300
300, adaptação do HQ homônimo de Frank Miller dirigida por Zack Snyder, tem recebido boas resenhas em todos os países onde estreou, foi considerado pelo New York Times o primeiro filme obrigatório do ano e apenas Rodrigo Santoro sofreu com críticas pontuais, certo exagero de seu personagem. É verdade que o fim de semana de estréia extremamente lucrativo nos cinemas americanos e as primeiras críticas vindas de lá influenciaram os resultados seguintes em uma onda positiva. Parece que ninguém quer se levantar contra a maré de dólares e de sangue. Com apenas um mês de exibição, 300 já se aproxima de US$323 (sempre em milhões) de bilheteria mundial, um ótimo resultado para um filme que custou US$65. Para entender melhor a força dos números, vale comparar com outros blockbusters vindos de HQs.
Superman Returns custou US$270 e arrecadou US$ 391. Motoqueiro Fantasma, custou US$110 e se aproxima de US$215. Sin City, também uma adaptação da obra de Frank Miller, custou US$40 e arrecadou US$158.
300 conta a história da batalha de Termópilas, em que 300 espartanos comandados pelo Rei Leônidas lutaram bravamente até a morte e conseguiram atrasar a invasão do exército de Xerxes, dando tempo para as cidades gregas organizarem o contra-ataque. Contam pontos para o heroísmo sacrifical “o maior exército do mundo”, “soldados imortais”, “o rei-deus”, “lutadores de garras e presas” e outros qualificadores relacionados ao império persa na época da batalha das termópilas.
Apesar do potencial financeiro e da aprovação de Frank Miller e da maioria dos fãs, 300 não é um filme fiel às suas origens narrativas e dramáticas. Quando decidiu banalizar a violência para transformá-la em ferramenta gráfica, o diretor esvaziou tudo o que há de humano no HQ, perdendo as entrelinhas. Nas páginas do gibi, não nos interamos dos sentimentos e conflitos dos soldados através de seus olhos, gritos e risadas, mas pelas nuances de cores e sombras dos cenários, no céu sempre vermelho, naquele tom de pôr do sol eterno mantido pelas fogueiras quando a noite cai, não para aprisionar a cor de sangue, mas para manter a densidade psicológica que ele ativa em nosso inconsciente na transformação mítica da luz em trevas. Basta pensar em O grito, de Munch, e perceber no unwelt o turbilhão interior do homem com face de múmia. No HQ, os personagens se comunicam o tempo inteiro com os elementos externos. Zack Snyder passou longe disso. O diretor que chamou atenção com a refilmagem de Dawn of Dead (Madrugada dos Mortos) viu em 300 um novo filme de terror, e substituiu a magnitude do império persa por um circo de horrores. Temos bestas lutadoras, elefantes de guerra, rinocerontes montados, soldados gigantes deformados, homens com mãos de lâminas e os lendários imortais agora com feições zumbificadas, próximas a dos Orcs de Senhor dos Anéis. O gibi foi recriado quadro a quadro, um capricho visual bem-vindo. Mas o espaço vazio entre os quadrinhos que deveria ser desenvolvido na transposição para aumentar a coesão diegética e a teia narrativa foi desperdiçado. Temos de um lado o invasor, do outro o defensor. O invasor é covarde e vem com o maior exército do mundo, o defensor é heróico e leva apenas trezentos homens. O invasor é rico, esbanja ouro e anda sobre escravos. O defensor usa tanga, capa e elmo e trata os soldados como semelhantes. O invasor aceita deformados e dançarinas lésbicas, o defensor chama os atenienses de maricas e expulsa os que não nasceram para a guerra.
Do que adianta um filme com tão diversa paleta de cores, se a história e os personagens são pretos e brancos? Rodrigo Santoro foi acusado de exagero. Mas as demais atuações estão repletas deles. Veja por exemplo o momento em que o mensageiro negro de Xerxes chega às portas de Esparta. Por que erguer o cavalo negro contra a luz, parado nas duas patas traseiras, fazendo cara de poucos amigos enquanto balança crânios com coroas num chaveiro gótico? É para impressionar quem o recebe ou quem assiste ao filme? Por que colocar Xerxes (que era realmente alto) como um gigante, com dedos que lembram o ET de Spielberg e cobrem o dorso inteiro de Leônidas? A direção de atores também é responsabilidade do diretor. Nos HQs, Xerxes é mais sóbrio e menos deslumbrado. Leônidas mais introspectivo e menos arrogante. Os sacerdotes deformados não exibem seu aspecto grotesco como um trunfo nem lambem a mulher que faz o papel de oráculo para estimular a revelação. Mas como dito, Snyder decidiu apagar as entrelinhas. Snyder falha como diretor, falha como roteirista e mesmo no diálogo com seu diretor de fotografia. Estética é mais do que textura, mais do que pintar abdomens definidos, vide Maria Antonieta de Sophia Coppola. Um bom roteiro não indica na primeira cena quem vai morrer dramaticamente uma hora depois. Uma boa montagem cria unidade e faz desaparecer os cortes entre cenas. Um bom diretor usaria tempo desenvolvendo a narrativa ao invés de congelar as cenas de efeitos especiais, ridicularizando os personagens envolvidos.
Walter Benjamin aponta em seu Estética da guerra a arte que existe por trás da mortandade. É a guerra que dá um objetivo real para o compacto deslocamento das armas, é o momento em que o homem se funde com a máquina e transforma uniformes e metralhadoras em partes do próprio corpo. Nela se desenvolvem arquiteturas únicas, na organização de exércitos de homens idênticos, no movimento de tanques e aviões. O homem, que sempre domina a máquina e exige dela energia para funcionar, se vê obrigado a uma inversão de valores, transformando-se na energia humana que movimenta batalhões inertes, natural e não-natural trocam de lugar.
Obviamente, 300 não dialoga com o futurismo, mas dialoga com a guerra e com a geometria, os círculos de 300 escudos, a sincronia dos taques, as ondulações de chicotes, os polígonos de pontas de lanças e espadas, multidões de máscaras iguais (por isso os espadachins de Xerxes eram chamados de Imortais). 300, o filme, cai no abismo das Termópilas entre um ponto e outro. Não aproveita o drama, raso e calcado em gritos, e não aproveita o estético, preferindo braços, pernas e cabeças voando.
Novamente, recorro a Walter Benjamin para explicar o fenômeno de público de 300: “A reprodução em massa corresponde de perto à reprodução das massas. Nos grandes desfiles, espetáculos esportivos e guerreiros, captados pelos aparelhos de filmagem e gravação, a massa vê seu próprio rosto”.
Leia também Os 300 de Esparta de Frank Miller
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


















