ação dramática da peça. Afinal, tudo ocorre na sua memória, no seu apartamento, na sua participação anônima como revolucionário. Algumas vezes emprega um tom teatral demais, o que contribui para distanciar ainda mais seu personagem da afetuosidade do público. Sua artrite convence tão pouco quanto suas convicções. A infância e adolescência de seu personagem não precisavam também de um boné para ilustrar a idade, mas Zecarlos o utiliza. Inclusive na cena, em que aos 19 anos de idade, tenta uma relação sexual com a jovem namorada Nena. O ator empresta maior carga dramática no segundo ato, mas ainda assim, parece ter dificuldade de se apropriar genuinamente das palavras de seu personagem, perdendo vantagem para seu rival ideológico, o próprio filho Luca, interpretado por Pedro Rocha. Pedro é carismático e constrói um Luca crível e convicto, lhe conferindo verdade e paixão. Há simpatia nesse enfarado da civilização e o público parece compreendê-lo melhor. Kelzy Ecard também tem bom rendimento como Nena. Apesar da diferença de idade entre atriz e personagem, Kelzy interpreta com humor e verdade a esposa e mãe dos dois protagonistas. Talvez seja a personagem que menos tenha modificado com o tempo e o atual momento histórico. É o arquétipo da mãe amorosa, sofredora, sempre apta a pôr panos quentes e conciliar os conflitos domésticos. Daí uma comunicação franca com a platéia. Xando Graça estabelece empatia como Lorde Bundinha, mas não dá conta das partes mais dramáticas do papel, nos momentos de doença e morte do grande amigo de Manguari. Seus acessos de tosse não convencem e seu gradual enfraquecimento não encontra eco interior na interpretação de Xando. Alexandre Dacosta defende febrilmente o seu 666, mas em alguns momentos parece destoar do tom geral da peça, resvalando para a farsa. Expedito Barreira também atua farsescamente como Castro Cott. Alexandre Mofati tem uma interpretação confusa de Camargo Velho, e suas falas são geralmente ditas como do alto de um palanque, o que desumaniza a personagem. Tiago D´Avila está caricato como o apresentador do concurso de dança e ainda um pouco limitado como Camargo Moço, faltando-lhe talvez compreensão da dimensão da personagem. Miriam Roia não está bem no papel de Milena, atuando acima do tom e com voz esganiçada. Para alguns atores ainda falta vivenciar, em vez de narrar. Uma coisa é dizer: “estou morrendo”, outra bem diferente é morrer em cena. Na arte dramática, dar a palavra nem sempre é dar a coisa.

O cenário de Lídia Kosovski é eloqüente. O apartamento de Manguari, não exatamente realista, acumula mesas, cadeiras, escrivaninhas, quadros, armários, objetos em abundância, sendo dominado por uma grande persiana, que separa o nicho do revolucionário do mundo lá fora. Jornais no alto da cenografia completam o quadro. Uma grande luminária de boate não tem grande utilidade e dificulta a visão de algumas cenas que se dão no alto do cenário. É um grande painel de referências pessoais e temporais. Atores saem e entram pelos vãos deixados pelo amontoado de móveis, mas a direção poderia ter aproveitado melhor as possibilidades insinuadas pelo cenário. A iluminação de Djalma Amaral dialoga mal com a cenografia, não estabelecendo a criação de espaços alternativos para os diversos focos de Rasga Coração. Alguns efeitos se repetem a cada flashback, e a luz em nada surpreende. Focos laterais tiram o caráter evocativo da peça e enfeiam a cena, deixando sombras – inclusive fora da caixa cênica. Muitas vezes a luz deixa a cena desprotegida, fazendo conviver, numa intimidade confusa, os personagens reais e os fantasmas. O figurino de Ney Madeira é correto, mas em alguns momentos também não consegue escapar de certo tom ilustrativo, particularmente nas roupas dos três personagens mais jovens e no terno verde de Castro Cott. A parte musical (que faz parte da pesquisa de Vianinha e Maria Célia) dá um tom simpático às cenas, acompanhada algumas vezes por coreografias simples mas eficientes de Duda Maia. A trilha incidental deixa a desejar, pois ilustra em vez de emocionar. Vale a pena destacar também a seriedade do programa da peça, que esclarece o espectador quanto aos momentos históricos, gírias e personalidades citados em cena.

À direção de Dudu Sandroni falta talvez uma maior ousadia, e a montagem atual de Rasga Coração não escapa totalmente de um tom acadêmico. Permanece certo caráter didático na encenação, distanciando-se da intenção apaixonada e urgente da última obra de Vianinha. Falta rasgar o coração dos atores para que o coração da platéia seja tocado. Platéia que, em grande parte, não vivenciou os apertos dos anos de chumbo, mas que poderia tomar contato sentimental com essa experiência. Faltou também criar espaços cênicos criativos para a relação entre as personagens. Apesar das pequenas dimensões do palco do Teatro Glória, seria possível aproveitar melhor a cenografia e exigir mais da iluminação. Faltou expulsar de cena certo tom demasiadamente teatral e pouco verdadeiro de alguns atores e alguns falsamente “apaixonados” discursos políticos. Faltou extrair maior peso dramático de algumas cenas. Se a ação complexa de Rasga Coração não adquire vida e verdade em cena, tudo se perde. E os discursos e os atos passam a ser de mentirinha, para ilustrar algo que deveria estar lá e não está. Faltou destacar a personalidade de Manguari Pistolão, tornando-o o real protagonista da peça. Mas em algumas vezes, Luca e Nena assumem o comando da cena. A música final em off, na voz de Kelzy Ecard, parece estabelecer que “o coração e o penar” da canção sejam de Nena, e não de Manguari. Faltou talvez à direção traçar um paralelo maior entre a época de composição da peça e a nossa. Teríamos muito o que pensar e discutir sobre a figura de Manguari Pistolão, visto que em nossa época assistimos ao ocaso do revolucionário, do homem politicamente engajado que acreditava na ação gradual e anônima, na mudança da mentalidade do povo. Em 1974 os artistas ainda se preocupavam com a nação, com o bem-estar geral, com a conscientização do público, e não apenas lutavam individualmente pelo sucesso e pela sobrevivência pessoal. Acreditamos que, além de seu interesse histórico, tenha sido por isso que Dudu Sandroni e sua equipe escolheram Rasga Coração para ser encenada: comprovar a contundência e importância desse autor e desse texto. Senão por que encená-la? Mas a montagem irregular de Rasga Coração entra, muitas vezes, em conflito com a fuga de clichês empreendida por Vianinha. Esse homem lutou para fazer uma análise sincera e intensa de sua posição na sociedade, da sua participação, da eficácia de sua obra. Falta à atual montagem essa mesma contundência. Falta coração. E falta rasgá-lo.

Teatro Glória – Rua do Russel, 632 – Glória
Tels.: 2555-7262
5ª a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: 5ª e 6ª f, R$20,00; sábado e domingo, R$25,00
Classificação etária: 14 anos
Temporada: até 13 de maio

 


Marcelo Morato é ator, diretor de teatro, professor da CAL e do curso de musicalização Agnes Moço, dramaturgo e tradutor.

Rasga coração



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